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Economia

Alta da Selic teria pouco efeito para frear inflação

17 abril 2013 - 17h00 Por Mariana Rodrigues/Informações IG

 Uma alta de 0,25 ou 0,50 ponto percentual na taxa básica de juros, como cogita parte do mercado, teria efeito mínimo sobre o preço de bens e serviços, ou seja, provavelmente faria pouco para esfriar o consumo e a inflação no curto prazo – o principal argumento para que ela seja elevada. Nesta quarta-feira (17), o Banco Central (BC) decide qual será o valor dessa taxa, a Selic, para os próximos 45 dias – atualmente ela vale 7,25% ao ano, o menor patamar da história.  

Nas últimas semanas, a inflação se tornou assunto no noticiário e nas ruas do País. A alta dos preços nos últimos 12 meses chegou a 6,59%, pouco acima da meta anual do governo. O temor da pressão inflacionária ganhou inclusive uma personificação do mal – o tomate.

"Houve um problema de inflação, principalmente de alimentos e serviços. O tomate foi a grande estrela. Mas o preço dos alimentos já está caindo novamente, e tivemos a supersafra, que acabará ajudando", afirma André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos. O Índice de Preços no Atacado caiu 2,99% no ano no que diz respeito à área agrícola. "Uma hora isso chega ao consumidor", acredita Perfeito.

Além disso, por mais que o tomate esteja caro, quase ninguém parcela a compra da feira – ou seja, não se paga juros nessa operação. Mas, mesmo bens que dependem de financiamento teriam o preço afetado apenas minimamente por uma eventual alta da Selic. Uma geladeira de R$ 1.500 paga em 12 meses resulta, hoje, em parcelas de R$ 159,83 e num total desembolsado de R$ 1.917,94. Se a Selic subir 0,25 ponto percentual, a parcela vai para R$ 160,01 e o montante final pula para R$ 1.920,17, somente R$ 2,23 mais.

"O Banco Central sabe que 0,25% a mais na Selic não vai segurar a inflação no curto prazo. A questão é outra. Seria mais para mostrar ao mercado que a autoridade monetária está atenta à inflação e não vai deixar que ela saia do controle", diz Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor de estudos econômicos da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. 

"Subir os juros realmente não faz diferença nenhuma nos preços agora, não vai frear o consumo, mas tem efeito sobre a expectativa do mercado, é uma mensagem do BC", afirma Alcides Leite, economista e professor da Trevisan Escola de Negócios.

O mercado tem pressionado pela alta. Economistas que participam das reuniões trimestrais com o Banco Central, quando a autoridade "ouve" os especialistas, afirmam que a ampla maioria consultada se diz favorável ao aumento. "Tem gente que diz que a gente já está sendo comparado com a Argentina, o que é um absurdo", conta um desses especialistas.

"Não é uma conspiração maquiavélica para fazer o BC subir os juros", diz Perfeito. O economista fala isso porque, de certa forma, o mercado financeiro se beneficiaria de juros mais altos, que remuneram melhor o capital investido dessa forma. "É só um desconforto real com os índices, que é revelado ao BC. Não é que o mercado joga contra, mas ele tenta olhar para o futuro e ver o que esperar – e uma inflação elevada seria ruim", diz o economista, que não é favorável à subida da taxa.

Embora os efeitos de uma alta sejam pequenos sobre a inflação no curto prazo, eles podem ser significativos num horizonte mais estendido. "A médio prazo, poderia ter resultado, porque os empresários que controlam os preços sentiriam confiança na postura do governo sobre a inflação, ou seja, saberiam que os custos deles também não vão subir de forma descontrolada", explica Oliveira, que é favorável ao aumento. "Normalmente sou contra, acho juros altos uma coisa ruim, mas não podemos descuidar da inflação, e no momento 60% dos itens medidos estão subindo de preço", diz.  

Efeitos colateais

O problema de elevar os juros, na visão dos economistas, é que isso não afeta somente a inflação, mas também – e talvez principalmente – inibe o crescimento econômico. Quando o dinheiro custa mais caro, fica difícil fazer investimentos de longo prazo na indústria, por exemplo. Ou convencer as pessoas a comprar imóveis e outros bens que dependem de financiamentos longos. Ou seja, a economia desacelera. E, no momento, ela já está desacelerando.

Os dados de fevereiro refletem esse esfriamento. O IBC-BR, considerado uma prévia do PIB, teve recuo de 0,52% no mês. A produção industrial caiu 2,5%. As vendas no varejo registraram baixa de 0,4%. O mau desempenho das ações na bolsa brasileira mostram que a economia anda devagar. Nos últimos 12 meses, o Ibovespa teve queda de 13%, resultado bem pior que em outros mercados importantes, como México (+10,55%), Nova York (+14,7%), Londres (+11,3), Frankfurt (+16%), Índia (+9,29%) e Turquia (incríveis +40%). "O mercado está tão incomodado com a inflação que não vê o óbvio – a economia está desacelerando", diz Perfeito.

Poderia haver, ainda, outros efeitos indesejáveis. Os países ricos agora praticam políticas monetárias expansionistas. Isso significa que injetam dinheiro no mercado para estimular o consumo – é o caso do Japão, que vai colocar mais de US$ 1,4 trilhão na economia do país nos próximos dois anos. Mas, como lá os juros são baixíssimos, parte dessa dinheirama poderia vir parar aqui, onde se paga mais pelo seu uso – em outras palavras, onde os juros são altos.

Se uma Selic maior resultar em uma forte entrada de dólares no País, o preço da moeda americana tende a baixar – qualquer coisa que exista em maior quantidade fica mais barata, em tese. Isso é ruim para as exportações e teria impacto na balança comercial, que acumula um "superdéficit" de US$ 4,5 bilhões em 2013 – de longe, o recorde histórico para um início de ano.

Além disso, uma Selic mais alta sempre significa que o custo da dívida pública tende a subir. Isso porque a maioria dos títulos emitidos pelo governo para se financiar é indexado à taxa básica de juros.

Fato é que as autoridades monetárias têm dado ouvido às pressões do mercado pela alta da Selic. "Não há e não haverá tolerância com a inflação. Nós estamos nesse momento monitorando atentamente todos os indicadores e obviamente no futuro vamos tomar decisões sobre o melhor curso para a política monetária", afirmou recentemente o presidente do BC, Alexandre Tombini. "Não titubeamos em tomar medidas. Inclusive posso dizer que, mesmo as medidas que são consideradas menos populares, são tomadas, por exemplo, em relação às taxas juros, quando isso é necessário", disse, no mesmo dia, o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Assim, o governo estaria disposto a ceder parte do terreno conquistado com os cortes da Selic nos últimos anos, entendeu o mercado – que, após as declarações, elevou a chamada curva de juros de longo prazo. A redução sequencial da Selic foi, sem exagero, um evento histórico. A taxa teve dez cortes seguidos e caiu 5,25 pontos percentuais desde agosto de 2011. "Juros reais menores que a poupança é algo que não se vê desde o segundo império, se é que ocorreu antes", diz Perfeito. 

E, por mais que não exista a tal "conspiração maquiavélica", parece provável que a diminuição na rentabilidade do mercado financeiro, causada em parte pelos juros menores, tenha a ver com a pressão para que a Selic volte a subir. "A inflação já esteve nesse patamar antes, e ninguém reclamava. Mas naquela época os juros eram mais altos", lembra Leite, da Trevisan.

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