Nesta quarta-feira (13), três especialistas em Leishmaniose Viceral participam na sede da Justiça federal de Campo Grande de uma audiência pública convocada pelo juiz federal Renato Toniasso que julgará o processo movido pela Sociedade de Proteção e Bem estar Animal Abrigo dos Bichos.
O evento considerado histórico para a medicina veterinária contou com os médicos veterinários Vítor Márcio Ribeiro (Belo Horizonte) e André Luiz Soares Fonseca (Campo Grande), pertencentes ao Brasileish, grupo de estudos sobre leishmaniose, formado por médicos veterinários sem fins lucrativos.
Segundo informações do Abrigo dos Bichos, a ação visa impedir que a eutanásia de cães continue sendo adotada como única política pública de controle da Leishmaniose Visceral e objetiva mudanças nos procedimentos da Vigilância Sanitária. Pois, segundo a Sociedade, erros acabam vitimando os animais da população mais pobre, que na maioria das vezes, não pode pagar pelo exame de contra prova.
O preço da contra prova que diagnostica a leishmaniose, só é feito em clínicas particulares e custa em torno de R$ 80 em uma boa clínica veterinária. O teste feito pelo CCZ (Centro de Controle de Zoonose) é minucioso, desta foram qualquer infecção que o cão possa ter é detectada como leishmaniose, por isso que muitos exames dão positivo e a contra prova negativa.
Quem chamou atenção mesmo foi o cão Scooby, ele foi diagnosticado com a doença em julho de 2012. Após uma petição pública que teve mais de 23 mil assinaturas, uma liminar impediu que o cachorro fosse sacrificado, dando a ele o direito de ser tratado. Scooby foi para o Abrigo dos Bichos, onde recebe o tratamento necessário contra a doença. Tratado, ele estava totalmente diferente do que se viu a cerca de um ano atrás, gordo, forte, ele está curado clinicamente da doença, conforme afirmou a veterinária Cibele Cação.
“O Scooby fica em um ambiente monitorado, sempre usando a coleira de proteção”, disse a veterinária. Ela alerta ainda que os donos não devem desprezar seus cães por eles estarem com leishmaniose. “As pessoas devem buscar informações sobre a doença e o tratamento, pois a doença tem cura clínica”. Scooby ainda será monitorado por dois anos.
O vereador Eduardo Romero estava presente na discussão e falou que o assunto é muito polêmico. “Não podemos aceitar que um assunto como esse seja tratado de qualquer forma. A doença não é simples, não podemos deixar de achar alternativas para tratá-la”, disse o vereador.
Romero relatou um fato pessoal, onde fez o teste em seu cachorro e deu positivo, quando foi fazer a contra prova, deu negativo, pois o que realmente o cachorro tinha era uma infecção por carrapatos. O vereador diz ser um defensor da busca por alternativas para o tratamento.
Quando questionado sobre a falta de informação sobre o tratamento da leishmaniose, ele diz “há duas coisas importantes sobre a doença, a primeira é que deveria ser oferecida gratuitamente a segunda prova da doença quando ela é diagnosticada, a outra é que tem que se fazer campanhas de esclarecimento para a população, pois muitas vezes, pela falta de informação, as pessoas por terem afeto pelo cão descobrem que ele está doente e acabam agindo da forma errada que é escondendo o cachorro em algum lugar ou até mesmo o abandonando, porque muita gente não sabe sobre o assunto”.
O veterinário e fiscal Sanitário de Bonito (MS), Luiz Eugênio de Miranda Sá, disse que o que o que a prefeitura de Campo Grande fez com a população em relação a dar aos servidores do CCZ “poder de polícia para entrar nas casas das pessoas é terrorismo”. Ele comenta ainda que o CCZ não entrega ao dono o laudo do exame. “O medo do governo é que a população use o resultado do teste da doença para procurar a vacina, pois o pré-requisito da vacina é o laudo dar negativo. Outra coisa que tem que ser questionada é como o Conselho Federal de Medicina Veterinária se sujeita a pressões externas, porque quem quis proibir o tratamento não foram os médicos veterinários”. Luiz denuncia ainda como é feita a escolha do representante do Conselho Federal de Medicina Veterinária, “não somos nós [veterinários] que escolhemos o representante do Conselho, ele é indicado pelo próprio Conselho” desabafou.
O tratamento
Participando da audiência estavam várias pessoas que abraçam a causa e levaram seus animais como forma de protesto, entre eles estava a advogada Natália Beltrão, 25 anos dona de Balú, que contou que seu cão foi diagnosticado com a doença e atualmente ele está curado clinicamente. “Ele está zero, como se não estivesse doente” disse ela orgulhosa. Balú foi diagnosticado com a doença, após sua dona perceber que ele estava com febre alta e convulsão. Sobre o tratamento ela explica que ele toma remédios brasileiros de humanos (usados para tratar a leishmaniose em humanos), “os remédios dele são comprados em farmácia” explica ela.
Para Natália a audiência pública para tratar o assunto é muito importante, e sobre a divulgação ela conta que “a mídia faz uma divulgação muito errada da doença, porque as pessoas achando que tem um cachorro infectado em casa, elas vão ficar também infectadas, que vão pegar a doença, e não é bem isso. Então eu acho que há uma má informação com relação ao assunto de uma forma geral, não é divulgado da maneira correta e uma má informação com relação aos direitos dos proprietários de animais infectados”, disse. Com relação ao CCZ, a forma que eles trabalham, ela foi categórica “eu acho o trabalho do CCZ arbitrário em relação a leishmaniose, eles tomam medidas sem consultar os donos muitas vezes, e passam uma má informação sobre a doença. Mas com meu conhecimento é uma decorrência de posição política, das atuais pessoas que ocupam os cargos que determinam esse tipo de procedimento”, finalizou.
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