Paulista, casado com uma aeromoça e às vésperas da chegada do segundo filho, Evandro Castilho Leite é um apaixonado por aeronaves de grande porte. Diz-se encantado com pousos e decolagens e fascinado por tudo que envolve o tráfego aéreo. Há seis meses à frente da superintendência da Infraero no Aeroporto Internacional de Campo Grande, Evandro recebeu a equipe do MSREPÓRTER em sua sala rodeada de fotos da família, para falar de projetos, investimentos e experiências profissionais.
Formado em Direito desde 1997, pelas Faculdades Integradas de Guarulhos, Evandro Castilho conta que recentemente fez mestrado em Engenharia de Segurança de Vôo em São José dos Campos, no Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA).
Aos 38 anos de vida e 17 de carreira, o superintendente falou sobre o Plano Diretor do Aeroporto, suas reformas, ampliações, investimentos. Também destacou que a Copa de 2014 é um evento isolado, que não trará problemas aos aeroportos do país. Confessou que a demanda de passageiros na Capital já está muito acima da capacidade, até por conta do alto número de pessoas que optam por viajar de avião. O motivo é o melhor poder aquisitivo da população e as promoções realizadas pelas companhias.
Com orgulho e empolgação, Evandro nos mostra uma planilha colorida com números e projeções de passageiros. No ano passado um milhão e 250 mil pessoas embarcaram no Aeroporto de Campo Grande. Para este ano, a projeção é de um milhão e 400 mil passageiros. Até agosto desse ano já embarcaram 984 mil pessoas. Para se ter ideia do crescimento, esse número corresponde a todo ano de 2009.
MSREPÓRTER: O senhor está no cargo há seis meses, como foi o processo até chegar ao cargo de superintendente?
Eu entrei na Infraero em 94, no aeroporto de Guarulhos, logo fui para a área de comunicação social onde fiquei dois a três anos e passei para área de operações, fiquei no aeroporto por oito anos. Depois eu fiquei mais seis anos no aeroporto de Congonhas, também na área de operações. Nos últimos três anos e meio estive em Londrina, no Paraná, também na área de gerenciamento de operações e segurança, fiquei lá três anos e meio e tem seis meses que vim para Campo Grande.
Recebi um convite da diretoria, do nosso presidente regional de Brasília, na época, para assumir a superintendência da cidade e eu aceitei o desafio.
MSREPÓRTER: Como foi a experiência de trabalhar na área da comunicação?
Eu não sou formado na área, mas na Infraero eu comecei pelo balcão de informações, onde fiquei seis meses. Depois eu passei para encarregado da área de comunicação com relacionamento com cliente, ouvidoria, cuidei muito dessa parte. Dividia uma sala pessoal da imprensa, aprendi bastante com eles. A parte de assessoria de imprensa do aeroporto de Guarulhos era da nossa área. Ficávamos todos na mesma sala, então aprendi muito.
MSREPÓRTER: Em Mato Grosso do Sul a assessoria de imprensa é feita diretamente com Brasília?
Na verdade a decisão foi da diretoria anterior, de que se concentrasse tudo por lá, por conta da demanda de aeroportos do porte de Campo Grande, por não ter uma estrutura grande, optaram por ser tudo por lá. Apesar do Luiz Paulo (assessor de imprensa) ficar em Brasília, hoje é tranquilo, porque não são somente os superintendentes regionais que poderiam falar com a imprensa, o superintendente local dá entrevista sem problema nenhum. Basta essa rápida filtragem por meio do assessor.
MSREPÓRTER: Quais as mudanças houve no aeroporto de Campo Grande em relação a investimento e infraestrutura nesse período que o senhor está aqui?
Quando eu cheguei aqui nossa equipe começou a verificar certas situações que precisavam ser melhoradas. Foi estabelecida uma linha de trabalho para priorizar algumas coisas. Primeiro, nós precisamos de ampliação, porque o aeroporto é pequeno, a estrutura dele, para capacidade de passageiro está além do que hoje nós temos. Então entra no rol dos aeroportos que teoricamente estão acima da capacidade. Só que nós não tínhamos opções aqui dentro dessa estrutura, porque apesar de estar em um local muito grande, o aeroporto está limitado por construções. Existe ocupação do exército ao lado, o que nos impede de crescer para aquele lado. Então nós atacamos em duas frentes.
Em um nível mais estratégico, na sede está o planejamento do plano diretor, reforma do aeroporto, a construção de um novo terminal que vai ser feito na cidade e será construído no bairro Nova Campo Grande.
MSREPÓRTER: E como vai funcionar na prática e quanto será investido?
A Infraero fez um termo de acordo com o Estado. O governador inclusive já divulgou isso, onde o Estado vai fazer as desapropriações necessárias para criação do novo espaço e a Infraero entra com a infra-estrutura. Definimos a área. Somente o plano diretor tem investimento de R$ 428 mil para o novo aeroporto. O acordo diz que até 2012 a Infraero finaliza o plano diretor que determina as etapas de crescimento de acordo com a demanda, mas não detalha as características arquitetônicas.
Para ganhar tempo, o que nós temos: em 2012 finaliza o plano diretor, a partir daí entra os projetos executivos, arquitetônicos, tudo com muito detalhe. Isso deve demorar, no mínimo, um ano e meio. Diante desse prazo longo, nós pedimos para que a empresa que vai fazer esse trabalho adiantasse pelo menos uma alternativa do projeto, depois eles detalham. Então em paralelo com isso a Infraero já começou a desenvolver os memoriais de requisitos de como vai ser esse novo terminal e posso dizer que já está bem adiantado.
MSREPÓRTER: E qual o prazo para o início da construção do novo aeroporto?
Então a ideia é que ganhemos tempo para que em meados de 2014 possamos iniciar a construção. Mas é um cronograma que ainda vai ser ajustado. Essa informação ainda é preliminar, não é um cronograma determinado ainda. Primeiro a gente precisa desse plano diretor. Ainda em paralelo a tudo isso nós vamos “atacar” o que nós temos hoje, que é a infra-estrutura existente e ampliá-la da melhor maneira possível para aguentar a demanda pensando até 2015, 2016, ou seja, nós não podemos fazer um grande investimento aqui, porque termos um novo aeroporto em breve, então precisamos tentar suprir a demanda até essa época.
Pensando nisso o que nós fizemos, o restaurante que fica no saguão, é uma área muito nobre, então nós conversamos com o concessionário e fizemos uma nova licitação e remanejamos o restaurante. No local onde um tempo atrás era uma agência do Banco do Brasil será remanejado o restaurante. As obras já começaram. O engenheiro pediu prazo para quatro meses até finalizar as mudanças. Finalizando essa obra, eu consigo utilizar o espaço. Nós vamos quebrar tudo ali e será a ampliação do desembarque.
Então eu pego o que eu tenho hoje mais a área do restaurante e fico com praticamente o dobro do tamanho original. Pretendo colocar um banheiro, pois hoje não há dentro da área de desembarque. Quanto às esteiras, a proposta é algo reversível. Eu vou colocar duas esteiras na área de desembarque doméstico e uma esteira no desembarque internacional, no meio uma cortina de vidro. Se eu tiver uma grande demanda eu abro a cortina e fico com três esteiras. Então com isso eu tenho uma otimização do espaço.
MSREPÓRTER: Qual a previsão para que tudo isso fique pronto?
A previsão nossa é que em janeiro, em fevereiro de 2012 no máximo a gente já esteja com toda ampliação do desembarque pronta.
MSREPÓRTER: E quanto ao estacionamento?
O estacionamento é um ponto crítico, ele está no seu limite. Como está próximo do final da concessão, e teremos que fazer uma nova licitação no mês de junho do ano que vem. Quem ganhar terá que fazer a ampliação de acordo com o projeto que já está pronto. Mas, enquanto isso, conversando com o concessionário atual, eu fiz uma proposta para ele, dentro do que nós temos hoje. A gente tira um pouco do gramado, modifica uma entrada, com as modificações nós ficaremos com mais 56 vagas. Isso corresponde a 30% da capacidade do estacionamento. Tudo isso começa ainda no mês de outubro. A Agetran também vai fazer uma lombada bem no meio do terminal. E a única entrada do estacionamento terá uma faixa de pedestre bem sinalizada com espaço para cadeirantes.
Outro ponto complicado era o embarque de passageiros, mas foi ampliada em 30% a sala. Tinha um corredor que dava acesso, eu fechei e conseguimos esse aumento na área de embarque. Então eu creio que pela nossa característica de não ter embarque simultâneo, no máximo são dois embarques, então conseguimos levar essa área de embarque com essa ampliação por mais dois anos. E se a “coisa” apertar de vez, eu tenho outra válvula de escape, que tem uma área gramada, ali eu faço uma ampliação mesmo que provisória. Fazendo tudo isso, eu consigo ampliação no embarque, desembarque e estacionamento.
MSREPÓRTER: Em relação aos outros aeroportos do país, como o senhor classifica o aeroporto de Campo Grande?
Eu achei que o Campo-grandense foi rígido demais com o aeroporto porque ele é excelente. Já vi aeroportos em situações bem mais complicadas, até de maior demanda. Por exemplo, Goiânia, que é administrado pela Infraero, e Vitória, são aeroportos que comparados a Campo Grande necessitam de uma intervenção muito mais urgente. O aeroporto da Capital está acima da capacidade, mas é bem cuidado, é limpo, e mantém o que tem funcionando de maneira satisfatória.
MSREPÓRTER: Esse aumento da demanda se deve ao número de passageiros, que aumentou significativamente. Fale um pouco do perfil do passageiro.
O perfil do passageiro mudou muito, e varia de aeroporto para aeroporto, por exemplo, o passageiro de Congonhas durante a semana é o executivo que vai para o Rio de Janeiro, Curitiba, vai a trabalho e não tem bagagem. De fim de semana muda muito. Entra as pessoas que vão viajar a passeio, que conseguiram promoções, famílias com crianças, aqueles que nunca haviam viajado antes. Muitas vezes, pessoas bem simples, que antes viajam de grandes centros para o nordeste de ônibus, enfrentavam quatro dias de viagens na estrada e agora conseguem comprar uma passagem de avião. Com isso o atendimento é essencial. Precisa ser detalhado, se já viajou antes, atender de maneira diferente, direcionar. Isso faz toda diferença.
O poder aquisitivo das famílias também aumentou muito. As pessoas hoje aproveitam promoções, se organizam, parcelam suas viagens. Essa mudança é retratada em números. No ano passado um milhão e 250 mil pessoas embarcaram no Aeroporto de Campo Grande. Para este ano, a projeção é de um milhão e 400 mil passageiros. Até agosto desse ano já embarcaram 984 mil pessoas. Para se ter ideia do crescimento, esse número corresponde a todo ano de 2009.
MSREPÓRTER: E por falar em crescimento e relacionamento, a Infraero vai realizar uma auditoria interna este ano. Como vai funcionar?
A auditoria interna é um processo da Infraero de gerenciamento da qualidade dos processos. Nós temos o certificado de qualidade, isso 9000 que nós adquirimos e já no final do ano teremos uma auditoria para manter essa certificação.
Pelo menos uma vez ao ano é feita essa auditoria de maneira interna para averiguar os processos gerenciais, principalmente de segurança e operações. Verificação de processo de embarque desembarque, credenciamento e acesso as áreas restritas. É uma auditoria feita por colegas dos aeroportos especialistas das suas áreas que vem até o nosso aeroporto com um olhar diferenciado, para avaliar mesmo. É feita uma verificação minuciosa tanto física quanto documental. Esse mesmo procedimento é feito em todos os aeroportos da Infraero. Depois é gerado um plano de ação, fazemos as correções do que foi apontado.
MSREPÓRTER: Em sua opinião, os aeroportos do Brasil estão preparados para receber a Copa de 2014?
Eu tenho um posicionamento da copa que eu não a vejo como um problema para o setor aeroportuário. Eu vejo a copa como um evento isolado que não vai ter grande impacto. O problema é que nós temos aí a grande parte dos aeroportos necessitando de reformas, de ações de suporte para atender a demanda atual.
Nós tivemos um crescimento acima da média mundial. De 12% de crescimento ao ano, Campo Grande superou isso e muito. No ano passado Campo Grande teve um crescimento de 33% de um ano para o outro, então para acompanhar esse crescimento fora do normal a gente precisa fazer grandes intervenções, porque até 2014 o que nós temos hoje não vai dar conta da nossa demanda. Teremos aeroporto saturado, um caos aéreo. Mas a Copa do Mundo se a gente for analisar as Copas do Mundo que foram realizadas anteriormente, na Alemanha foram dois milhões e meio de público externo, mas que chegaram de avião, de ônibus, de carro ou de trem. Alemanha está no coração da Europa, os países lá são muito próximos, o poder aquisitivo é altíssimo, fácil deslocamento, logo atrai mais pessoas. Já na Copa dos Estados Unidos foram em média 400 mil visitantes, na África não chegou a isso.
No Brasil, vou dar uma sugestão de público, exagerando teremos 600 mil pessoas. Esse número dá para processar tranquilamente. Esse número é o mesmo que o Aeroporto de Congonhas opera em 15 dias. Lá, em Congonhas, são 17 milhões de pessoas ao ano. Então se você coloca 600 mil pessoas e dilui em 14 cidades sede, o impacto é muito pequeno. É claro que no momento do desembarque em um determinado jogo, vai ficar lotado mesmo, mas é uma situação esperada. Então o que nós precisamos é atender a demanda atual.
MSREPÓRTER: Entre os episódios marcantes da sua vida está a tragédia do Aeroporto de Congonhas em julho de 2007, onde 187 pessoas morreram quando o avião da TAM não conseguiu parar na pista, atravessou a avenida e bateu em um prédio. Como foi esse dia para você?
Foi uma das experiências mais complicadas, porque a gente estava de serviço no dia. No local onde eu estava eu não percebi a aeronave passando com problema, mas ouvimos um barulho muito forte. Quando eu olhei para o pátio vi aquele clarão, mas ainda sem saber o que era, imaginei que fosse o posto de gasolina que tivesse explodido. Mas tinha uma colega nossa no pátio viu tudo direitinho quando o avião passou fora da rota. Ela estava desesperada, começou a gritar no rádio dizendo que teve um acidente. Então nós saímos correndo para verificar o que havia acontecido, mas não consegui identificar nada, porque a distancia de 100 a 200 metros eu não conseguia chegar perto por causa do calor.
Com tudo aquilo eu precisei voltar para o meu ambiente de trabalho para gerenciar tudo. Naquele instante o aeroporto fechou, todas as operações foram canceladas. E a quantidade de pessoas embarcando, na sala de embarque, chek in ou dentro de avião, era muito grande. Quem já tinha embarcado precisou descer do avião novamente. Precisávamos devolver a bagagem de todo mundo. Então eu acabei me envolvendo com essa parte mais operacional para tirar os passageiros dali. Mas em uma situação como essa ninguém reclama, todos são mais solidários. Terminado isso eu fui dar apoio (no nosso plano de emergência já está descrito o que devemos fazer em uma situação dessa), quem fica em qual setor, e coube a mim ficar numa área com os familiares das vítimas, e eu fiquei praticamente uma madrugada inteira com eles.
Esperamos chegar a confirmação da lista de passageiros e tudo mais. Então foi uma experiência bastante desagradável. Graças a Deus eu não tive nenhuma consequência traumática, consegui superar bem. Mas teve colegas nossos que se envolveram tanto que precisaram fazer terapia. Para mim que estou na aviação há 17 anos e também para minha esposa que é comissária de bordo foi um processo bastante doloroso.
O lado positivo disso foi ver todos muito unidos. Como o lado ser humano falou forte. Não existe bandeira, (Gol, TAM, Avianca, etc,) é todo mundo focado, todo mundo era TAM. Tudo era imediato, automático. Todos queriam resolver as coisas.
Ceyd Moreles
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