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Moradores falam da situação atual de condomínio e como se protegeram do incêndio

7 outubro 2011 - 07h01 Por Markito

Cinco dias após o incêndio ocorrido no apartamento do nono andar do edifício Leonardo da Vinci, a rotina dos condôminos que moram nos outros andares ainda não é a mesma. Muitos moradores preferem não falar com a imprensa, assim como a síndica, mas sem se identificar, criticam o que vêem na mídia sobre as causas do acidente, que encaram como uma fatalidade. Fatalidade esta que causou duas mortes, a do publicitário Giovanni Dolabani Leite, de 24 anos, e da defensora pública Kátia Soares Barroso, de 37 anos.

O marido de Kátia, 2º Subdefensor Público-Geral do Estado, Francisco José Soares Barroso, ainda está internado em estado grave no Hospital Miguel Couto. O filho do casal também esteve internado por intoxicação, mas já não corre risco. A mãe de Giovanni, também chegou a ser internada, mas passa bem e ontem (6) prestou depoimento à polícia sobre o caso. A irmã dele, que não mora no prédio, esteve ontem lá e conversou com o delegado que investiga o caso, Miguel Said.

Enquanto a maioria das famílias já está de volta aos seus apartamentos, algumas pessoas estão um tanto traumatizadas com o acontecido, e ainda não retornaram.  O incêndio ocorreu no nono andar e destruiu um apartamento inteiro, no entanto, ninguém chegou a ser vítima do fogo, a grande vilã, e pivô do desespero, foi a fumaça.

Todas as vítimas, que chegaram a ser internadas ou que vieram a óbito, sofreram ao tentar descer as escadas em meio à fumaça que tomava conta do local, acabaram inalando a substância tóxica, e alguns desmaiaram antes de chegar ao térreo. Oficiais do Corpo de Bombeiros subiram as escadas, escuras por estarem tomadas pela fumaça, e presenciaram todo o desespero dos moradores. Eles orientavam para que as pessoas se protegessem permanecendo na sacada do apartamento e colocando toalhas molhadas no vão inferior das portas. Ao mesmo tempo, agiram rápido para socorrer quem já tinha descido as escadas e inalado a fumaça, como Suzana Leite, que foi conduzida até o térreo em uma maca, carregada por dois bombeiros. Os oficiais controlaram o fogo do apartamento rapidamente, tanto que as escadas ficaram molhadas, o enfermeiro, que estava no quinto andar, Jorge Souza Rocha Pereira, de 37 anos, desceu 15 lances de escada com seu paciente de 83 anos no colo, ele disse que os degraus pareciam estar tomados por uma “cachoeira”.

Além disso, o enfermeiro contou que as luzes acendiam e apagavam nas escadas da saída de emergência, que do quinto ao térreo, chegou a sentir o cheiro da fumaça, mas ele, o idoso com a esposa e duas netas, ficaram bem. Jorge não está trabalhando esta semana. Ainda mancando por ter descido as escadas segurando o peso do paciente, ele está com dores musculares, tomando anti-inflamatório e fazendo fisioterapia.

No meio da escada, Jorge conta que encontrou um homem chorando, e gritando, dizendo que seu filho havia morrido. Ele orientou para que o homem descesse junto com ele, mas após descer alguns degraus, ele subiu novamente as escadas. “Quando chegamos lá em baixo, eu via o desespero das pessoas que conseguiram descer. Todo mundo ainda estava preocupado com quem estava lá em cima”, disse o enfermeiro. Ele contou que viu quando o filho da defensora pública chegou em uma maca carregado pelos bombeiros, a criança estava coberta de cinzas.

Decisão certa

Enquanto algumas pessoas se desesperavam nas escadas, corriam para chegar ao térreo salvas, ou passavam mal inalando a fumaça, outras enfrentaram a agonia da espera. Dentro dos apartamentos, trancadas nas sacadas, elas olhavam para baixo e viam as viaturas dos bombeiros e toda movimentação devido ao incêndio. Mas, obedeciam a orientação ou a intuição, de que deveriam permanecer onde estavam, esperando por socorro e rezando sem entender totalmente o que estava acontecendo.

No décimo quarto andar do edifício, duas famílias se uniram, por volta das 2h30, até o final do incêndio, quando puderam sair da sacada de um dos apartamentos, cerca duas horas depois. Elizabete Cortez Pereira, de 45 anos, estava com o marido e o filho, de apenas 15 anos. Os três saíram do apartamento do décimo quarto andar, em que a sacada já estava tomada pela fumaça, perceberam que ficariam mais seguros se fossem ao apartamento da frente. A empresária Cristina Cazue, que abriu a porta para os vizinhos, estava apenas com o filho, de 10 anos, o marido dela havia ido pescar. Cristina e Elizabete, com seus familiares, foram para a sacada do apartamento que estava mais seguro, e esperaram a ação dos bombeiros, saindo salvos do incêndio.

“Vi muita gente lá em baixo, gritavam pra que a gente descesse, mas tentamos e vimos que a fumaça já estava tomando o lugar com intensidade”, afirmou Elizabete, que conta que voltou na quarta-feira (5) para o seu apartamento. Ela disse que o condomínio ainda não voltou a sua rotina normal. O cheiro das cinzas ainda é forte, e há alguns espaços, como o hall, ainda interditados. A unidade de gás permanece desligada, portanto os chuveiros estão sem aquecedor de água e os fogões sem poder ser utilizados. Por volta de 11h é possível ver diversos entregadores de marmita chegando ao condomínio.

Já Cristina ainda não retornou ao seu apartamento. “Estou um pouco traumatizada e não voltei para meu apartamento ainda. No momento estou no condomínio da minha irmã”, contou a empresária. Cristina disse que na madrugada do incêndio, ela e o filho dormiam, quando um amigo ligou e disse que o edifício estava pegando fogo. “Recebemos a recomendação para ficar no apartamento e não descer as escadas, que os bombeiros já estavam controlando o fogo”. Depois que tudo ficou mais calmo, ela, filho e vizinhos desceram e esperaram, para depois subir novamente e pegar alguns pertences, pois tiveram que desocupar os apartamentos, a pedido da polícia e bombeiros.

Elizabete contou que a família do apartamento incendiado, se salvou da mesma forma que ela. Sérgio, a mulher e dois filhos, ficaram na sacada, colocaram toalhas molhadas no chão, na parte inferior da porta, e esperaram. Na opinião da moradora, o desespero e a falta informação foram os principais fatores que levaram as vítimas a não se protegerem da maneira correta. A família, dona do apartamento que ficou completamente destruído, passa bem e não voltou ao condomínio.

Peritos e o delegado responsável estiveram ontem pela manhã no condomínio. O delegado Said destacou que tudo o que há de informação sobre a causa do incêndio ainda é especulação. “Não podemos dizer nada, enquanto os laudos não estiverem prontos e a perícia concluída. Dizem que foi o exaustor, o aquecedor, sendo que o aquecedor foi a última coisa a ser queimada”. Ele disse que mais pessoas que estiveram no local estão sendo ouvidas, que ainda serão feitas outras análises da perícia no condomínio, e que está também aguardando os laudos dos materiais coletados no apartamento.

Ana Maria Assis

*colaboração Karla Lyara

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