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Rural

Agrotóxicos proibidos continuam em uso nas lavouras brasileiras

2 setembro 2012 - 11h30 Por Mariana Anjos / Com Informações O Globo

O estado do Mato Grosso lidera a lista dos maiores consumidores nacionais de pesticidas. Vestígios de contaminação foram identificados por pesquisadores em rios do Pantanal.

Localizado no coração da América do Sul, o Pantanal Mato-grossense é visto como uma região peculiar não só pelas suas belezas naturais como também pelo papel que desempenha na conservação da biodiversidade.

Reconhecido como Reserva da Biosfera em 2000, a maior planície alagada do mundo começa a emitir sinais preocupantes.

Pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso e da Embrapa Pantanal detectaram resíduos de pesticidas, ainda que em pequena quantidade, no leito de rios, córregos, fundo de cachoeiras e lagoas no curso das águas, desde nascentes no Mato Grosso até o Pantanal Mato-grossence.

Reconhecido como celeiro do mundo, terra onde se plantando, tudo dá, o Brasil vem travando uma guerra surda contra o uso indiscriminado de agrotóxico nas lavouras. Maior produtor de grãos do país, o Mato Grosso se tornou epicentro do conflito entre a produção em larga escala e o uso cada vez maior de venenos para conter as pragas.

O estado lidera o consumo nacional de pesticidas. Absorve 18,9% do total usado no Brasil — país líder mundial no uso de agrotóxicos. Em 2011, o faturamento das fabricantes alcançou R$ 8,488 bilhões. Na safra 2010/2011, as lavouras nacionais usaram 936 mil toneladas de agrotóxicos.

Foram 12 litros de veneno por hectare de soja, 23 litros por hectare de cítricos, 28 litros por hectare de algodão, 6 litros por hectare de milho. O problema é que, assim como elimina lagartas e pulgões, os venenos ameaçam a saúde humana.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vem tentando desde 2008 normatizar o uso de agrotóxico no país: 14 produtos foram colocados em processo de revisão. Outros cinco foram colocados na lista suja e tirados de circulação. Só que a ordem nem sempre é cumprida à risca, deixando rastros pelo caminho.

Um dos produtos proibidos é o metamidofós, que foi criado para combater pragas em lavouras de algodão, soja, feijão, tomate, batata e amendoim. O produto elimina cigarrinha verde do feijão, percevejo da soja e broca de tomate. Mas também afeta os sistemas nervoso, imunológico, reprodutor e endócrino, além de prejudicar o desenvolvimento de embriões e fetos.

Veneno, como o próprio nome diz, é feito para matar. A linha entre matar a erva daninha e a saúde das pessoas é tênue. O crescimento do uso de agrotóxico é muito maior do que imaginávamos e o país não pode abrir mão do direito de restringir o uso ou banir — afirma José Agenor Álvares, diretor de controle e monitoramento sanitário da Anvisa.

O uso indiscriminado de agrotóxicos já preocupa o Ministério da Agricultura, que tem buscado incentivar o uso de feromônios e produtos biológicos. Os produtos menos agressivos à saúde humana, porém, ainda são pouco diante do tamanho do mercado.

Há no país 1.537 marcas de produtos químicos tradicionais e apenas 72 desta nova safra de defensivos biológicos. O Brasil é a única potência agrícola tropical do mundo. Consome muito agrotóxico porque aqui não há entressafra e as culturas podem ser plantadas o ano todo ou intercaladas.

Segundo dados da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), dos 50 produtos mais usados nas lavouras do país 22 já são proibidos nos países da União Europeia. O próximo a sair do mercado por aqui, em julho de 2013, será o endossulfam, que tem sua venda proibida em 62 países. — Vendemos remédio para plantas. O produtor cuida delas como cuida de um filho.

Para infelicidade do país, a ferrugem asiática atingiu a soja e faturamos só com fungicida da soja R$ 1,3 bilhão — diz Eduardo Daher, diretor-executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), que reúne os fabricantes do setor.

Nos últimos 20 anos, o Brasil aumentou em 37% a área cultivada e a produção cresceu 181%. Só de grãos, são 52 milhões de hectares. A alta rentabilidade dos agrotóxicos criou um mercado paralelo.

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