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Entrevistas

Na semana de aniversário de MS, secretário fala sobre importância da habitação

9 outubro 2011 - 19h00 Por Markito

Nesta semana, 11 de outubro, Mato Grosso do Sul completa 34 anos de emancipação. E ao longo desses anos percebemos o desenvolvimento em ritmo acelerado. Estradas melhores, mais saúde e moradia para a população.

Na entrevista da semana, conversamos com um dos responsáveis pelo quesito habitação no Estado. Carlos Eduardo Xavier Marun, mais conhecido apenas por Marun, nasceu em Porto Alegre (RS) e veio para Campo Grande em 1987 para trabalhar como engenheiro. Dois anos depois, na primeira eleição direta do país, ingressou no PDT, partido no qual militou boa parte de sua vida pública.

Em 1996 foi convidado pelo então prefeito Juvêncio César da Fonseca para ser seu secretário de Assuntos Fundiários, cargo que ocupou por seis meses. No segundo turno das eleições do mesmo ano, apoiou André Puccinelli, que disputava a prefeitura com o candidato Zeca do PT, em uma eleição bastante concorrida.

Com a vitória de Puccinelli, foi convidado a ser presidente da Empresa Municipal de Habitação, onde começou uma trajetória muito próxima do atual governador. Trocou o PDT pelo PTB, mas logo se filiou ao PMDB, partido no qual permanece até hoje. 

Atualmente é deputado estadual licenciado e está à frente da Secretaria de Estado de Habitação e membro do Conselho Nacional das Cidades. Nesta entrevista, Marun faz um balanço do seu trabalho ao lado de Nelsinho e André Puccinelli, e fala do desejo de ser o próximo prefeito da Capital.

MSREPÓRTER: Em algum momento se arrepende de ter deixado de ocupar a cadeira na Assembleia para assumir a secretaria?

Nunca me arrependi. Mesmo gostando de ser deputado, eu também gosto de ser secretário. Muitas vezes estando na Assembleia tive saudade do tempo de secretaria, assim como quando estou na secretaria tenho saudade do tempo de assembleia. Mas arrependimento eu nunca senti.

Pela minha experiência, tenho consciência de que estou sendo mais útil neste momento como secretário do que seria como deputado.

MSREPÓRTER: Trabalhando na secretaria, o senhor acompanhou o desenvolvimento habitacional do Estado nos últimos anos. Então, fazendo um balanço, o que de mais importante foi feito?

A grande conquista deste processo é a desfavelização de Campo Grande. Quando eu assumi a Empresa Municipal de Habitação , em 1997, fiz um grande levantamento das favelas e constatei que havia 172 na Capital. O desafio era muito grande. Levei os dados ao então prefeito André Puccinelli, e juntos desenvolvemos um trabalho permanente para acabar com as favelas da cidade. Acredito que esta é nossa maior marca. 

Tive muito apoio do Nelsinho, do André, dos outros companheiros que presidiram a EMA e do governo federal, mas, modéstia à parte, fui um dos protagonistas nesta conquista.

Hoje me orgulho em dizer que Campo Grande é uma cidade que não tem favelas. Quando alguém me diz que uma surgiu, eu digo que estamos trabalhando para que ela deixe de existir. É um trabalho que não termina, temos que estar permanentemente lutando para manter o mérito de sermos a única Capital do país onde não existem pessoas morando em favelas.

MSREPÓRTER: Há pouco tempo foi criado o Cadastro Nacional de Mutuários (CADIMUT), para a distribuição de casas. Antes de sua criação, qual foi o maior desafio enfrentado para manter o processo funcionando bem?

É preciso ter determinação e coragem de assumir algumas posições. Por exemplo, muitos falam que eu sou contra o sorteio de casas, e eu sou contra porque já sorteei e foi justamente nos lugares onde depois tivemos os piores resultados em termos de revenda. Onde sorteamos foi onde registramos mais revendas.

A revenda de casas não é algo que me assusta. Isso porque a função social da casa é servir de moradia, então se ela é comprada por uma família que precisa do apoio do poder público e essa família reside nessa casa, ela continua cumprindo sua função social. Por isso a revenda não me apavora, mas ela é proibida. O cidadão que vende essa casa está sim cometendo um ato ilícito.

Agora, quanto a casas vazias e casas alugadas, eu sou absolutamente contra, pois nenhuma delas está cumprindo sua função social. Por isso temos que ter coragem de assumir critérios de seleção das pessoas, e com esses critérios tentar errar o menos possível.

MSREPÓRTER: Na construção no Residencial Ronaldo Tenuta houve uma preocupação um pouco maior com a sustentabilidade, e até foi incluído um sistema de capitação de energia solar para os chuveiros. Existem mais projetos com a mesma preocupação?

Quando começamos, entregamos às pessoas somente o lote, sem nem água ou luz. Então as coisas foram avançando, fomos evoluindo. Passamos a entregar o lote com alguns materiais de construção, e então as casas.

O Ronaldo Tenuta foi o ápice deste processo até agora. Além de entregar as casas com infraestrutura completa, inclusive asfalto, elas também tiveram o diferencial do aquecimento solar. Nem todas as casas que produziremos daqui para frente terão este formato, pois não temos condições. Sempre que obtivermos recursos para entregá-las desta forma, isso será feito.

MSREPÓRTER: O custo aumenta muito?

O aquecimento solar onera em R$ 2 mil mais ou menos cada moradia, cerca de 5%. Eu também quero acompanhar para obter um retorno sobre a manutenção do sistema, afinal não adianta estar na casa simplesmente por ser bonito, tem que ser funcional. A pavimentação e a drenagem já oneram em cerca de 20% no valor total do investimento.

Nossa meta é entregar 50 mil casas. Para entregar todas as moradias com esses recursos, teríamos que diminuir esse número em 12,5 mil unidades. Então ao invés das 50 mil casas entregues seriam apenas 37,5 mil, e acredito que nosso déficit ainda é mais quantitativo do que qualitativo.

MSREPÓRTER: O PMDB costuma escolher seus representantes através de pesquisas, e seu nome figura entre os possíveis candidatos à prefeitura da Capital nas próximas eleições. O senhor está à disposição do partido?

O PMDB optou pelo sistema de pesquisas para tomar essas decisões, e eu tenho minhas críticas em relação a isso, pois acho que é uma antecipação das eleições sem que todos sejam ouvidos. Mas, mesmo tendo minhas restrições iniciais, vejo como algo positivo.

Desde o primeiro dia que fui lembrado para a prefeitura até hoje, minhas declarações têm sido as mesmas. Estou honrado de ser lembrado, quero ser prefeito, me sinto em condições de ser um bom prefeito e quero ser o candidato da base, pois entendo que para ganharmos as eleições precisamos ter um candidato que una os partidos.

Meu nome foi colocado, não fui eu que coloquei, mas estou à disposição e muito desejoso. Gostaria mesmo de concorrer, mas caso não seja o escolhido, apoiarei totalmente o companheiro que for, pois acredito no nosso grupo.

Não existem cidades sem problemas, mas já fizemos muito por Campo Grande, já avançamos muito. As administrações do André e do Nelsinho foram revolucionárias para a Capital, e como eu quero que esse trabalho continue, acredito que um candidato da base é o mais indicado para o cargo.

MSREPÓRTER: Então se o governador decidir apoiar o deputado Giroto, o senhor concorda?

Sem dúvida, o Giroto é meu amigo e se ele for nosso candidato, estarei ao seu lado.

MSREPÓRTER: Nesse caso, sairia como vice?

Não vejo essa possibilidade, até porque não seria meu interesse. Não sendo o candidato escolhido, tenho projeto de concorrer nas próximas eleições a deputado federal. E também penso que aqui, como secretário, posso desenvolver um trabalho mais abrangente no Estado, o que seria mais interessante. Mas sou um soldado do partido, não digo ‘não’, mas não tenho interesse e acho que não é producente. Somos do mesmo grupo, mas acho que não somaríamos um ao outro.

MSREPÓRTER: Os mandatos dos dois últimos prefeitos satisfizeram a população. Qual, em sua opinião, é o caminho a seguir para repetir o feito e até melhorar esse quadro?

É preciso ter continuidade sem ser continuísta. Para suceder André e Nelsinho, é necessário surpreender Campo Grande, que está acostumada com grandes administrações. Realizando apenas coisas corriqueiras, ninguém vai conseguir atender os anseios da população.

O próximo prefeito terá alguns desafios, como é o caso da saúde e do trânsito, mas terá que apresentar algo a mais para efetivamente conseguir atender as expectativas da população. Não será fácil. Suceder maus prefeitos não é difícil, agora suceder boas administrações requer muito trabalho.

Todos me vêem muito na questão da habitação, mas sou presidente do Conselho Estadual das Cidades e membro do Conselho Nacional das Cidades desde seu surgimento, então me sinto preparado.  Minha atuação é mais abrangente do que simplesmente a moradia. O que acontece é que a moradia é uma necessidade tão grande, que acaba ofuscando as outras áreas do trabalho que venho desenvolvendo em Mato Grosso do Sul.

Às vezes na rua as pessoas me vêem e parece que enxergam uma casa andando , mas nossa atuação é bem maior que isso.

MSREPÓRTER: As questões ambientais estão presentes nesta atuação?

Acho que já avançamos bastante nisso também.  Uma questão havia ficado para trás, a do saneamento. Eu costumava dizer que Campo Grande estava no século XXI, mas o saneamento ainda estava no século XIX. Agora essa questão também já avançou muito.

Agora a discussão é sobre o destino adequado dos resíduos sólidos. O Nelsinho já vem tomando algumas medidas, mas essa é uma questão que deve ser enfrentada e solucionada não só aqui em Campo Grande como também em Mato Grosso do Sul e em todo o Brasil. São raros os casos de municípios que têm uma solução eficiente e definitiva para esse problema.

MSREPÓRTER: Se eleito prefeito, quais serão suas primeiras ações para Campo Grande?

Uma questão importante é a saúde. Tenho conversado com a população dos bairros, e aonde vou elas pedem um posto de saúde. Eu penso que estamos conquistando condições de ter uma rede de postos de saúde e de Unidades de Pronto Atendimento de um tamanho razoável, com pouca necessidade de ampliação.

O que nós precisamos são mais leitos hospitalares e leitos de UTI, pois a cidade nos últimos dez anos praticamente não aumentou esse número. Precisamos desses novos leitos e precisamos que a nossa rede tenha um funcionamento mais eficiente, e aí vem a questão do médico. Nós precisamos de alguma forma conseguir manter um grande número de médicos prestando serviço à rede pública de saúde.

O cidadão quando adoece, gostaria de andar apenas 100 metros e chegar ao posto de saúde. Mas tenho certeza que ele preferiria ter que andar dois quilômetros para chegar ao posto que já existe, tendo a certeza que será imediatamente atendido. Muitas vezes, ao invés de construirmos um posto que fique ao lado da casa do cidadão, mas que não tem condições de atendê-lo, é melhor garantir a qualidade e a eficiência nos postos que já existem. Mais importante do que a localização do posto, é a eficiência do atendimento que ele oferece. O cidadão tem que chegar e ser atendido, não dá pra marcar um exame de uma pessoa que está doente para seis meses depois da consulta.

Por tudo isso, acho que a questão do médico dentro do posto de saúde é a primeira que o novo prefeito terá que enfrentar. Não é fácil, pois muitas vezes o poder público não tem condições de pagar o que um médico pode receber trabalhando na função privada. Mas penso que deveria haver alguma ação nacional, principalmente em relação às universidades públicas de medicina, algo que obrigasse o cidadão a devolver à sociedade o investimento, trabalhando no poder público pelo menos por um tempo.

Outro ponto importante é o trânsito. Campo Grande começa a enfrentar os desafios de uma cidade que se aproxima de um milhão de habitantes. Hoje o município tem cerca de 400 mil veículos circulando, mais 100 mil motos, e isso é uma nova realidade. Acredito que os problemas do trânsito começam a ser resolvidos na cabeça do motorista, com conscientização e educação, mas o poder público tem que fazer sua parte, e o trânsito cada vez mais será uma questão problemática.

Camila Bertagnolli

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