Seria um escritório como outro qualquer, se não fosse montado no baú de um caminhão. Jaison Janke recebeu o MSREPÓRTER numa tarde de trabalho e começou mostrando que tudo é parafusado na parede. “Na hora de viajar, guardo os papéis nas gavetas, tranco tudo e vamos embora. Olhe só meus quadros, mesas e armários são todos chumbados para permanecerem no lugar durante as viagens”, conta.
Proprietário do circo que está em temporada na Capital, Jaison entrou no universo circense graças a Beto Carreiro. Trabalhando com publicidade, recebeu um convite do empresário e aceitou o emprego em um de seus circos. Foi aí que a paixão começou.
O rapaz, que antes passava os dias dentro de um escritório, descobriu a magia da vida sem rotinas, casou-se com uma artista circense vinda da Rússia, teve um filho e formou uma família nos bastidores do picadeiro.
Após a morte de Beto Carreiro, no início de 2008, o circo itinerante do grupo foi colocado à venda. Com a oportunidade de comandar seu próprio negócio, Jaison fez uma proposta de compra e fundou, então, o “Janke Circus”.
MSREPÓRTER: Como é viver no circo?
A vida no circo por um lado é extremamente gratificante, cada dia é uma experiência diferente, um dia nunca é igual ao outro e não há rotina, mas sempre há algo que incomoda. Muitas vezes chegamos a um terreno e a companhia de luz ainda não veio ligar a energia mesmo depois de termos pedido o serviço. Quando chegamos temos que pedir água, luz, enfim, toda a estrutura básica para montarmos o circo e ficarmos no local. Normalmente somos recebidos de braços abertos, mas às vezes as coisas demoram um pouco e acabam nos atrapalhando.
MSREPÓRTER: São contratados trabalhadores locais?
Sim. Contratamos trabalhadores locais para ajudar a montar, desmontar, fazer alguns serviços de atendimento, de segurança, isso eu contrato em cada cidade. Agora o pessoal básico do circo, de manutenção, operação e do espetáculo, todos viajam conosco.
MSREPÓRTER: Quantas pessoas ao todo?
Tenho 43 funcionários diretos e mais as famílias, que somam mais de 80 pessoas viajando com o circo. São artistas e trabalhadores. Às vezes um funcionário contratado vive com a esposa, que não trabalha no circo, mas cuida de algum comércio na praça de alimentação.
A praça de alimentação é toda terceirizada, mas não por empresas locais. Normalmente uma pessoa que já trabalha no circo, responsável por alguma coisa como montar e desmontar a lona, por exemplo, explora a comercialização de pipoca. Aí outro funcionário, que trabalha com transporte, é responsável pela venda de bebidas, ou algodão doce. É assim que funciona. Temos com contratos de concessão de espaço, tudo certinho e terceirizado.
Em outros casos, vários membros da mesma família são artistas. A dupla de palhaços, por exemplo, é formada por um pai e seu filho. O garoto tem 22 anos, já quis ser trapezista, acrobata, jogador de futebol, e no final das contas se tornou palhaço. E tem uma vocação natural para o trabalho, é realmente muito bom no que faz.
MSREPÓRTER: E as crianças que viajam com o circo e estão em idade escolar?
Em cada cidade que chegamos, as crianças vão à escola. O meu filho, por exemplo, frequenta um colégio daqui desde que chegamos. E a tarde ele tem aula em um curso de inglês. Durante todo o período que ficamos na cidade, as crianças estudam.
MSREPÓRTER: Quanto tempo o circo fica em cada lugar?
Isso depende do porte da cidade. Se ela tiver cerca de 300 mil habitantes, ficamos mais ou menos duas a três semanas. Numa Capital podemos ficar entre um mês e um mês e meio. Em São Paulo, chegamos a ficar de três a quatro meses. Tudo depende do porte da cidade e da resposta do público, claro.
MSREPÓRTER: Quais os procedimentos que devem ser cumpridos na chegada em uma cidade? É o circo que entra em contato com a prefeitura do local?
Agente viaja e já entra em contato com a prefeitura caso o espaço onde o circo pode ser instalado pertença ao poder público municipal. Se for uma área privada, entro em contato com o proprietário para obter autorização para parar ali. Depois vou à prefeitura para tirar alvará de funcionamento, autorizações do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar, da Polícia Civil, Vigilância Sanitária etc. Tudo que uma empresa normal precisa ter para funcionar, o circo precisa também.
Em cada cidade que chegamos também preciso contratar um engenheiro para acompanhar a montagem. Mesmo que seja o mesmo circo, com a mesma estrutura e montado da mesma maneira em todos os lugares, sempre preciso de um engenheiro. O projeto tem que ser aprovado pela área técnica do Corpo de Bombeiros.
MSREPÓRTER: Como é a rotina do artista circense?
Quando um espetáculo é montado, é difícil que grandes mudanças sejam feitas durante a temporada. Pode acontecer de alguém ir embora e outro artista ser contratado em seu lugar, mas o espetáculo normalmente se mantém o mesmo. Quando essa temporada termina, renovamos todo o espetáculo e iniciamos um novo período de apresentações.
MSREPÓRTER: Quanto tempo dura uma temporada?
Depende do roteiro. Para viajar por todo o Brasil, por exemplo, podemos demorar de quatro a cinco anos. Aí, antes de voltar àquela primeira cidade visitada, renovamos tudo para levar um novo espetáculo.
Um exemplo de atração feita para a temporada é o globo da morte. Normalmente os circos deixam na lateral do palco, ou transportam para o centro do picadeiro antes da apresentação. O nosso diferencial é deixá-lo suspenso a sete metros do chão, em uma estrutura fixa. É um número novo, feito para essa temporada.
MSREPÓRTER: Todos os funcionários moram em trailers?
Tem o caso do mágico, Rokan, que está no elenco do circo e tem um o contrato que lhe permite se apresentar em festivais e circuitos internacionais de magia paralelamente à nossa temporada. Então, por viajar muito, ele chega às cidades em que estamos e fica hospedado em hotéis. Os outros todos vivem aqui, em trailers ou motor homes.
MSREPÓRTER: Os contratos são temporários?
Sim. Os artistas têm remuneração fixa e as contratações são feitas para a temporada. Alguns ganham um dinheiro extra porque também comercializam alimentos na praça ou vendem souvenires à platéia. Quando o prazo termina, havendo interesse de ambas as partes em renovar a parceria, fazemos um novo contrato.
MSREPÓRTER: Os circos brasileiros não podem mais ter animais em seus espetáculos. Quando a proibição foi aprovada, vocês trabalhavam com animais?
Há muitos anos atrás tínhamos animais no espetáculo. O Beto Carreiro tinha um carinho muito grande pelos bichos. Trabalhávamos com diversas espécies, felinos, elefantes, macacos, cavalos, cães, gatos etc. O adestramento de animais era muito tradicional do circo. Quando começaram as movimentações contra animais em circo, o Beto percebeu que era algo lógico que, com o aumento da preocupação com o meio ambiente, também aumentaria a preocupação com o bem estar dos animais. Por isso, antes mesmo de proibirem, já não tínhamos mais bichos em nosso espetáculo.
MSREPÓRTER: Qual a sua opinião sobre essa proibição?
Em todos os setores, existem bons e maus profissionais. No circo é a mesma coisa, acontece de haver pessoas que não são capazes de trabalhar com aquilo. Logo, existiam bons adestradores e maus adestradores. Agora, em minha opinião, o que mais facilitava a existência de maus profissionais era a falta de regulamentação. Não havia regras para acomodações, espaço, cuidados com a saúde, alimentação etc.
Este circo sempre foi privilegiado, com condições de garantir o bem estar de todos os animais que viviam aqui. O Beto Carreiro fazia questão de trazer os melhores profissionais para cuidar dos bichos. Mas existem muitos circos menores, com menos recursos, que de repente não podiam arcar com os cuidados que os animais exigem.
Eu acho que poderia haver regulamentação de como tratar esses animais, e punição para quem não cumprisse as regras. Achei a lei injusta porque apenas circos foram afetados, e não houve distinção entre animais selvagens e domésticos. Cães e cavalos, por exemplo, fazem parte do convívio humano. Vejo tantos cavalos mal tratados puxando carroças pesadas debaixo do sol, e isso é permitido. Aqui eles eram extremamente bem tratados, estavam sempre bem alimentados e sadios. Rodeios também não foram proibidos, mesmo expondo os animais a situações de stress e dor.
No caso de um animal selvagem, fora de seu habitat, eu concordo. Mas um cão, que convive com o homem e é adestrado para tantas coisas, ou um cavalo, que é usado para trabalho e competições esportivas, acho injusto. Sabe o que eu acho o fim? Um mágico não pode mais ter pombas em seu show, mas criar os mesmos pássaros para sacrifício em rituais religiosos pode.
MSREPÓRTER: Em sua opinião a digitalização mudou muito o perfil do público infantil?
As coisas mudaram bastante. Além dessa movimentação da mídia para a questão dos animais, que gerou uma imagem muito negativa para o circo e arranhou sua credibilidade, as crianças de hoje já não são mais como as de antes. A chegada do circo era um acontecimento, todos queriam assistir. Hoje há videogames, internet... Algumas nem querem sair de casa, a brincadeira é só eletrônica. Acho que vivíamos melhores.
MSREPÓRTER: No Brasil, qual a maior dificuldade para viver do circo?
O circo perdeu muito espaço, isso é fato. No Brasil há apenas uma escola que formam bons profissionais circenses, que fica no Rio de Janeiro. Mas, quase todos acabam indo para fora do país. Lá, nossa arte ainda é muito mais valorizada, e aqui não podemos pagar os dólares ou euros para competir com eles. Nossa carga tributária também é altíssima se comparada com outros países, o que dificulta ainda mais a competição.
Existe a Lei Rouanet, de incentivo à cultura, mas se temos um projeto aprovado precisamos buscar patrocínio privado, e o cálculo de rendimento das empresas aptas a dar esse patrocínio exclui pequenos e médios negócios. Quando entramos em contato com as grandes empresas, que poderiam nos ajudar, não há interesse por sermos menores, todos só querem saber de espetáculos de circos como o Cirque Du Solei, por exemplo.
Como vamos competir com circos internacionais que pagam menos impostos, compram lonas e outros materiais pela metade do preço que nós compramos – porque temos que importar quase tudo – tem incentivo e patrocínio e ainda lucram com ingressos caríssimos? É impossível.
Também está cada vez mais difícil encontrar espaços para montar circo nas cidades. Os terrenos estão sendo vendido, revitalizados, reformados, e acabam não comportando mais toda a estrutura. No Rio de Janeiro havia um lugar onde há anos os circos eram montados, ficava ao lado do sambódromo. Agora, acabamos de perdê-lo. A prefeitura resolveu transformá-lo num espaço dedicado ao samba, e não podemos competir com o Carnaval. Isso tem acontecido em várias cidades do país.
MSREPÓRTER: O público ainda é o mesmo?
Não. A bilheteria caiu muito nos últimos anos. Além disso, 60 a 70% dos ingressos são comprados pela lei da meia-entrada. As coisas mudaram muito e tivemos que nos adaptar. O circo nunca vai morrer, disso tenho certeza. Em muitos países o circo é grande, luxuoso. Estamos vivendo uma fase muito difícil no Brasil, mas o circo é uma grande tradição e sempre encantará as pessoas.
Camila Bertagnolli
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