A direção da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto (313 km da capital) vai investigar trotes humilhantes e brincadeiras com conteúdo sexual cometidos por veteranos contra calouros em uma festa de recepção aos novos alunos da instituição de ensino.
Nesta terça-feira, no campus da universidade, o assunto ainda repercutia. Alguns dos alunos do curso discordaram dos trotes: dez deles publicaram uma nota de repúdio, assinada, também, por dez professores, 21 entidades e 65 alunos de todo o país.
O polêmico evento, chamado de "Festa da Coroação", aconteceu no dia 28 de fevereiro na república Mansão Foster, fora do campus.
Na nota de repúdio, alunos relataram que calouros tiveram de fazer um juramento com conotação sexual. As mulheres teriam de prometer fazer sexo apenas com os veteranos durante o primeiro ano do curso, permanecendo "belas e exclusivas" a eles.
Já os homens teriam de prometer abdicar de seus pênis no mesmo período.
Segundo uma das veteranas que assina a nota e não quis se identificar, na festa ocorreu uma espécie de ritual chamado "Bixete Pega o Disquete". Nele, as meninas tinham de desfilar e rebolar. "Eu disse que elas não eram obrigadas a participar, mas não deixaram elas saírem."
A obrigatoriedade do uso de uma coroa até o dia 13 de maio --mesmo dia da Abolição da Escravatura, quando os novatos são "liberados" pelos veteranos--, segundo os alunos, também tem causado pressão sobre os novos alunos. Prática similar ocorre com calouros de medicina, que têm de usar boinas amarelas.
De acordo com a aluna, um dos calouros decidiu não usar a coroa e foi abordado por um veterano de forma agressiva.
O diretor da faculdade, Ignácio Maria Poveda Velasco, deu uma entrevista coletiva nesta terça para falar sobre o caso. Segundo ele, embora o problema dos abusos seja lamentável, os fatos ocorridos não representam a tônica da faculdade. Em casos extremos, os alunos poderão ser advertidos ou até expulsos.
Sônia Coelho, do Marcha Mundial das Mulheres, disse que o caso reforça a diversão baseada na discriminação. "É um ato repugnante. Brincadeira em que só um lado brinca, não é brincadeira."
DIVISÃO
O trote realizado fora do campus dividiu a opinião dos alunos do direito. Para a maioria ouvida, o caso não é considerado grave.
"Houve exagero na nota. Claro que os fatos precisam ser apurados, mas é um debate interno", disse Érica Meireles de Oliveira, do primeiro ano. Victor Cabral, também calouro, disse que não há repressão contra eles.
O presidente do Caaja (Centro Acadêmico Antônio Junqueira de Azevedo), Danilo Sérgio Souza, repudiou a violência, mas criticou como o caso ganhou repercussão. "A nota não reflete a realidade dos alunos." Segundo ele, nenhum estudante é obrigado a participar da festa.
O caso gerou uma disputa entre os estudantes. Ontem uma veterana, que fez críticas severas à nota de repúdio, teve seu carro riscado.
Tatyane Soares/Fonte: Folha
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