Em 10 anos, participação de países desenvolvidos caiu de 62,5% para 42%, devido à China
Na última década, não só o modelo das exportações brasileiras mudou, como também o perfil de seus compradores. Se em 2000 o país vendia às nações desenvolvidas 62,5% da pauta, esse número caiu para 42,1% no ano passado. Liderados pela China, os países em desenvolvimento agora são os maiores importadores de produtos brasileiros e ficam com nada menos que 57,9% do total, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento. No entanto, a alteração não significou apenas a diversificação dos destinos das mercadorias, o que seria bom — sobretudo em um momento em que os países desenvolvidos continuam às voltas com a crise financeira —, mas a perda do seu valor agregado.
Estudo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), revela que a nova demanda dos países em desenvolvimento, que cresceram a taxas invejáveis, ajudaram a jogar para cima os preços das commodities, o que levou o Brasil a deixar de lado a pauta de manufaturados e se dedicar aos produtos básicos. De 2000 a 2011, cresceram as suas compras de produtos brasileiros em nada menos que 716,5%.
“Foi a década da preguiça, movida pelos altos preços das commodities, incendiados pela demanda mais forte dos asiáticos, em um período em que o mundo vinha crescendo em ritmo acelerado. Perdemos a oportunidade de atacar os manufaturados” disse o presidente da AEB, José Augusto de Castro.
Só os EUA, que abocanhavam uma fatia de 25% das nossas exportações, ficaram com 10% em 2011. Segundo Castro, os americanos compravam majoritariamente manufaturados do Brasil. O problema, segundo ele, é que os preços das commodities encheram os olhos dos produtores, que se transformaram nas cigarras da década.
“Sem medidas mais drásticas, não nos vejo virando formigas” acrescentou.
Esses preços fizeram as exportações brasileiras bater recorde no ano passado. Por isso, 72% da pauta exportada eram produtos básicos.
Quando comparadas às importações mundiais no estudo da AEB, vê-se que a China, de longe, foi quem mais aumentou as compras pelo mundo. E a sua pauta é basicamente de commodities. Passou a comprar US$1,8 trilhão em 2011 contra US$249 bilhões em 2000. Os EUA importaram US$2 trilhões, contra US$1,2 trilhão, enquanto a Alemanha passou de US$497 bilhões para US$1,1 trilhão no período.
“A China importou para exportar. Fez o seu dever de casa, como a Índia, que exporta manufaturados” disse Castro.
Ênfase em ‘commodities’ afeta indústrias do país
Entre os Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil exportava em 1980 pouco mais de US$20 bilhões para o exterior. Na mesma época, a Rússia vendia ao exterior US$76 bilhões. A China vinha em seguida com US$18 bilhões e a Índia, na lanterna, com US$9 bilhões. No ano passado, pouco mais de três décadas depois, o Brasil exportou US$256 bilhões, contra US$315 bilhões dos indianos, e nada menos que US$1,8 trilhão dos chineses. Os russos aumentaram suas vendas no período para US$530 bilhões.
O resultado do novo apetite dos países em desenvolvimento teve impacto direto sobre as receitas de exportações do Brasil pois turbinou não só a quantidade, mas, sobretudo, os preços. As vendas de minério de ferro, vedete da balança em 2011, renderam US$41,8 bilhões no ano passado, contra US$3 bilhões em 2000. Trata-se de um aumento de 1.394%. Já os preços saltaram no período de US$19 para US$126.
A dependência cada vez maior da venda de produtos básicos e a perda de competitividade dos manufaturados estão provocando uma desindustrialização na economia brasileira, alerta o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti. Para ele, o Brasil está jogando fora as conquistas obtidas nos anos 80, quando a pauta de exportação do país incluiu produtos de alto valor agregado.
“No fim dos anos 70, saímos daquele perfil de exportadores de café e começamos vender produtos com valor agregado, que geram emprego e riquezas. Isso está se perdendo rapidamente” disse ele, lembrando que, quando se retiram as commodities da contabilidade das exportações, a balança comercial brasileira passa a ter um déficit de US$100 bilhões.
Helton Verão/Fonte: O Globo
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