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Entrevistas

Teatro em MS é tema da conversa com o organizador e idealizador do Festcamp

17 outubro 2011 - 20h00 Por Markito

Nesta semana, o MSREPÓRTER conversou com um dos organizadores e idealizador do evento que tira o cenário artístico de Campo Grande da rotina, o Festival Nacional de Teatro de Campo Grande.  O Festcamp está em sua quinta edição, e Espedito Di Montebranco, que trabalha com teatro há 15 anos, é uma das pessoas responsáveis pelo sucesso do projeto.

Pernambucano, já há 35 na Capital morena, Espedito é diretor do Grupo Teatral Palco-Sociedade Dramática desde 1995. Bem humorado e com uma linguagem simples, característica dos grandes atores, ele nos falou de como surgiu a ideia do festival, dos desafios de se fazer teatro em Mato Grosso do Sul e da importância da perseverança em detrimento da desistência quando o assunto é fazer arte nesta região.

MSREPÓRTER: Como a ideia do Festcamp surgiu e amadureceu até se tornar realidade?

 A coisa foi bem prática. Eu sempre quis fazer um festival de teatro nacional, então sempre inscrevia uns projetos de festival de monólogos, que é mais barato. Isso porque saímos de um cenário em Mato Grosso do Sul em que não tinha lei de incentivo à cultura. Depois, vieram os diretores, que alguns chamam de velha guarda, que brigaram pela Le de incentivo e investimentos culturais. E então, eu fui mandando projetos, mas é difícil captar recurso para um festival, emplacar a primeira ideia de monólogos ou de qualquer coisa é muito difícil. Isso porque aqui no Estado se tem o costume de apostar somente naquilo que você vê, as pessoas acreditam naquilo que elas já sabem como é e que já vem pronto. Se você leva uma nova ideia, dificilmente alguém acredita, mas como começaram a aparecer novas oportunidades de investimento, eu não desisti.

MSREPÓRTER: Como foi o início da articulação para se criar o Festival Nacional de Teatro em Campo Grande?

Eu tinha essa ideia do festival de monólogos. Então, a Marineide, gestora do Teatro Glauce Rocha, comentou com o Anderson Lima que havia uma semana vaga no teatro, pois alguém havia desistido da locação. Ela queria fazer algo para aproveitar aqueles dias, mas não tinha ideia do que fazer. O Anderson me ligou falando em fazer uma mostra de teatro. Mas nós temos aqui a mostra da semana do teatro, a mostra da fundação de cultura, a mostra em comemoração ao Dia Internacional do Teatro. Então pensei: A gente vai mostrar nosso trabalho a nós mesmos mais uma vez? Foi aí que sugeri a ideia do festival nacional. Mas, como não tínhamos dinheiro, chamamos a classe teatral para uma reunião, íamos pensar em um modo de captar recursos. Cerca de 20 ou 30 pessoas estiveram nesta reunião. Mas quando perguntaram do dinheiro, viram o caso como sem cogitação e foram embora. Mas eu sou assim, acho até que é coisa de pernambucano, eu demoro para falar “eu quero fazer isso”, mas a partir do momento que eu digo eu vou fazer, mesmo que sozinho. Às vezes eu me ferro, mas eu não consigo entender a ideia da desistência, mesmo que eu esteja errado, vou até o fim pra ver no que dá. E nesse sentido, o grupo representante da classe foi embora, e ficaram eu, o Anderson e a Marineide.

MSREPÓRTER: Como o trio criador do Festcamp se movimentou no início para tornar o projeto viável?

Nós não quisemos dar o braço a torcer. Não queríamos mostrar para todo mundo que eles é que estão certos por desistir e por não acreditar. Fomos na Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, falamos com Américo Calheiros, mostramos uma relação de grupos que queríamos trazer para cá, e ele disse que a parte do investimento para trazer esses grupos dava para trazer pela Fundação. Já a Universidade Federal colaborou cedendo o teatro e material gráfico. Enfim, o primeiro Festcamp foi sem nenhum centavo, mas com apoios.

A FCMS está conosco desde a primeira edição, a Fundação Municipal de Cultura entrou na segunda edição, que também foi importante, e as portas foram se abrindo neste sentido.  A cada edição, o Festcamp foi agregando pessoas e hoje o festival está aí. Eu fico até pensando nas pessoas do começo, que negaram participar. O Festcamp envolve um processo que é interessante, eu aprendi a escrever projetos escrevendo o Festcamp.

MSREPÓRTER: O que o Festcamp representa para Campo Grande hoje?

O Festcamp, em sua 5ª edição, já recebeu 100 grupos, lincando a arte regional com a nacional. Até a quarta edição, o público aproxima-se de 50 mil pessoas, e vamos ver se nesta edição chegamos a 60 mil.

É  uma novidade para Campo Grande, porque não tinha nada parecido antes, então vemos que existem brechas ainda nas atividades artísticas da cidade. A gente cobra muito do poder público, que eles façam, que eles realizem nossas necessidades, mas nem sempre o poder público sabe o que nós precisamos. Como o governo e a prefeitura vão imaginar que a classe teatral precisa de um festival nacional?

Então acho que é papel do artista propor seu projeto e se for interessante entregar, e se não for aprovado, é porque ainda não está tão interessantes e precisa ser reformulado. Foi isso o que aconteceu com o festival. Estava com a ideia desde 2000, quando eu sai do meu emprego no governo para viver do teatro.

MSREPÓRTER: Quantas pessoas estão envolvidas na organização do evento?

Não dá pra prever exatamente a quantidade de gente que trabalha no Festcamp. O Festival é como um grupo de teatro, quando a coisa está engatando alguém sai, diz que está indo embora. A Ana, uma menina aqui, já estava fera no assunto, e ela resolvia tudo. Ela foi para Londrina estudar artes cênicas. Então, dependendo da situação você pode ter trinta pessoas, ou pode ter dez. Não é um festival que acontece o ano inteiro. É uma equipe que vem,em 20 dias, monta uma estrutura, e depois vai cuidar da sua vida.

As pessoas têm que se organizar, pois o Festcamp não paga tudo isso para dizer que você trabalha 15 dias e folga o resto do ano. Então eu acho que hoje deve ter nessa estrutura cerca de 20 pessoas. Pessoas que trabalham direto, nos veículos, buscando no aeroporto, cuidando de alimentação, voltando e pegando os grupos, cuidando do palco, pessoas que cuidam da lona. Então divido em três ou quatro áreas e cada um dá conta do recado.

MSREPÓRTER: O novo espaço de apresentações, que é a lona montada na Praça do Rádio, foi criado nesta edição. Como foi o surgimento desta ideia e para colocá-la em prática?

A situação faz o ladrão. Nós resolvemos aumentar o de espetáculos, até porque nós inscrevemos o projeto na Funarte 2010 e fomos selecionados.  A gente contou com o ovo na bunda da galinha, porque o dinheiro era para ser liberado, mas não foi liberado para ninguém.  Era um prêmio ainda do governo Lula, e ficou enrolado. Tinha aquela quantidade absurda de apresentações, aí pegamos a lona, que não estava no projeto, nem do Fundo de Investimento Cultural e nem da Caixa Econômica Federal, de onde vem o investimento para fazer o Festcamp.  Naquela situação, fomos locar a lona. De última hora resolvemos cobrar três reais para bilheteria da lona e para os espetáculos do teatro.

Os espetáculos de rua e as oficinas continuaram com entrada livre. Primeiro porque não tem como cobrar, depois porque não é esse nosso objetivo. Queremos que a s pessoas na rua entendam a linguagem do teatro, como a época do “homem da cobra”, em que as pessoas até esqueciam de pagar as contas quando se distraíam com ele.

Já tínhamos pensado na lona no ano passado, mas pensamos que ia ser muito trabalhoso. Exige um desdobramento muito grande, tem que ter autorização, fiscalização dos bombeiros, alvará na mão. Em março ou abril saiu a verba da Funarte, o Festcamp que seria em agosto, foi programado para outubro.  O Teatro Araci Balabanian estava em reforma, apesar da previsão da entrega ser antes do festival, pois jogamos o Festcamp para outubro.  Pensamos que seria ideal o Festcamp no final do ano, porque até lá tudo acontece, e teve uma briga no Rio de Janeiro, invadiram a sede da Funarte, e acabaram pagando o prêmio.

Nós tivemos que prestar contas, pois cada gestor de projeto tinha que mostrar o que gastou, tivemos que comprovar e não tivemos problema com isso. Além do teatro Araci, a Praça Ary Coelho também está em reforma, e era um dos espaços que utilizávamos para as apresentações. Com a quantidade de espetáculos, fomos arrumar a lona, o que foi uma dificuldade m Mato Grosso do Sul.  Isso sendo que daqui poucos dias, no dia 20, o teatro Araci Balabanian será reinaugurado, uma diferença pequena. Não tinha lona para locar aqui no Estado, tivemos que adaptar a lona com outras empresas, para caracterizar e ambientalizar para as apresentações.

MSREPÓRTER: Como foram os primeiros dias do Festcamp e qual a expectativa para esta edição?

A previsão é sempre de bater recorde de público. O público menor que a gente teve foi em 2009, com a gripe suína que assustou o mundo, que também não assustou a gente, porque caíram umas 6 mil pessoas, sendo que a média de público chega de 15 a 17 mil pessoas. Depende muito dos espetáculos que a gente propõe. O de sábado, por exemplo, funciona para 150 pessoas, e foi muito elogiado. A gente busca não só bater o recorde de publico, se não vamos trazer só espetáculos que vão lotar de gente. Mas nós buscamos busca uma reflexão também. O ator de sábado veio de João Pessoa, na Paraíba. Fernando Teixeira tem 50 anos de teatro, hoje em dia está difícil encontrar alguém assim, que viveu a vida intera só de teatro. Por isso, pelo espetáculo da rua, pelo Palhaço Dentinho, dá pra perceber que o Festcamp está diversificado.

A movimentação na Praça também foi bonita, o espetáculo terminou em baixo de chuva e os atores não pararam, dando um romantismo a mais na peça. A chuva desabou em cima deles e eles continuaram, foi emocionante. O Festcamp mais uma vez inovou.

MSREPÓRTER: Qual uma das maiores novidades na edição deste ano?

Este ano, volta a apresentação de dança. O Festcamp deste ano termina com a dança. Nós colocamos a dança no segundo ano, e agora volta na quinta edição com o grupo Nômade, conceituado, que ganhou prêmios e está rodando por todo Brasil. Isso porque o objetivo geral do Festcamp é além de trazer espetáculos reflexivos, propor para cidade um outro movimento, uma cara cultural, feito Corumbá que já tem o Festival América do sul, Bonito com o Festival de Inverno, e além disso tudo, trazer o publico para o teatro em si, e não para os espetáculos de teatro.

Nós, artistas de Mato Grosso do Sul, pensamos da seguinte forma, e isso eu cobro muito no grupo Palco, nosso público está pequeno, não veio muita gente. Mas eu pergunto, quantos espetáculos você asssistiu esse ano? Porque da mesma forma que não vêm pra ver o nosso trabalho, é sinal que a gente também não esta vendo o trabalho do outro.

MSREPÓRTER: O que faz uma pessoa ir ao teatro?

Campo Grande não tem o hábito de ir ao teatro. Só as pessoas realmente que gostam, que falam que vão porque isso ajuda, preenche, não sei porque, por querer rir ou chorar, mas elas vão ao teatro porque elas sentem necessidade. A gente tem que fazer com que as pessoas saiam de casa qualquer dia da semana para ver algo que esta acontecendo aqui, vou ver dança ou ópera, mas estou saindo da minha casa pra ir ao teatro, que é um hábito não formado em Campo Grande, quanto menos no interior.

Acho que quem faz arte, primeiro precisa ter uma estrutura de mídia muito boa, porque quando vemos os espetáculos que vem de fora, eles fazem um investimento, em televisões e jornais, e as pessoas ficam sabendo e vão. Claro que o rosto do ator conhecido ajuda, mas no geral, eu sinto que as pessoas não vêm ao teatro porque não ficam sabendo. E o Festival consegue trazer o público porque não é um espetáculo isolado. São oito ou nove dias de programação, e os próprios grupos ajudam a divulgar nas redes sociais. É um projeto em que você pode se programar para ir, de alguma forma as pessoas conseguem ver alguma coisa.

MSREPÓRTER: Qual a diferença para o grupo, quando a apresentação é em um festival?

Nosso trabalho enquanto grupo de teatro é isolado, porque a gente não consegue fazer temporada aqui. São três dias estourando e muitas das vezes você faz cinco dias, mas não dá tempo de repercutir que está acontecendo alguma coisa lá, e quando as pessoas ficam sabendo já acabou. Já o Festcamp ainda consegue fazer diferente. Primeiro pela diversidade, pelo formato do festival, segundo porque é um tempo para as pessoas irem falando umas para as outras.

MSREPÓRTER: Como são escolhidos os espetáculos para serem apresentados no Festcamp?

Têm alguns grupos que são convidados, o que nós achamos que Mato Grosso do Sul precisa ver, e então envolvemos nosso ponto de vista de artista. É aberto um edital onde as pessoas se inscrevem do Brasil inteiro e daqui também. Através desse procedimento, são selecionados os grupos pela qualidade do trabalho, estética do trabalho, e são chamados alguns grupos já conhecidos internacionalmente, uma média de seis. Juntamos tudo e formamos o Festcamp.

MSREPÓRTER: Quais foram os maiores desafios do trio que criou o Festcamp?

Eu, Anderson e Marineide nos unimos, e os três acreditaram na ideia. Antes, a ideia era que todo mundo ajudasse, era um festival da classe teatral, pois é muita responsabilidade e trabalho fazer tudo sozinhos. É assustador no começo você criar um festival nacional do nada, sem ter experiência de ter trabalhado em um festival assim. É a mesma coisa de você pegar uma colher de pedreiro e dizer que vai levantar uma casa nunca tendo sido nem um servente de pedreiro. Mas na raça, decidimos que iríamos fazer.

 Daqui 20 anos o Festcamp ainda vai estar crescendo, porque todo ano tem uma coisa nova, e a gente não se acomoda, o artista costuma criar o problema para ele. Quando todo mundo fala que está bom, eu fico na dúvida e começo a mudar, não aceito a ideia de que está pronto, acho sempre possível a mudança, não dá pra ficar parado, se não cai no tédio. Antes tínhamos os debatedores, com o grupo que tinha terminado a apresentação. Esses anos vieram dois críticos, estamos testando o formato, para ver se flui melhor. Não cansa tanto o grupo, porque você antes tinha que ficar explicando seu espetáculo, o que é meio estranho. Muitas vezes o público quer entender porque aquilo foi feito, e o teatro é igual poesia, não se explica muito, é o que você entende, o que mexe com você. Na minha concepção, como os grandes pensadores do teatro, acredito que o espetáculo é bom quando você vai para casa pensando, questionando. Sinal que não passou e pronto, sem validade. O babaca é refletir.

MSREPÓRTER: O que você como artista aprendeu durante estas edições do Festcamp?

Nós levamos a montagem do Festcam com mais tranqüilidade a cada ano. É como em um espetáculo de teatro. Você tem 15 minutos para se trocar, o colega vai entrar em um minuto, você atrapalha a entrada dele para se trocar rápido na coxia, e com o tempo, você vê que dá tempo e não é preciso de desespero. Tudo é ensinamento, teatro não se aprende só estudando. O estudo é em casa, é bacana faculdade, mas o teatro se aprende lendo e fazendo. E não adianta um sem o outro. Você aprende escrevendo projetos e enviando, que é necessário uma contabilidade, e artista não é bom nisso. Você precisa fazer um relatório com prestação de contas, ensina a lidar com a grana, que é uma coisa séria, ensina a recepcionar pessoas de todo Brasil.

MSREPÓRTER: Como é conhecer todos estes grupos de fora do Estado que vem para cá?

Você vê que grandes atores renomados são simples, que querem entender como é a cidade, bater um papo. Enquanto aqui a gente vê o ego dos atores e diretores com 5 ou 15 anos de teatro. Eles se colocam em uma pose que complica a nossa relação. Às vezes é mais fácil a relação com os de fora do que com os daqui. A gente consegue aceitar o trabalho de fora, já o nosso, daqui de Campo Grande, a maioria não aceita o trabalho do colega. Porque ele não vai ao teatro pra curtir o espetáculo, mas para ver se é melhor ou não que o dele. Se for melhor, ele se fere, e se é pior, ele sai detonando.

A vida ensina a gente, que por mais que a gente não goste do trabalho do outro, ou do outro, a gente tem que respeitar. E o teatro de Mato Grosso do Sul precisa disso. Um espetáculo salva o outro, se todo mundo crescer, o investimento é maior para nossa área. O Ministério da Cultura vai lançar projetos pensando na participação do nosso Estado. O Festcamp ensina caminhos, e a vivência teatral também. É bacana a troca, observar como as coisas acontecem fora daqui. Se o cara vem, senta e assiste todos os espetáculos do Festcamp, ele sai com uma bagagem enorme. Uma coisa é ler no Google o que é uma tragicomédia, a outra é vir aqui e ver. E isso é possível em todo festival.

Eu acho que o tetro de Mato Grosso do Sul está ficando profissional, e vai dar bons frutos. O festival vem pra isso, está todo mundo vivendo de teatro por aí, porque nós não podemos? Se eles vêm pra cá, é sinal que podemos ir para lá. Falo para todos, e me falta tempo para fazer isso também. Mas pretendo dar meus pulos.

*A programação do Festcamp e outros detalhes do projeto, é possível conferir no site www.festcamp.blogspot.com

Ana Maria Assis

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