Escolhido como prefeito de Campo Grande nas eleições de 2012, Alcides Bernal (PP) completa hoje (10), exatos 100 dias à frente da administração da Capital. A postura e todo o processo de transição do chefe do executivo municipal são alvo de muita observação e críticas de munícipes e também da classe política. Além dos 100 dias como prefeito, de outubro até a posse no dia primeiro de janeiro deste ano, Bernal teve tempo para se preparar para a chamada transição.
Aos simpatizantes e ainda contentes com a administração do prefeito Alcides Bernal, mesmo diante de poucas inovações e mudanças, conforme o prometido, resta o argumento de que apenas 100 dias à frente da administração da Capital ainda tornam qualquer crítica prematura e infundada.
O MS Repórter elaborou uma análise comparativa entre os 100 dias da gestão de Bernal com os 100 dias da administração do ex-prefeito Nelson Trad Filho (PMDB). A diferença é gritante.
Era uma manhã de segunda-feira, dia 11 de abril de 2005. O prefeito Nelson Trad Filho reuniu o secretariado para fazer uma avaliação dos primeiros 100 dias de administração e anunciou a inauguração de 45 obras. Entre os dias 14 de abril e 03 de junho, o prefeito entregava 431 unidades habitacionais, a cobertura e o fechamento de 34 quadras de escolas, além de ampliação e reforma de unidades de saúde, escolas, rádio comunitária indígena e a Alameda que liga a Avenida Nelly Martins (Via Parque) ao bairro Coophafé.
As inaugurações começaram no dia 14 de abril com a entrega de duas salas de Telecentro para apoio à inclusão digital, social, capacitação e empreendedorismo, localizadas nas incubadoras de empresas Mário Covas e Giordano Neto.
O plano de metas do então candidato pela coligação “A Força da Gente”, Alcides Bernal, prometeu “o maior programa habitacional da história de Campo Grande”, mas até o centésimo dia da administração não há qualquer menção sobre a entrega de unidades habitacionais da Empresa Municipal de Habitação (Emha). Além disso, no mesmo plano de metas estava expresso compromisso de “construir arenas multiuso com campos de futebol com iluminação, quadras poliesportivas, ginásios de esportes”, entre outros.
Assistência Social
Na assistência social, Bernal prometeu durante a campanha ampliar as vagas nos Ceinfs para atender 10 mil crianças, desenvolver um programa antidrogas, fortalecer os Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas) e fortalecer as políticas públicas voltadas para as mulheres, jovens e idosos. Até o momento apenas o programa “Mulheres em Ação” está em vigor, lançado no dia 8 de março. A iniciativa tem por finalidade dar atendimento à mulher. Para tanto, o programa integra as secretarias ligadas às áreas de assistência social, saúde, educação, cultura, lazer, esporte, habitação, entre outros.
Na gestão do ex-prefeito, Nelson Trad Filho, na área social, a Prefeitura firmou convênios apenas para 2005 (primeiro ano de mandato) no valor total de R$ 2.630.429,82, atendendo 73 organizações filantrópicas não-governamentais que prestam serviços de natureza assistencial para mais de 15.000 pessoas.
Meio Ambiente e manutenção da cidade
Para atender as demandas do meio ambiente, o plano de governo de Bernal definiu como metas a revisão da licitação do lixo, a qual o prefeito nunca mais mencionou, garantir a manutenção e limpeza urbana da cidade, recuperar mananciais, nascentes, rios, praças, jardins, entre outros.
No que tange à manutenção da cidade, Nelson Trad Filho trabalhou em seus primeiros dias de administração os trabalhos de limpeza, manutenção e conservação da cidade com uma força-tarefa composta por 800 homens e 106 equipamentos rodoviários. Com investimento mensal de R$ 2,5 milhões, as equipes executaram serviços de capina, limpeza, recolhimento de entulho, recuperação de ruas asfaltadas e sem asfalto em toda aérea urbana de Campo Grande. Em iluminação pública, além da reposição de lâmpadas queimadas e troca de relés, a administração municipal de Nelsinho instalou naquele ano 497 novas luminárias completas nos bairros Zé Pereira (201), Bosque da Esperança (51) e Caiobá II (245).
Também naquele ano, Nelsinho iniciava a licitação das obras da Orla Morena e a primeira etapa do projeto Imbirussu-Serradinho, além do do projeto “Árvores Centenárias”, com o objetivo de executar ações de manejo visando a manutenção e a recuperação das árvores prejudicadas pelas ações do tempo, como também podas realizadas sem os devidos critérios. O projeto envolveu 86 árvores, sendo 50 da espécie “Ingá” e 36 exemplares de “Fícus Retusa, localizadas nos canteiros das avenidas Afonso Pena e Mato Grosso.
Saúde
Ainda de acordo com as metas estipuladas pelo prefeito Alcides Bernal na campanha eleitoral, na área da saúde, desconsiderando as mais complexas, estava investir na prevenção de doenças e proporcionar aos profissionais da área ambiente de trabalho agradável e melhores salários.
Na manhã de ontem (9), cerca de 400 agentes comunitários de saúde realizaram protesto em frente à Secretaria Municipal de Saúde e, depois, do Paço Municipal. O primeiro protesto da administração do prefeito Alcides Bernal ocorreu devido ao não pagamento da gratificação de R$272.
O grupo cobra a efetivação da jornada de oito horas diárias, que reduz a jornada de trabalho, o repasse salarial integral de R$950, além dos adicionais de insalubridade e periculosidade. A preocupação do presidente do Sisem (Sindicato dos Servidores Municipais de Campo Grande), Marcos Tabosa, é que o secretário de Saúde, Ivandro Fonseca, não assine a efetivação do projeto 8h. Atualmente a jornada de trabalho é das 7h às 17h, com duas horas para o almoço. A intenção dos agentes é reduzir a jornada, das 7h às 13h, com 10 ou 12 visitas por período.
Diante do impasse, sem chegarem a um acordo, a atitude do prefeito foi de “blindar” a prefeitura com guardas municipais e publicar nota no site de notícias da prefeitura, justificando o recuo pelas 8 horas.
Na tarde da última quinta-feira (4) o ex-prefeito de Campo Grande, Nelson Trad Filho (PMDB), publicou em sua rede social (Facebook) o que chamou de “Breve comentário a respeito do Balanço Orçamentário de janeiro a fevereiro, divulgado pela atual administração”. Na publicação o ex-prefeito diz que “a verdade sempre aparece” e pontua: “A atual administração alegava que não foi deixado dinheiro no caixa da Prefeitura, apesar da comprovação, pelo Tribunal de Contas do Estado, de que as contas estavam com saldo positivo de R$ 246,3 milhões. Conforme balanço divulgado pela administração atual, a atual disponibilidade de caixa bruta consolidada é de R$ 577,2 milhões, aumento de 134,3% no dinheiro deixado. No entanto, apesar da saudável situação financeira, houve expressiva paralisação no fornecimento de materiais, serviços e obras, pelo não pagamento dos fornecedores/credores, prejudicando ações e prestação de serviços para a população campo-grandense. Com a “burra cheia", também dá para conceder um bom reajuste salarial aos servidores municipais, que devem ser valorizados, e também resolver a situação do prédio da Câmara”, publicou.
A resposta de Nelson Trad Filho refere-se à declaração de Alcides Bernal na sessão solene de abertura dos trabalhos na Câmara Municipal, em que disse ter encontrado déficit de R$ 300 mil na Prefeitura. A afirmação foi comprovadamente desmentida por meio de um termo de transferência de cargo, datado de 18 de janeiro de 2013, assinado por Bernal e Nelsinho, em que o saldo de transferência, ou seja, o valor final que ficou em caixa, era de R$ 46.309.776,86.
Ainda naquela quinta-feira, em outra publicação, Trad filho esclareceu que “apesar das alegações, pela atual administração, de que Campo Grande sofreria com a diminuição das transferências de recursos estaduais, como ICMS e IPVA, o Balanço Orçamentário demonstra que houve aumento dessas transferências, de 13,22% e 7,61%, respectivamente. No entanto, o mesmo não se pode dizer das arrecadações municipais, como IPTU e ISS, que tiveram queda”.
Pegou mal
Com poucos dias de administração, outra mácula atribuída ao prefeito é a aquisição de um luxuoso apartamento no Condomínio Edifício Parque das Nações, de R$ 1,7 milhão.
O prefeito morava em uma casa na Rua Paulo Tognini, 239, bairro Jardim Paulista, que, segundo a declaração de bens prestada à Justiça Eleitoral em 2010, teria custado R$ 103.676,00, mas dois anos depois passou a valer R$ 700 mil.
A evolução patrimonial cresceu significativamente nos últimos anos, em quase 700%. Saiu de R$ 190 mil em 2008, conforme declarações apresentadas à Justiça Eleitoral, para R$ 1,3 milhão no ano passado, coincidentemente depois de mandatos como vereador e como deputado estadual.
Na ocasião, questionado pela imprensa, visivelmente incomodado em falar sobre o assunto Bernal respondeu de forma evasiva. "Um cara que tem 25 anos de advocacia, que tem 18 anos como apresentador de programa de rádio - e o meu é de melhor audiência, não que eu seja melhor do que os outros, mas tenho audiência e, portanto, bons investidores, verbas publicitárias; que foi vereador por seis anos, deputado estadual por dois anos e sou prefeito de Campo Grande", respondeu.
Para custear um apartamente de R$ 1,7 milhão, Bernal teria que poupar R$169,998,80 ao longo de 12 meses.
Repúdio
No dia 19 de março, por 17 votos a favor, oito contrários e duas abstenções, os vereadores aprovaram moção de repúdio em represália a postura do prefeito, classificado como “deseducado e agressivo” com os parlamentares. Bernal foi o primeiro prefeito na história de Mato Grosso do Sul a ser repudiado pela Câmara Municipal.
Alcides Bernal chegou a criticar o vereador Chiquinho Telles (PSD) durante sua participação em um programa na Rádio Comunitária das Moreninhas, apresentado pelo próprio vereador, onde Bernal afirmou ao vivo que Chiquinho havia sido eleito por “pura sorte”. Diante da atitude o vereador disse que o prefeito utilizava as redes sociais e também os eventos municipais para se dirigir aos vereadores de maneira ofensiva, tratando-os como “cupinchas” e colocando a opinião pública contra a Casa de Leis.
A declaração revoltou não só Chiquinho, mas também outros vereadores, que afirmaram se sentirem desprestigiados pelo prefeito, que em eventos comunitários sequer cita os nomes dos parlamentares que possuem base eleitoral nestas regiões visitadas pelo prefeito.
A postura do prefeito e a negligência dos secretários de sua administração nas tratativas com a Câmara Municipal foram o estopim da moção.
Opinião
Entre os espectadores assíduos dos bastidores da política sul-mato-grossense, as opiniões convergem para a falta de celeridade da administração pública e para o chamado discurso sempre cítrico e agressivo, no que se refere à administração passada. O jornalista Nilson Pereira considera que 100 dias já seriam suficientes para ações reais à frente da prefeitura. “De 10, cinco, pois a maioria de suas promessas não saíram do papel. Aliás, o que mais me espanta e que ele continua acreditando ainda estar em campanha. Se tivesse uma equipe capaz, em 100 dias já estaria mostrando ao povo o porque da sua vitória, que foi consagradora nas urnas. A esperança e que ele comece a governar com o povo e para o povo e deixe de lado as brigas políticas que não levam a nada”, opina o jornalista.
Polêmico e contundente, conhecido por não usar “meias-palavras”, o jornalista Benedito de Paula, o B. de Paula, avalia os 100 dias da administração municipal como “Sem dias de administração municipal”. O trocadilho ele explica em seguida. “O que tem pra falar de bom com a cidade como está? Esburacada, suja, escura, com seus servidores desanimados, fornecedores sem receber... Acho que contar alguma coisa sobre os 100 dias de "administração" do Bernal uma temeridade”, manifesta.
Denúncia
O jornal semanário “Centro Oeste Popular” publicou em sua edição 553, que circulou no último domingo, informações que dariam conta de que Bernal teria feito acertos em questões que havia prometido, na campanha eleitoral, resolver em sua administração.
Conforme a publicação “desde o dia 20 de fevereiro se encontra nas mãos da procuradora da República, Joana Barreiro Batista, os resultados das ações de controle para apurar possíveis fraudes na execução das obras do aterro sanitário de Campo Grande... O resultado enviado para Brasília seria mais que suficiente para que a administração rompesse o contrato”.