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18/10/2018
09 de abril de 2018 às 12h33 | Geral

Aplicativo garante autonomia e traz dignidade aos usuários do transporte público com deficiência visual

Aplicativo de mobilidade urbana ‘Todos no ônibus’ foi desenvolvido para facilitar o deslocamento deste público

Por: PMCG
Divulgação/PMCG

Quase 24% da população brasileira – cerca de 45 milhões de pessoas – é composta por pessoas com algum tipo de deficiência, conforme o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Deste total, 40% representam o grupo de deficientes visuais (parcial ou total).

Isso levou o Município a tomar providências e implantar melhorias na cidade para trazer mais segurança e comodidade a esta parcela da população, nas muitas práticas do cotidiano. A acessibilidade de deficientes visuais no transporte público coletivo foi uma das primeiras providências, com a criação do aplicativo de mobilidade urbana ‘Todos no ônibus’, desenvolvido para facilitar o deslocamento desse público específico.

“Este é mais um compromisso da nossa gestão, que tem priorizado a inclusão social e acessibilidade. Nossa administração já criou, por exemplo, a Coordenadoria de Apoio às Pessoas com Deficiência, priorizando o protagonismo destes cidadãos. Vamos continuar investindo em acessibilidade e inclusão, porque acreditamos que com a devida atenção a suas necessidades, as pessoas com deficiência podem sim ser independentes e produtivas”, declarou o prefeito Marquinhos Trad.

Pioneira no País, a ferramenta deve atender neste primeiro momento cerca de 523 pessoas em Campo Grande. Esse é o número de usuários cadastrados pelo Consórcio Guaicurus, que têm direito a gratuidade na passagem, conforme previsto pela legislação que assegura os direitos da pessoa com deficiência.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos usuários com deficiência visual no transporte público coletivo é a falta de segurança na hora de embarcar ou desembarcar do veículo, já que na maioria das vezes dependem de informações de terceiros para orientá-los.

“Dependemos da boa vontade de quem está próximo para informar se determinada linha já passou naquele ponto, e outras informações. Mas a boa IMG_6898vontade em ser solidário nem sempre é típica do ser humano, que vive correndo e concentrado em seus próprios problemas. Acontece que uma informação errada leva a gente para outro destino ou então estamos ali parados e não percebemos que o ônibus passou ali na nossa frente, já que as pessoas geralmente não estão preocupadas em prestar atenção na necessidade do outro. Sem falar das vezes que a pessoa coloca a gente dentro do ônibus e no caminho percebemos que não era o ônibus certo. Esses são apenas alguns dos transtornos enfrentados”, reclama José Aparecido de Souza, 40 anos, que nasceu com deficiência total de visão.

Com o aplicativo, ele se considera uma pessoa livre. “Agora não preciso sentir que estou incomodando ninguém, porque tenho o controle e a minha independência nas mãos para ir e vir de onde eu quiser sem precisar da ajuda de estranhos. É sem dúvida uma libertação”, comemora Souza, que mora no bairro Jardim Aeroporto e foi um dos voluntários selecionados para o teste piloto do ‘Todos no ônibus’.

Quem também aprova a nova ferramenta é o atleta Valdir Lustosa, 43 anos, também deficiente visual. Animado ao poder deslocar-se sem pedir informação para alguém, ele disse que não tem conhecimento de outra cidade com um aplicativo neste nível de acessibilidade.

“Campo Grande é a primeira a criar algo assim. Não tem no país um aplicativo tão completo como este. Estamos saindo na frente no que se refere a acessibilidade para deficiente visual. A gente é chato sim para reivindicar e exigir que sejam cumpridos nossos direitos, mas também reconhecemos quando existe boa vontade. Esse aplicativo demonstra respeito e atende uma das maiores necessidades de quem tem limitação da visão. Sem dúvida uma conquista”, considera Lustosa.

Segundo o presidente do Instituto Sul-mato-grossense para Cegos Florivaldo Vargas – Ismac, Márcio Ximenes Ramos, no ano de 2012 o poder público municipal vislumbrou a intenção de aplicar algo neste sentido, mas que não saiu do papel. “Naquela época o Município anunciou um projeto neste sentido e acabou gerando grande expectativa. Mas, não saiu do papel. Ainda que a ferramenta não fosse tão específica como a recém criada pela Prefeitura, seria um auxílio, que não veio. Hoje a realidade é outra e já podemos comemorar a conquista. Participamos da construção desse aplicativo e neste sentido atestamos que ele atende as necessidades do público ao qual se destina”, destaca.

O presidente da Associação dos Deficientes Visuais de Mato Grosso do Sul – Advms, Silvan Cardoso de Azevedo, concorda com Márcio sobre a autonomia que o aplicativo permite a pessoa com deficiência visual, seja de baixa ou completa visão.

“Muitas vezes uma pessoa de baixa visão não apresenta que possui a deficiência e ainda é ‘tachada’ de analfabeta quando está no ponto e pergunta qual é a linha do ônibus que acaba de chegar. Situações como esta afeta também a dignidade da pessoa. Esse aplicativo é sem dúvida uma independência enorme para essa parcela da população. Apenas quem enfrenta esse tipo de dificuldade pode dimensionar essa conquista, mas posso afirmar que ela é gigantesca”, considera.

Juntos, o Ismac e a Advms possuem cerca de 1,6 mil pessoas cadastradas, cujo montante representa apenas uma parte da parcela de pessoas com deficiência visual que vivem hoje em Campo Grande.

Parceria

Coordenado pela Agência Municipal de Tecnologia da Informação e Inovação (Agetec), o aplicativo levou cerca de oito meses para ser desenvolvido, através de uma parceria da Prefeitura, Consórcio Guaicurus, Ismac, Advms e Ministério Público Estadual, por meio da 67ª Promotoria de Direitos Humanos de Campo Grande.

O diretor-presidente da pasta, Paulo Fernando Cardoso, explica que a atual gestão municipal foi informada pelo MPE da tentativa frustrada nos anos anteriores, da criação de uma ferramenta neste sentido, mas que era apenas uma adaptação de um aplicativo que já existia no país, para atender alguns situações envolvendo o transporte coletivo, mas que não saiu do papel.

 “Na ocasião, apresentamos o nosso projeto, que inclusive é uma das metas sendo cumpridas do Programa de Governo do prefeito Marquinhos Trad. Com ele, defendemos um cronograma bastante ousado para a entrega da solução, o que aconteceu graças a parceria de todas as entidades envolvidas e a confiança do MPE no projeto”, justifica Cardoso.

O titular da Agetec destaca o diferencial da nova ferramenta. “Entendo que é o único aplicativo no Brasil com esse nível de inserção do usuário final. Existem soluções genéricas que foram adaptadas para algumas situações, mas  nada parecido com o ‘Todos no ônibus’. A ferramenta foi desenvolvida através dos apontamentos do próprio  usuário do transporte público, que tem deficiência visual, visando garantir maior acessibilidade a estes cidadãos. A nossa intenção é ampliar a ferramenta e, futuramente, adaptá-la para atender mais usuários em condições especiais. Mas esse já é um passo muito significativo e importante neste sentido”, argumenta.

O diretor de projetos em Tecnologia da Informação da Agetec, Luis Cezar Ribeiro, informa que o aplicativo está pronto para uso desde março, após 400A9906passar por testes pilotos com os próprios usuários. “Foram selecionadas algumas pessoas para fazerem o uso do aplicativo e apontarem suas considerações para que a ferramenta fosse formatada dentro da realidade desse público específico. Após todas as adequações e com o acompanhamento de todas as entidades envolvidas foi possível concluir o projeto e disponibilizar o aplicativo para a população”.

Na avaliação do diretor-presidente da Agetran, Janine de Lima Bruno, a ferramenta atende a um anseio da população. “É uma coisa muito importante. Não apenas as pessoas com deficiência visual, mas aquelas que se importam com a inclusão tentam há anos conquistar avanços neste sentido. É uma das maiores necessidades desse público, que por diversas vezes apresentou suas demandas, mas que por uma série de entraves não conseguia caminhar. A nova administração da Capital mostrou que é possível buscar soluções por meio de parcerias e o aplicativo é prova disso. Esse é mais um avanço que ficará marcado na história de Campo Grande, porque está garantindo, na prática, a inclusão”.

Em parceria com a Prefeitura, o Consórcio Guaicurus já iniciou campanhas nos terminais e também no interior dos veículos de transporte público coletivo para informar a população da existência da nova ferramenta. Uma espécie de recadastramento aconteceu no segundo semestre do ano passado, visando atrair esse público. Até o momento 183 pessoas já estão habilitadas para o uso do aplicativo.

Como vai funcionar

Todas as 189 linhas disponíveis na cidade estão prontas para receber os usuários do aplicativo. Com o uso de um tablet, o motorista será avisado por um aviso sonoro, no momento em que o usuário do aplicativo solicitar a linha. O motorista terá o registro do ponto onde estará o usuário e, ao chegar ao local, o mesmo irá chamar o passageiro pelo nome. A iniciativa facilitará a pessoa na hora do embarque e ainda oferece segurança, já que o aplicativo oferta todas as informações necessárias para o usuário chegar ao destino desejado.

O aplicativo será útil antes mesmo de o passageiro chegar ao ponto, uma vez que o sistema, por meio de áudio, irá orientar o usuário durante o trajeto até o ponto mais próximo. É um conjunto de soluções que alia tecnologia, conectividade e ação humana. Neste sentido, os motoristas do Consórcio Guaicurus também passaram por uma qualificação a fim de entenderem o procedimento para abordagem dos passageiros durante o embarque especial.

João Resende Filho, diretor do Consórcio Guaicurus, disse que o aplicativo é de uma importância singular na inclusão social. “Essas pessoas têm direitos assim como todas as demais. Junto com a atual gestão municipal, propusemos algo diferente de tudo o que já existe no país neste sentido. Assim, surgiu esse aplicativo, construído por quatro mãos. Isso traz independência para esse público e está a disposição da nossa população”.

O diretor do Consórcio ressalta que a utilização do aplicativo será exclusiva para pessoas com deficiência visual, que deverão procurar a sede da entidade para a atualização de seus dados cadastrais e a validação do CPF, por meio do qual será liberado o acesso para baixar o aplicativo.

Serviço

Consórcio Guaicurus: Rua Visconde de Tauni, nº 318 – Bairro Amambaí (próximo a igreja Perpétuo Socorro)

Horário de atendimento: das 9h às 16h

Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 0800 647-0060

 

 

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