Inusitado. Marceneiro, 49 anos, Elzio Moreira da Silva encontrou um meio diferente de chamar atenção para os critérios de distribuição de habitações populares em Campo Grande. Ele caminha por quilômetros, carregando nas costas uma cruz de 30 quilos, confeccionada em papelão duro, com frases pintadas, alertando para a questão.
O MS Repórter abordou Elzio no cruzamento das ruas 13 de Maio e Amazonas, mas ele vinha do bairro Lagoa da Cruz, “para os lados da UCDB”, disse. Para quem considera a caminhada longa, o marceneiro ainda pretendia seguir até o Terminal Morenão e voltar até a avenida Mato Grosso, pela Rui Barbosa.
Engana-se quem pensa que Elzio protesta para conseguir uma moradia. Pai de família, ele garante ter sua casa própria e não precisar. “A cruz que eu carrego representa o sofrimento da população que realmente precisa, eu não sou carente”, esclarece.
A rotina é a mesma todo começo de semana. Caminhar quilômetros a fio, com sua cruz nas costas, a bandeira do Brasil usada como capa e o chapéu de palha do caminhante pantaneiro. “Faço isso todo começo de semana e não desisto, levo a semana pra me recuperar”, conta.
Questionado sobre a motivação de seu ato e a eficiência de seu protesto, o homem limita-se a dizer que quer colocar em discussão os critérios adotados para a distruibuição de habitações populares que, segundo ele, não contempla quem de fato necessita. Para isso Elzio passa com sua cruz por lugares movimentados, provoca as pessoas a pensarem no assunto e a se informarem sobre o tema, conforme a frase em sua cruz: “Pesquise no Google: farra com as moradias populares”.
A inquietação de um simples marceneiro, como conta Elzio, já o levou a entrar em contato com o Ministério das Cidades e com o Ministério Público, para pedir esclarecimentos, o que o levou a constatar a sua tese. Enquanto isso, a caminhada semanal foi o mecanismo encontrado para que não fosse esquecido.
Fã de São Francisco de Assis, o santo precursor da ordem mendicante dos frades menores, Elzio diz que, por onde passa, recebe cuidados. “As pessoas me dão água, convidam para um lanche e chegam até a sentir dó, mas não têm porque, eu sou feliz por carregar essa cruz, faço porque gosto e quero ajudar”, finaliza.