Era uma manhã de terça-feira, pouco depois das 8h, quando Maria Lúcia Metello chegou a seu escritório na companhia de suas duas cachorrinhas. Uma delas, maior e mais quieta, apenas farejava o chão para reconhecer o ambiente, a outra, menor e sem uma das patinhas da frente, vinha latindo em frente à sua dona, para protegê-la das pessoas estranhas. “Isso significa bom dia”, explicou, aos risos.
A presidente fundadora da Organização Não Governamental (ONG) Abrigo dos Bichos recebeu a equipe do MSREPÓRTER e revelou que a paixão pelos animais foi a motivação para a escolha de sua carreira e do desenvolvimento do trabalho voltado ao amparo de animais abandonados nas ruas de Campo Grande.
Médica veterinária por formação, Maria Lúcia conta que logo que terminou a faculdade, surgiu o desejo de criar uma organização para cuidar de animais carentes. Por inúmeros motivos, o sonho foi sendo adiado, até o dia em que uma conversa com colegas a fez perceber que não estava sozinha em sua vontade. E foi aí que começou sua luta à frente do Abrigo dos Bichos.
MSREPÓRTER: Como começou o Abrigo dos Bichos?
O Abrigo foi fundado há dez anos exclusivamente por médicos veterinários. Todo o corpo eletivo e diretivo era formado por veterinários. Depois, como houve um interesse muito grande da população, nós alteramos o estatuto e hoje várias pessoas, com as mais diversas profissões, participam do Abrigo dos Bichos, e isso só veio a somar.
MSREPÓRTER: Qual a missão da ONG?
A missão do Abrigo é preservar a saúde pública respeitando a vida animal. Viemos para somar porque a prerrogativa do Ministério da Saúde também é preservar a saúde pública, mas nem sempre isso garante aos animais o direito à vida e a boas condições de existência. Um exemplo que posso citar é a da falta de uma política de controle de natalidade, de animais de rua e de zoonoses que seja eficaz.
Também falta conscientização por parte da população, já que as pessoas abandonam seus animais ou os deixam perambular pelas ruas. Depois a carrocinha vai, recolhe, encaminha ao Centro de Controle de Zoonoses e mata. E isso é como enxugar gelo, uma ação que nunca terá fim.
Então nós precisamos de uma política administrativa de saúde pública eficiente, inteligente e barata, e isso podemos fazer em parceria com outras ONGs e com o apoio da população. Por isso acredito que o terceiro setor veio para somar, para preencher lacunas deixadas pelo poder público.
Essa foi a ideia que nos motivou a fundar o Abrigo, continuamos abertos a parcerias e sempre conclamamos a população para que sejam parceiros do governo. Animais nas ruas representam uma ameaça à saúde pública, e se coibirmos esse tipo de atitude e conscientizarmos a população a bem tratar seus animais, estaremos garantindo que nossa saúde pública caminhe em direção à perfeição. Nossa missão é essa, além de ajudar os animais que sofrem, colaborar com o poder público.
MSREPÓRTER: O Abrigo dos Bichos foi a primeira de outras ONGs que surgiram em Campo Grande, como foi esse começo?
Inicialmente éramos apenas veterinários, depois a população abraçou a causa e outras pessoas passaram a trabalhar conosco, o que nos deixou muito contentes.
No começo não tínhamos área de recolhimento, depois um voluntário cedeu uma área e tínhamos o Abrigo Campo, que era uma chácara para onde levávamos os animais recolhidos. Como boa parte da população ainda não estava preparada para entender para o que serve uma entidade protetora de animais, muitos pensavam que éramos um bando de otários com um depósito para livrá-los dos problemas que eles acreditavam que eram seus animais. Pois muitos encaram como problema.
Fossem seus animais gatos ou cães, as pessoas que não queriam que eles se reproduzissem não tinham o cuidado de castrá-los ou mantê-los em casa, não exerciam a guarda responsável. Aí quando nasciam os filhotes, eram mandados para a ONG. Não só filhotes como animais velhos também, que são abandonados e substituídos por um novinho, como se fossem objetos. Um exemplo da falta de guarda responsável e até mesmo de amor pelo animal.
Então falta a guarda responsável, falta a castração e falta o terceiro item que é importantíssimo, a adoção. Se por algum motivo você já não pode mais ficar com seu animal, é preciso procurar uma família que possa cuidar bem dele. Estes são os três pilares da proteção animal.
MSREPÓRTER: Hoje a ONG já não conta mais com o Abrigo Campo?
Por motivos alheios, tivemos que devolver a área a pedido do proprietário. Na época estávamos com 60 gatos e 60 cães, que tivemos que remover do local, doar ou levar para casa. Depois disso, o grupo guardião, que era nosso grupo de resgate, resolveu fundar uma outra ONG para trabalhar em parceria, formada pelo pessoal que estava realmente com a mão na massa e que estava resgatando animais. Com isso, o Abrigo ficaria na parte logística, na parte de elaboração de legislação, de fiscalização, de denúncia e de contrapor as políticas públicas, pois alguém tem que meter a cara nisso. Então foi fundada a segunda ONG que é a Fiel Amigo, da qual somos parceiros e apoiamos. Depois, deste grupo do Fiel Amigo, surgiu a ONG Vira Latas.
MSREPÓRTER: O surgimento de novas organizações soma no trabalho do Abrigo?
Eu sempre incentivo o surgimento de mais ONGs, pois quanto mais organizações, mais força teremos. Não é apenas dividir ideias e grupos de trabalho, é dividir para multiplicar o trabalho. O ideal e a causa são os mesmos, então temos que formar e fortalecer cada vez mais grupos. Esta é a nossa idéia para que haja cada dia mais ONGs aqui na cidade e também em todo o Estado.
MSREPÓRTER: Existem organizações semelhantes em cidades do interior do Estado?
Estamos fundando um núcleo regional do Abrigo dos Bichos em Aquidauana, e nossa ideia é formar um núcleo regional em todos os municípios. Isso porque o CCZ precisa ter apoio nos municípios. O ideal é que haja uma entidade de proteção animal em cada município para trabalhar em parceria com o órgão. Nunca em briga, ao contrário do que muitos pensam. Essas instituições não devem ter pensamentos antagônicos, devem sempre trabalhar paralelamente e em parceria. Com isso tanto a população quanto os animais só têm a ganhar.
MSREPÓRTER: Como funciona na prática o trabalho da ONG?
Não temos área de recolhimento animal, pois querendo ou não, essa área sempre se torna um depósito, pois existem animais que ninguém quer, e as pessoas pensam que se está na ONG, está bem, e não enxergam nosso espaço como um lar temporário. O problema é que alguns animais precisam de um pouco mais de atenção, e quando um cão está na ONG ninguém vai lá para levá-lo para passear ou brincar com ele, e ele acaba ficando lá, aprisionado. Por isso, neste ponto sou contrária a termos esse espaço.
O que acredito é que deve haver lares temporários, mesmo que a ONG tenha um espaço, pois este é necessário para termos para onde levar esses animais resgatados, nunca o deixaremos lá. As pessoas precisam entender que o animal sente, reconhece, adoece e entra em depressão, como qualquer ser vivo. A diferença para o ser humano é que ele não verbaliza, então ficar aprisionado dentro de um pequeno espaço seria interessante para ele? Ele gosta disso?
As pessoas pensam que se ele está na ONG está bem, mas não é bem assim, ele está sendo alimentado e está fora das ruas, mas e o amor, o contato e a liberdade que ele necessita? Infelizmente a grande maioria das pessoas não pensa dessa maneira, no indivíduo, no animal como ser vivo com sentimentos e emoções. O Abrigo dos Bichos não tem e nunca terá depósito de animais. Eu penso que talvez tenhamos que ter um centro de atendimento animal, com clínica veterinária, hospital e espaço para reabilitação. Mas as pessoas precisam que entender que se tratará de um lar temporário, nunca um depósito.
MSREPÓRTER: E o atendimento acontece mesmo sem esse espaço?
O Abrigo dos Bichos pensa da seguinte forma: não é porque não temos uma área que passaremos por animais necessitados e faremos de conta que o problema não é nosso, ou que esse problema não existe. Então, por exemplo, o animal está atropelado na rua, nós recolhemos, tratamos e ele é encaminhado para um lar definitivo, ou no mínimo um lar temporário. Quando ele recebe alta, sai da clínica e nós assumimos a conta. É desta forma que temos trabalhado.
O problema é que recebemos muitas ligações denunciando animais soltos, perto das casas destas pessoas que denunciam, e não temos como pegar todos, nem para onde levar. Nesses casos, eu sempre oriento quem ligou a identificar o dono desses bichos, porque eles têm dono, e conversar. Pois deixar seus animais soltos na rua é contra a lei, é crime. É possível também entrar em contato com a delegacia de polícia especializadas em crimes ambientais para registrar um boletim de ocorrência contra esse proprietário.
MSREPÓRTER: Abandono de animais é crime. Mas e a lei é aplicada?
É isso que está faltando, aplicar e fiscalizar a lei. Animal não pode vagar solto pela rua, pois ele adquire doenças, transmite essas doenças e corre muitos riscos, como ser atropelado e sofrer maus tratos, ou seja, apenas coisas ruins. Agora, se ele estiver dentro de casa sendo bem cuidado por seus donos, acabou o problema.
Então eu sempre falo que temos dois objetivos no Abrigo dos Bichos, o primeiro é evitar que o animal vá para a rua, e o segundo é garantir que o animal domiciliado não sofra maus tratos. Esta é a situação ideal. O ruim é que muitas pessoas pensam que o problema não é delas, que podem fazer com o animal o que bem entenderem, e não é assim, não! Nós temos leis claras sobre isso, e se o cidadão passar a responder por processos de maus tratos, se isso for encarado como crime, ele certamente irá repensar seu modo de agir.
MSREPÓRTER: Nas ações do abrigo, quem oferece esses lares temporários?
São voluntários da ONG. O problema é que são poucas as pessoas que se dispõe a ficar com esses bichos, normalmente as pessoas pensam que o problema não é delas. Mas existem pessoas boas, nós temos exemplos de pessoas maravilhosas. Agora, se houvesse um oferecimento maior por parte da população, eu acredito que o nosso trabalho seria bem mais fácil. Falta apoio da população, sim!
MSREPÓRTER: São poucos que tem que fazer muito, não é mesmo?
Exatamente! O apoio tem crescido, as pessoas boas estão aparecendo, mas ainda é pouco para o número de pessoas que vivem aqui na cidade. Campo Grande tem cerca de 800 mil habitantes, e o número de lares temporários é ínfimo se comparado a isso.
Temos muita gente que não ajuda e muitos animais nas ruas. Se cada um fizesse a sua parte, não haveria nem a necessidade de uma ONG de proteção animal. A verdade é que nós estamos protegendo os animais da própria população. Na prática, o que acontece é isso.
MSREPÓRTER: Como funcionam as parcerias?
Temos parcerias com alguns colegas veterinários. Há uma clínica que nos dá três atendimentos gratuitos por mês, e do quarto em diante é cobrado um valor bem mais barato. É como um convênio, para exames de sangue, raio-x, consultas, enfim, temos uma certa gratuidade ou pagamos um valor bem mais barato para atender esses animais. Ainda bem, pois se fossemos pagar o preço de tabela cheia, seria totalmente inviável realizar os atendimentos.
Mas isso não é feito por todas as clínicas, tem colegas veterinários que não conseguem entender isso. Um dia, acho que eles entenderão que nós não estamos tirando a clientela de ninguém, nem estamos fazendo concorrência desleal. Simplesmente queremos mostrar que se cada um fizesse um pouquinho, somando tudo os animais seriam sempre beneficiados.
MSREPÓRTER: Quais os pontos mais importantes a serem tratados nessa questão animal?
São várias frentes de batalha. Em primeiro lugar, acho que se conseguíssemos mudar o pensamento do poder público em relação aos animais, estaria quase tudo resolvido. Hoje, se entende que a matança de animais vai melhorar a saúde pública, e uma coisa não tem nada a ver com a outra. Então o que falta no país é que as autoridades encarem que é muito mais fácil fazer o preventivo do que o curativo. Um exemplo bem simples disso é a raiva. A raiva não tem cura, é perigosa para cães e para as pessoas com quem ele tem contato. E como se evita a doença? Simplesmente com uma vacina, que além de tudo é bem baratinha. Então, solução nós temos, o que falta é aplicá-la!
A mesma coisa acontece com a Leishmaniose. Vamos matar, matar e matar e o problema não será resolvido. A política adotada hoje é a de condenar o animal a morte, e às vezes ele não está nem doente. É um problema sério. Então uma coisa importante é ajudar nesse quesito, na mudança da interpretação de como melhorar a saúde pública. Não podemos ficar enxugando gelo a vida toda, a situação é complicada.
Para ajudar a resolver essa questão de saúde pública, seria muito importante a existência de um SUS animal. Aí alguns dizem ‘mas nem o SUS para as pessoas funciona’, e eu respondo que não funciona porque existe corrupção, existem políticos podres e muitos interesses que não são os da população. Se as coisas fossem feitas como devem, tudo funcionaria.
MSREPÓRTER: Em sua opinião, a corrupção está infiltrada também nas atitudes das pessoas?
Com certeza! A corrupção é um grande problema do nosso país, e não só a dos políticos, pois muitas vezes o povo brasileiro é corrupto. A pessoa vende seu voto na eleição e depois reclama da corrupção? Isso é muito errado. Quando realizamos um projeto ou uma campanha para animais de rua ou de famílias carentes, muitas pessoas que tem um bom poder aquisitivo querem levar seus bichinhos para aproveitar o benefício gratuito. Será que esse cidadão não pensa que está tirando a oportunidade de um cão de rua? Infelizmente é isso que acontece.
No inverno, fizemos uma campanha para arrecadar roupas, cobertores e casinhas para animais, e o que vimos de pessoas querendo pegar os cobertores para si foi absurdo. Existe muita gente boa, tivemos uma adesão muito grande e recebemos muitas doações, inclusive de cobertores lacrados, comprados e enviados direto para a doação. E eram esses cobertores que as pessoas queriam pegar para si. Fiquei tão decepcionada, pensei ‘Deus, nosso país realmente está perdido’. Só pode ser uma pessoa sem escrúpulo nenhum, capaz de roubar o cobertor de um cachorro para si e deixar o animal passando frio. Para o próximo ano, acho que não pediremos mais cobertores, apenas roupas e casinhas, porque aí não tem como a pessoa desviar.
MSREPÓRTER: Como é ser uma protetora em meio ao questionamento de “por que trabalhar por animais se há tanta gente precisando”?
Esse discurso é velho, eu já nem discuto mais! Quando alguém vem com essa conversa eu simplesmente pergunto ‘quantas creches e asilos você ajuda’? A resposta normalmente é ‘nenhuma’, e aí eu digo ‘então você quer que eu pare de fazer o meu trabalho para fazer o seu’?
Acho que a preocupação com crianças e idosos deve existir e é necessário que esse trabalho seja feito, mas cada um deve fazer um pouquinho, e eu optei pelos animais. Estudei veterinária por gostar muito de bichos, mas se tivesse feito medicina e me especializado em pediatria, certamente estaria dando assistência em algumas creches. Porém, optei por animais, e por eles farei o que puder.
MSREPÓRTER: Esse pensamento não faria a população rejeitar a manutenção de um SUS animal?
Talvez no começo, pois mudar a mentalidade das pessoas é muito difícil, mas tenho certeza que após comprovar os benefícios que um programa deste tipo traria, a população apoiaria sim.
MSREPÓRTER: O que uma pessoa pode fazer se quiser conhecer e ajudar o trabalho do Abrigo dos Bichos?
Peço que essas pessoas nos procurem, pois serão muito bem vindas. Estamos à disposição através de nosso telefone, o 9955-4949, de nosso e-mail, abrigodosbichos@abrigodosbichos.com.br, e de nossas páginas na internet e no facebook, http://www.abrigodosbichos.com.br e https://www.facebook.com/AbrigoDosBichos.
Camila Bertagnolli
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