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19/01/2020
28 de abril de 2013 às 09h00 | Cultura

São Jorge, Ogun ou Oxossi, dia 23 de abril foi marcado pela fé

Católicos, umbandistas e candomblecistas rendem homenagens ao santo

Por: Lucas Junot
BrasilEscola

 Na última terça-feira (23) foi comemorado o dia de São Jorge. O santo guerreiro católico de milhares de fiéis tem uma história intrigante, permeada por lendas medievais, que perduram por centenas de milhares de anos e move devotos em todo o Brasil.

O dia 23 de abril é feriado estadual no Rio de Janeiro. Na Capital, a tradição reúne os devotos organizam, desde a madrugada até o anoitecer, as comemorações em todas as regiões do Estado.

Além do Rio de Janeiro, São Jorge é patrono da Inglaterra, Portugal, Geórgia, Catalunha, Aragão, Lituânia, da cidade de Moscou e de muitos outros locais e entidades. Muito venerado em outros lugares e até em outras religiões, seu culto na Igreja, mesmo com poucos dados históricos, e mesmo com as dificuldades encontradas na comprovação das atas de seu sofrimento, remonta ao século V, e com as “cruzadas”, através da “legenda dourada”, o fizeram popular no Ocidente.

De acordo com alguns documentos, São Jorge teria nascido na antiga Capadócia, região do sudeste da Anatólia, que atualmente faz parte da Turquia asiática. Quando criança mudou-se para a Palestina com sua mãe após a morte do pai em uma batalha. Chegando à adolescência, Jorge entrou para a carreira militar, na qual logo foi promovido a capitão do exército romano. Devido à sua dedicação e suas várias qualidades recebeu do imperador romano a função de Tribuno Militar.

Nesse período em que São Jorge viveu, entre os séculos III e IV, a Igreja era perseguida pelos imperadores romanos, que nessa época era Diocleciano e tinha estreita colaboração do comandante Maximiano.

Segundo a igreja, o imperador tinha planos de matar todos os cristãos, e num certo dia de reunião marcado para definir o decreto de extermínio dos cristãos, quando surge a figura de São Jorge declarando-se espantado com aquela decisão, e afirmando que os ídolos adorados nos templos pagãos eram falsos deuses. Todos ficaram surpresos com estas palavras, pois ele fazia parte da suprema corte romana. Indagado por um cônsul sobre sua ousadia, São Jorge respondeu-lhe que era por causa da Verdade. O cônsul pergunta a ele: “o que é a Verdade¿”.

Jorge respondeu-lhe: “A Verdade é meu Senhor Jesus Cristo, a quem vós perseguis, e eu sou servo de meu redentor Jesus Cristo, e Nele confiando me pus no meio de vós para dar testemunho da Verdade”.

Depois dessas palavras o imperador tentou fazê-lo desistir da fé, torturando-o de vários modos. Após cada tortura era levado ao imperador que lhe perguntava se renegaria a Jesus para adorar os ídolos. Contudo, Jorge sempre confirmava a sua fé em Jesus Cristo. Finalmente, o imperador Diocleciano, não tendo êxito, mandou degolá-lo no dia 23 de abril de 303, em Nicomédia (Ásia Menor).

A sua morte e martírio aparecem nas principais línguas antigas: grego, latim, copta, siríaco, etíope e turco. Os restos mortais de São Jorge foram transladados para Lida (ou Lod, antiga Dióspolis),que é uma cidade da região da atual Israel e foi onde teria residido sua mãe. Ele foi sepultado e, mais tarde, o imperador cristão Constantino mandou erguer um suntuoso oratório aberto aos fiéis, para que a devoção ao santo fosse espalhada por todo o Oriente. Dessa maneira foi propagada a sua devoção por meio do seu belo testemunho de seguidor de Jesus e homem que deu a sua própria vida por Aquele que é a Suprema Verdade.

Sincretismo

No Brasil São Jorge é sincretizado com dois Orixás: Ogun e Oxossi/Odé (na Bahia). A analogia varia conforme a região do país. No Candomblé, Ogun é o Deus do ferro, dos caminhos e estradas, da batalha, guerreiro desbravador.

A Iyalorixá Zilá Dutra, sacerdotisa do Candomblé há 37 anos, que conduz há 25 anos um terreiro em Campo Grande, explica que a analogia entre os santos católicos e os Orixás foi um artifício usado pelos negros para disfarçar sua prática religiosa, proibida à época.

“Os negros observaram semelhanças entre seus Deuses e os santos católicos. Dessa forma disfarçavam e conseguiam cultuar sua fé sem coerção. Desse processo de sincretismo consolidou-se a Umbanda, genuinamente brasileira, que mescla dogmas católicos com a religião de matriz africana. Em todo caso, São Jorge também se tornou popular na difusão dessa cultura”, conta.

Música

Com tamanha popularidade, São Jorge passou a ser objeto de músicas de diversos artistas no Brasil e no mundo. Jorge de Capadócia é uma música de Jorge Ben, interpretada também por Caetano Veloso, Fernanda Abreu e pelos Racionais MC's.

Na música "Alma de guerreiro", de Seu Jorge, São Jorge é citado. A música é tema de abertura da telenovela Salve Jorge, de Glória Perez, que tem como tema São Jorge.

Existe um romance sobre São Jorge criado pelo escritor italiano Tito Casini chamado Perseguidores e Mártires (no Brasil, editado pelas Edições Paulinas, por volta de 1960). No livro, São Jorge é retratado como o verdadeiro paladino da Capadócia que, apesar de ser perseguido pelo tirano imperador Diocleciano, manteve-se fiel ao Império Romano, mas também a Cristo e se recusou a contrair alianças com o genro do imperador, Galério, que pretendia ter o apoio do conde da Capadócia para liderar um golpe contra Diocleciano, o que o santo militar recusou terminantemente.

A banda inglesa Iron Maiden fala de São Jorge na música "Flash of the Blade", no álbum Powerslave. A banda brasileira Angra utilizou a imagem do santo na capa do álbum Temple of Shadows.

Zeca Pagodinho gravou recentemente em seu álbum "Uma Prova de Amor" a música "Ogum" com uma letra com um forte apelo ao sincretismo, a oração de São Jorge é feita no trecho final da música pelo cantor e compositor Jorge Ben.

Moacyr Luz e Aldir Blanc fizeram em homenagem ao santo a música "Medalha de São Jorge", que foi gravada pela Cantora Maria Bethânia em 1992.

Além disso, São Jorge é o Santo Padroeiro da Cavalaria do Exército Brasileiro e dos escoteiros.

Lenda do dragão e da princesa

As lendas medievais contam que Jorge era filho de Lorde Albert de Coventry. Sua mãe morreu ao dá-lo à luz e o recém nascido Jorge foi roubado pela Dama do Bosque para que pudesse, mais tarde, fazer proezas com suas armas. O corpo de Jorge possuía três marcas: um dragão em seu peito, uma jarreira em volta de uma das pernas e uma cruz vermelho-sangue em seu braço. Ao crescer e adquirir a idade adulta, ele primeiro lutou contra os sarracenos e, depois de viajar durante muitos meses por terra e mar, foi para Sylén, uma cidade da Líbia.

Nesta cidade, Jorge encontrou um pobre eremita que lhe disse que toda a cidade estava em sofrimento, pois lá existia um enorme dragão cujo hálito venenoso podia matar toda uma cidade, e cuja pele não poderia ser perfurada nem por lança e nem por espada. O eremita lhe disse que todos os dias o dragão exigia o sacrifício de uma bela donzela e que todas as meninas da cidade haviam sido mortas, só restando a filha do rei, Sabra, que seria sacrificada no dia seguinte ou dada em casamento ao campeão que matasse o dragão.

Casamento de São Jorge e Sabra

Ao ouvir a história, Jorge ficou determinado em salvar a princesa. Ele passou a noite na cabana do eremita e quando amanheceu partiu para o vale onde o dragão morava. Ao chegar lá, viu um pequeno cortejo de mulheres lideradas por uma bela moça vestindo trajes de pura seda árabe. Era a princesa, que estava sendo conduzida pelas mulheres para o local do sacrifício. São Jorge se colocou na frente das mulheres com seu cavalo e, com bravas palavras, convenceu a princesa a voltar para casa.

O dragão, ao ver Jorge, sai de sua caverna, rosnando tão alto quanto o som de trovões. Mas Jorge não sente medo e enterra sua lança na garganta do monstro, matando-o. Como o rei do Marrocos e do Egito não queria ver sua filha casada com um cristão, envia São Jorge para a Pérsia e ordena que seus homens o matem. Jorge se livra do perigo e leva Sabra para a Inglaterra, onde se casa e vive feliz com ela até o dia de sua morte, na cidade de Coventry.

De acordo com a outra versão , Jorge acampou com sua armada romana próximo a Salone, na Líbia. Lá existia um gigantesco crocodilo alado que estava devorando os habitantes da cidade, que buscaram refúgio nas muralhas desta. Ninguém podia entrar ou sair da cidade, pois o enorme crocodilo alado se posicionava em frente a estas. O hálito da criatura era tão venenoso que pessoas próximas podiam morrer envenenadas. Com o intuito de manter a besta longe da cidade, a cada dia ovelhas eram oferecidas à fera até estas terminarem e logo crianças passaram a ser sacrificadas.

O sacrifício caiu então sobre a filha do rei, Sabra, uma menina de quatorze anos. Vestida como se fosse para o seu próprio casamento, a menina deixou a muralha da cidade e ficou à espera da criatura. Jorge, o tribuno, ao ficar sabendo da história, decidiu pôr fim ao episódio, montou em seu cavalo branco e foi até o reino resgatá-la, mas antes fez o rei jurar que se a trouxesse de volta, ele e todos os seus súditos se converteriam ao cristianismo. Após tal juramento, Jorge partiu atrás da princesa e do "dragão". Ao encontrar a fera, Jorge a atinge com sua lança, mas esta se despedaça ao ir de encontro à pele do monstro e, com o impacto, São Jorge cai de seu cavalo. Ao cair, ele rola o seu corpo, até uma árvore de laranjeira, onde fica protegido por ela do veneno do dragão até recuperar suas forças.

 

 

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