O depoimento de duas integrantes do conselho gestor do Hospital Universitário (HU), durante a oitiva realizada na manhã desta segunda-feira (17), levou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Municipal de Campo Grande a concluir, previamente, que houve sucateamento intencional da radioterapia do HU para beneficiar a clínica particular NeoRad, do doutor Adalberto Siufi.
Silmar de Fátima Lima Ramos e Regina Borges Prestes César, respectivamente, coordenadora e física médica da radioterapia do Hospital Universitário, contaram à CPI que a direção de José Carlos Dorsa sempre trabalhou para o fechamento do setor. O esquema acontecia por meio de um convênio com o Hospital do Câncer (HC), onde toda estrutura e até equipamentos do HU eram cedidos à Fundação Carmem Prudente. Posteriormente a fundação alegava incapacidade física de atender à demanda e contratava os serviços da clínica particular NeoRad, do doutor Adalberto Siufi, que também compunha a direção do HC.
De acordo com Regina, Dorsa a perseguiu desde que assumiu a direção do hospital, indicado pela reitoria da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Ela afirma que a intenção da nova gestão sempre foi de suspender a prestação de serviços para conduzir os pacientes à clínica particular, pelo intermédio do Hospital do Câncer.
Concursada da UFMS, a física médica contou que chegou a ficar cinco anos ociosa, “colocada de escanteio” por Dorsa, para que o setor não funcionasse. No depoimento de Dorsa à CPI, uma das alegações seria justamente de que não haveria recursos humanos para operação da radioterapia.
As informações prestadas por Regina dão conta de que haviam oito funcionários trabalhando na radioterapia quando Dorsa assumiu. Atualmente, existe apenas uma, além de Regina, que é uma técnica. “Era notável a decisão do Dorsa de invalidar a radioterapia, denegriu o setor em todas as declarações que fez à imprensa. Quando ele diz que lutou para manter a radioterapia aberta, é mentira”, enfatiza.
Dorsa teria chegado à direção do HU por indicação do vice-reitor da UFMS, João Ricardo Tognini. Pouco depois HU e HC firmaram o convênio que cedia a radioterapia à Fundação Carmem Prudente.
As convocadas disseram ainda que a “Força Tarefa” que foi há poucas semanas no hospital, elaborou um relatório apontando 22 motivos para o fechamento da radioterapia, mas 21 faziam menção à “plaquinhas” indicativas. Apenas uma, poderia fechar o setor: a falta de dosímetros, para aferir a radiação emitida pelas máquinas.
O setor de radioterapia foi fechado na última quarta-feira (12), mas, segundo a física médica, os dosímetros já haviam chegado. Cabia à chefe da vigilância sanitária estadual avisar à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cenen), para que o setor fosse reaberto ou sequer fechado.
Segundo Regina a chefe da vigilância sanitária alegou que não conseguiu contato com a Cenen. O setor ainda está inoperante e a doutora destaca o prejuízo aos pacientes. “O tratamento de radioterapia não pode ser suspenso, pois perde o efeito e também não pode ser ‘reposto’, uma vez que existe uma série de prejuízos aos doentes. Fecharam o setor e nem nos avisaram, nem aos pacientes, soubemos pela imprensa”, finalizou.
A CPI que investiga as irregularidades no HC e no HU ouve, hoje às 15h, a reitora da UFMS, Célia Maria Silva Correa Oliveira.
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