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Exemplo de vida, Gavião completa 108 anos nesta sexta-feira

19 abril 2013 - 09h27 Por Lucas Junot

 Personagem símbolo do Hospital São Julião, José Garcia, o “Gavião”, completa hoje (19 de abril), 108 anos. Lúcido, alegre e com boas condições de saúde, Garcia é exemplo de vida para os funcionários e colegas do hospital.

Do auge de seus 108 anos, o mascote do São Julião anda, conversa, conta histórias e bombardeia todos a sua volta com gargalhadas. A energia do velhinho deriva de uma receita secreta que o MS Repórter revela: Todos os dias, logo cedo, o Gavião “chupa” dois ovos caipiras (crus), intercalados com guaraná ralado antes do café, mas alerta, “ovo branco não presta”.

José Garcia chegou ao São Julião no dia 6 de agosto de 1941, ele é o 11º paciente da história da instituição, conforme o número de seu prontuário atesta. Aos 36 anos, Ele procurou o hospital voluntariamente para tratar da hanseníase (também conhecida como lepra) e, desde então, nunca mais saiu, mesmo tento superado a doença.

O apelido, Gavião, segundo contam os colegas e funcionários, veio do perfil galante e bem sucedido no meio feminino, ainda assim, um homem simples, que trabalhava como faxineiro, nunca teve filhos, nunca se casou e só descobriu o amor anos depois, já nas dependências de sua nova casa, nos braços de outra paciente, Maria Luiza.

Gavião fala de sua amada com um misto de emoção, saudade e alegria, lembrando dos longos cabelos pretos que possuía. A companheira faleceu há mais de 50 anos, vítima de um ataque do coração. Desde então o Gavião não mais alçou voos nesse sentido.

A única relação de José Garcia com o mundo além das portas do São Julião é por meio de Venância Franco Gonçalves, de 68 anos. Ela foi casada com um dos irmãos do Gavião por mais de 40 anos, mas ele também faleceu, há cerca de 20 anos, no entanto o “bebê”, como chama, é uma herança do amor que ficou em sua vida.

“Eu o amo tanto, de uma forma que não sei explicar, ele é o meu bebê, não passo nem uma semana sem vê-lo ao menos duas vezes, não viajo, não consigo me desligar dele e quando ele me vê e sorri pra mim... aquilo me preenche, sou a única referência de família que ele tem”, narra emocionada.

A lucidez e disposição de José Garcia intriga aqueles que o conhecem. Constância Alves  da Cunha, de 67 anos, conta que chegou ao São Julião pela primeira vez aos 10 anos de idade. Entre idas e vindas no tratamento da hanseníase, Constância voltou ao hospital para cumprimentar o Gavião. Espantoso, segundo conta, foi o fato do colega lembrar-se de quando ela chegara, ainda menina. “Ele me reconheceu, lembrou e ainda questionou o meu sumiço, impressiona a força dele”, constata.

A técnica de enfermagem Cristiane dos Santos é uma das encarregadas do pavilhão do Gavião centenário. A profissional declara que o dia a dia lhe confere ensinamentos que considera privilégios. “O Garcia é muito amoroso. Ele me chama de ‘a enfermeira bonita dele’, mas o que mais me impressiona é o quanto ele é bom de coração, é bom viver com pessoas como ele, faz a gente acreditar que a vida vale a pena”, diz.

Tempos de esquecimento

Amilton Fernandez Alvarenga é administrador do hospital há cerca de cinco anos. Com uma visão impregnada pelos fatos históricos que permeiam os 230 hectares da instituição, o administrador conta que em outros tempos o São Julião foi palco de um cenário de horror.

Ele explica que durante a década de 1930, quando o Brasil explodia na revolução que daria início a Era Vargas, os pacientes diagnosticados com a chamada Lepra eram internados compulsoriamente.  A política de tratamento da hanseníase era o isolamento.

Nesse contexto surgiram no país 35 “hospitais” para este fim, entre eles o São Julião. As aspas, segundo Amilton, se explicam porque não haviam médicos, remédios, nem tampouco acompanhamento dos casos. “Era um depósito de gente, vítimas de uma doença que assustava, que gerava repulsa nas pessoas. Aqui tinha cadeia, as pessoas que morriam eram enterradas aqui, funcionava como uma cidade, alheia ao mundo”, conta.

Até 1970 o São Julião era administrado pelo Governo Federal, o que mantinha a situação dos doentes ainda mais distante da preocupação dos dirigentes. Em 1972 criou-se a Associação de Apoio aos Hansenianos, instituída como mantenedora do hospital. Nessa época a irmã Silvia Vecellio passou a dirigir a instituição, onde se mantém até hoje.

Apenas em 1986 o tratamento da hanseníase passou de internação compulsória e isolamento, para o tratamento ambulatorial. Muitas famílias não voltaram para buscar seus entes, outros saíram por conta própria.

Ainda moram no hospital oito pacientes oriundos de internação compulsória. Além dos 100 leitos do hospital, outros 15 leitos são destinados a pessoas que vêm de longe em busca de tratamento.

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