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Entrevistas

Américo Calheiros fala sobre seu trabalho à frente da Fundação de Cultura de MS

20 julho 2011 - 19h00 Por Markito

O Presidente da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul fala sobre o trabalho realizado no Estado e revela suas expectativas para a cultura sul-mato-grossense. 

Filho de uma sul-mato-grossense com um nordestino, Américo Calheiros nasceu em Goiana (PE), mas vive desde os seis anos de idade aqui em nosso Estado.  Em 1970 trocou Aquidauana (sua cidade natal de coração) por Campo Grande, onde se estabeleceu e começou a trabalhar como professor. Formado em Filosofia, Ciências e Letras pela extinta FUCMAT, deu aulas de alfabetização e logo foi lecionar no ginásio.

No ano de 1997, iniciou a carreira de gestor público assumindo o comando da então chamada Fundação Municipal de Cultura, Esporte e Lazer (Fundesporte), onde permaneceu até 2006.

Em janeiro de 2007 assumiu a presidência da Fundação de Cultura do Estado (FCMS), cargo e ocupa até hoje, onde cuida das iniciativas voltadas à arte e à cultura sul-mato-grossenses.

Em sua opinião, o que mudou no desenvolvimento cultural do Estado nos últimos quatro anos?

Tivemos um amadurecimento muito grande nas políticas públicas voltadas para a cultura. Existiu uma preocupação também em agregar todos os municípios do interior no mapa cultural do Estado.

Campo Grande, hoje, faz parte do circuito nacional de arte e de cultura, e nós podemos comemorar essa vitória. Mas é claro que sempre queremos acrescentar coisas novas para os artistas locais e para a população.

A recuperação de nossa história também foi levada em consideração, e com investimentos de R$ 2,5 milhões na publicação de mais de 80 obras literárias de nosso Estado, colocamos à disposição do público uma bibliografia que não existia sobre Mato Grosso do Sul, e a tendência é aumentar.

Passamos a valorizar mais nossa cultura?

Há uns oito ou nove anos ouvi uma repórter perguntar a uma cidadã o que Campo Grande tinha a oferecer a quem vinha de fora, e ela, inocentemente, respondeu: nada. Aquilo me chocou, mas ao mesmo tempo me fez perceber o quanto ainda precisávamos trabalhar.

Desta época para cá, a mentalidade do campo-grandense mudou muito. Passamos a enxergar mais e melhor nossa cidade, e ver que temos aqui possibilidades infinitas. 

Há algum projeto novo vindo por aí?

Vou falar em primeira mão para você: um registro das principais festas tradicionais do Estado. Já estamos trabalhando nele e lançaremos em 2012.

No segundo semestre deste ano teremos ainda dois novos projetos. Um deles acontecerá em outubro, e será uma exposição de artesanato de todo o Centro-oeste, que contará não só com a presença de artesãos do interior do Estado, mas também com expositores de Goiás, Mato Grosso e Brasília.

O outro será realizado no Centro Cultura José Octávio Guizzo, a Feira Arte Mix, que apresentará uma mescla de diversos produtos culturais.

 

O “MS Canta Brasil” é um sucesso em Campo Grande. Algum plano de levá-lo a outras cidades do Estado?

O MS Canta Brasil é um projeto que deu muito certo. Em quatro anos de existência, o público que passou pelas 29 edições já soma mais de um milhão de pessoas. É um público de várias gerações que prestigia o evento e o local, que é aclamado por todos os artistas de fora que vêm participar. Todos ficam extasiados com a beleza do Parque das Nações Indígenas. 

Nós temos vontade de fazer um projeto semelhante a esse em outros municípios de Mato Grosso do Sul. Essa é uma meta, pelo menos em um ou dois municípios nestes três anos e pouco que ainda temos pela frente.

O artesanato de Mato Grosso do Sul também está conquistando muito espaço pelo país?

Nesta área já ocupamos um lugar de destaque ao lado de qualquer outro Estado brasileiro. O que o nosso artesanato era há 15 anos ficou no passado, hoje temos um identidade própria, mais de quatro mil artesãos cadastrados e geramos empregos e renda a várias famílias.

Estamos realizando um projeto chamado Artesania, que percorre cidades do interior oferecendo cursos e oficinas, não só para desenvolver a idéia de núcleos de desenvolvimento de atividade artesanais, mas para inserir produtos locais no mercado nacional e internacional.

Atualmente, MS participa de pelo menos seis grandes feiras de artesanato por ano em todo o país. Acabamos de voltar da feira de Olinda, que é a maior de toda a América Latina, e todos os nossos produtos foram vendidos. Então, contabilizamos isso como um grande sucesso.

Os investimentos na pasta têm sido suficientes?

É um conjunto de investimentos. Além do que é disponibilizado anualmente, contamos com parcerias com o governo federal e algumas empresas privadas.

Alguns gastos como manutenção de prédios, pagamento de pessoal, reformas e recuperações muitas vezes passam despercebidos pela população, mas que representam investimentos que temos que fazer sempre.

O governador André Puccinelli está disponibilizando cada vez mais recursos para a cultura, e já anunciou um aumento em nosso orçamento para o ano que vem. Então acho que caminhamos bem, e temos “dado conta do recado”.

Como funciona o processo de seleção dos artistas para os projetos?

Trabalhamos com editais, pois o edital democratiza a participação de todas as pessoas. Aquele que nunca teve oportunidade de mostrar seu trabalho e que poderia ficar á margem de tudo que estava acontecendo no âmbito da arte e da cultura hoje tem a chance de participar de todos os nossos projetos.  Com isso, descobrimos artistas que nem imaginávamos que existiam.

Sua experiência no município foi importante para o desenvolvimento do trabalho no Estado?

Foi extremamente importante a oportunidade que tive de trabalhar no município, na Fundação que na época era da Cultura, Esporte e Lazer. Trabalhar com políticas públicas nessa área, além de ser muito gratificante, me ensinou muito porque me fez olhar com muita atenção a todos os seguimentos da arte e da cultura e à população como um todo.

Se há algo que pode sintetizar o trabalho público nesta área, é: possibilitar, facilitar e incrementar o acesso da população. E o Estado brasileiro, às vezes se esquece disso. E só vamos atingir o objetivo macro à medida que possibilitarmos que todos os cidadãos, indistintamente, tenham oportunidade de usufruir da arte e da cultura.

Ainda vamos demorar a chegar num patamar em que todos tenham pleno acesso, mas nosso foco é esse.

O Festival de Bonito vêm aí. Quais são as expectativas da organização para esta edição do evento?

O Festival de Inverno de Bonito chega a sua 12ª edição com a mesma vitalidade. Ele vem se renovando a cada ano, procurando manter-se nesse conceito de cultura, turismo e natureza, buscando estar em sintonia com a paisagem natural e a cultura de Bonito.

E quanto à preocupação ambiental?

Hoje, Bonito é cuidada tanto pela administração quanto pela população. Pelo nono ano consecutivo, foi eleita como melhor destino de ecoturismo no país. Então, é preciso que se tenha muita responsabilidade ao fazer qualquer coisa que vá agregar um número grande de pessoas num contexto como esse. Por isso temos sempre muito cuidado, temos uma parceria muito afinada com a prefeitura de Bonito e com todos os seguimentos que de uma forma ou de outra participam do festival.

Qual o maior diferencial desta edição em relação às outras?

Neste ano, demos uma guinada na questão dos homenageados, colocando na linha de frente o Ney Matogrosso, um artista de renome nacional e internacional que tem divulgado o Estado durante toda sua trajetória, e acreditamos que será um momento muito interessante para ele, como pessoa e como artista, e para nós, como organizadores e como sul-mato-grossenses.

Além dele, todos os artistas fechados para essa edição têm trabalhos de muita qualidade.  Todos estão vivendo um momento alternativo de suas carreiras, ou um momento de comemoração, um momento especial. E esse é o momento especial que queremos viver nesta edição do festival, sem deixar de lado, claro, as discussões sobre o meio ambiente que sempre estão em pauta no evento. 

Outro grande projeto do governo, o Aquário do Pantanal, está em construção em Campo Grande. Em sua opinião, qual a repercussão cultural trazida para nossa região?

Além de ser muito atrativo para o turismo, esse projeto tem um forte cunho preservacionista e cultural, já que teremos ali a possibilidade de realizar a pesquisa permanente, tanto através das espécies quanto da biblioteca que estará disponível e interligada às grandes bibliotecas e aos grandes centros de pesquisas mundiais. Isso é altamente educacional e altamente cultural.

Eu acredito que vai existir um Mato Grosso do Sul antes do Aquário do Pantanal e outro depois. Ainda não temos a dimensão da magnitude do projeto porque não estamos vendo, na prática, seus resultados. Mas tenho certeza que será uma atração que irá de encontro à expectativa que qualquer pessoa que venha a visitar o Estado, sendo ela de qualquer lugar do mundo.

Camila Bertagnolli

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