O morador de rua, Estevão de Oliveira Alves, 32 anos, foi preso em flagrante, no último sábado, em Campo Grande, como responsável pelos ataques em diversos veículos da Capital. Com vários carros sendo incendiados, muitos boatos surgiram em serem causados por facção criminosa, como PCC, fazendo com que a população ficasse bastante assustada com as notícias e possíveis autores. Segundo a polícia essa hipótese está descartada até o momento, pois Alves assumiu a maioria dos casos ocorridos na cidade e foi confirmado que ele não tem ligação com facções.
Na manhã desta quarta-feira (20), o acusado foi apresentado para a imprensa, pela Delegacia Especializada em Repressão a Roubo a Bancos, Assaltos e Sequestros (Garras), onde ele explicou tranquilamente como realizou os ataques e o porquê da atitude. Segundo Estevão, ele incendiou os carros pelo simples fato de protesto pela vida difícil que sempre viveu e vive até hoje. “Fiz pela humilhação que sofri aqui em Campo Grande. Eu estava em Dourados, pedi uma passagem pra ir pra casa e me trouxeram para o Nosso Lar, mas eu consegui fugir. Ninguém me ajudou pra ir embora, com roupa, com nada, ai eu vi no jornal e me deu a idéia, simplesmente para aterrorizar”.
Ele continua “Não sei quando comecei, não tenho data, não sei quantos dias estou na rua, não sei o mês, mas para atear fogo nos carros eu achava o que precisava na rua, faca, tomava de drogado, ai cortava a mangueirinha e colocava fogo, com fósforo, quarenta centavos uma caixinha. O álcool eu achei, em um negócio de saúde da Prefeitura”, contou.
“Eu trabalhava com reciclagem em Dourados, ai pedi para meu patrão me dar dinheiro para ir embora pra casa e me recolheram e me enviaram para o Nosso Lar tomando aqueles remédios para doido, mas eu não preciso disso. Eu sou de Ponta Porã, Mato Grosso do Sul. Minha mãe mora em Coronel Sapucaia. Não sou usuário de droga. Estou com 32 anos, ninguém me ajuda pra nada, vivo comendo comida do lixo, desde que me entendo por gente, enfatizou.
Ele finaliza dizendo que “Fiz isso como ato de protesto, teoria do caos. Vi nos jornais que estavam fazendo isso em outras cidades e resolvi fazer também, o que é fácil, é só deitar embaixo, cortar a mangueira e jogar o fogo”.
O Delegado Titular do Garras, Alberto Vieira Rossi, explicou como tudo aconteceu, até chegarem no autor dos atentados. Ele iniciou mostrando uma caixa térmica encontrada e que o acusado disse ser dele, após ser preso. “Essa caixa térmica foi apreendida junto a primeira carreta na Praça do Rádio. Não sabíamos de quem era e no dia da prisão dele nós mostramos essa caixa e ele disse que era dele e que tinha furtado de uma lanchonete. Junto com essa caixa vieram essas bebidas e dois litros de álcool derramados. Este foi o primeiro caso, dali ele saiu e foi para a Praça do Rádio tentar incendiar”.
Ele afirma o que o acusado contou sobre como teve a ideia de ateara fogo em veículos. “A motivação dele veio de matérias que ele havia lido e não que ele começou a colocar fogo por que ele viu que já estavam fazendo. Então a motivação dele é diferente. Ele leu que em outros estados havia essa sequência de fatos e ele resolveu em forma de protesto começar a fazer isso aqui na cidade. A princípio descartou-se a possibilidade de facção criminosa. Não há informação de ninguém mais fazendo isso, ele assumiu sozinho. Saímos com ele e ele foi mostrando todos os locais, onde ele colocou fogo”, contou o delegado.
“Em todos os locais, ele não se lembra de um, não se recorda, mas pela proximidade e pelo horário, deduz que foi ele também. Então quando nos trabalhamos, trabalhamos com fatos que são trazidos pra dentro de inquérito policial. O fato que nós temos, é que ele agiu sozinho e incendiou esses carros no centro da cidade. Ele nos levou a aproximadamente 13 lugares, ele não lembra de algumas coisas”, destacou Rossi.
“Nós estamos fechando ainda a atribuição, estamos aguardando ainda as imagens que foram solicitadas do centro da cidade para descartar essa possibilidade de ter ou não outras pessoas fazendo, mas a principio, são 10 fatos, 10 atentados e esses 10 estão sendo atribuídos a ele, inclusive alguns que não tínhamos conhecimento. Nós estamos trabalhando com a idéia inicial que ele é o único autor, a princípio. São cerca de 17 veículos, mas no total de 10 casos, pois tem caminhões e carros que estavam juntos. Além de dois casos que não forma registrados. Isso só em Campo Grande. Sidrolândia e, Terenos, ele não tem participação com isso”, enfatizou o delegado.
Segundo informações do Delegado, o primeiro ataque foi na quarta, depois seguido na quinta e ai no sábado ele foi autuado em flagrante, após cometer outros até a hora do almoço. Foram todos em sequência e então ele foi preso, autuado em flagrante por incêndio em seis veículos. Depois da prisão não ocorreu registro de atentados, apenas um veículo que pegou fogo nessa terça-feira (19), no centro da cidade, mas que segundo o Corpo de Bombeiros, seria por um curto circuito”, destaca.
Agora as investigações prosseguem, o inquérito vai ser concluído em 10 dias, relacionado ao flagrante, que são seis veículos. “Os demais nós temos um pouco mais de tempo e vamos trabalhar com mais cautela. A princípio ele é o autor de todos eles. Se no decorrer desse inquérito, desses 30 dias, não houver novas provas, vamos ter ele como autor desses incêndios todos. Estamos com algumas dificuldades, por que algumas pessoas não registraram ocorrência, deram entrevista, mas não registraram seus veículos e não fizeram o boletim de ocorrência”, disse Rossi.
Para finalizar, o delegado disse que ele está sendo acusado pelos crimes de furto, roubo e incêndio criminoso. Se ele for julgado por todos esses crimes separadamente, pode pegar de oito e vinte anos, aproximadamente, de prisão. “Descarto que ele tenha qualquer tipo de ligação com facção criminosa. A única informação que tivemos dele foi com o Nosso Lar. Ele disse que era só para causar pânico. Ele tem problema mental, ele é foragido do sanatório. Uma psicóloga do local disse que ele precisa de um acompanhamento psicológico. A princípio ele vai ficar aqui enquanto durarem as investigações”.