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Entrevistas

Cris Stefany revela como o movimento social transformou sua vida

30 outubro 2011 - 20h00 Por Markito

Natural do Estado da Paraíba, Cris Stefany cresceu na pequena cidade de Jacaraú, localizada na divisa com Rio Grande do Norte. De tão pequena, a cidade na época não tinha maternidade. O jeito foi a família se deslocar até o município de Mamanguape, onde tinha assistência médica. O nascimento foi registrado no dia 26 de outubro de 1979. Cris é a mais velha de cinco irmãos, sendo três biológicos, e duas meninas adotivas.

Os parentes mais próximos, oito tios por parte de mãe, moram estado do Rio de Janeiro, já da parte do pai, são oito tios que moram em Brasília.

Depois de sair de casa, morar sozinha e até se prostituir, Cris atualmente é presidente da Associação de Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS). Em uma conversa informal com a equipe do MSREPÓRTER, ela comenta sobre as dificuldades que já enfrentou, o trabalho da entidade em combater o preconceito e como o movimento social transformou sua vida.

MSRPÓRTER: Quando resolveu vir para Campo Grande, você passou por alguma dificuldade?

Eu cheguei aqui em Campo Grande em 1993, tinha de 12 para 13 anos de idade. Morei na Rua 14 de julho, atrás do supermercado Comper, porque minha tia era dona de um restaurante, e eu fiquei um tempo com ela. Depois de certo tempo, aos 15 anos, passei a morar sozinha em um kit net. Na época eu trabalhava, mas em seguida fiquei desempregada e passei por necessidades. Precisei morar de favor na casa de algumas pessoas, inclusive cheguei a dormir em bancos de praças. Um tempo crítico.

Mas aos 16 anos consegui arrumar emprego em uma floricultura, e fiquei até os 20 anos trabalhando no local. Depois desse tempo comecei a me prostituir.

MSRPÓRTER: Foi durante esse período de trabalho na rua que você conheceu os movimentos sociais?

Sim. Eu passei a me prostituir e decidi me engajar nos movimentos sociais, isso em 2001. Eu continuei me prostituindo e estudando. Até então eu trabalhava de dia, e estudava à noite.

Depois que deixei o emprego, eu estudava das 19h às 22h00 e até duas ou três da madrugada fazia programa e voltava para casa para dormir. Dessa maneira consegui terminar o ensino fundamental e médio.

MSRPÓRTER: E depois de todo esse período, como está sua vida hoje, você ainda faz programas?

Hoje eu não me prostituo porque passei a ganhar dinheiro em algumas palestras que eu faço. Existem os eventos nacionais onde você recebe ajuda de custo, ou até mesmo ao coordenar alguns projetos sociais, que possibilitam um meio de sobrevivência. Isso tudo também me ajudou a sair dessa fase de exclusão social que era de viver na prostituição, que eu fazia por necessidade.

Até mesmo por conta desse engajamento social, pretendo fazer faculdade de direito. Já prestei três provas do Enem.  Sei que não é fácil entrar no curso de direito, mas é um desafio pra mim.

MSRPÓRTER: O que você aprendeu trabalhando com o lado social. Você já foi candidata a vereadora nas eleições de 2008, pretende concorrer novamente em 2011?

Ingressar no movimento social me ajudou no fato de adquirir conhecimentos políticos. Achei muito necessário para saber como se ingere esse mundo político, social.

Eu já estou pré-candidata. Em princípio o partido (PPS) me convidou.

Na época que saí candidata, em 2008, sai pelo Partido dos Trabalhadores, fiquei na quinta suplência. Dos 288 candidatos eu fiquei no lugar 66. Para quem não tinha bagagem política e nem recurso, foi uma campanha que faltava tudo, eu não tinha absolutamente nada. Então pra mim, foi uma experiência muito boa.

MSRPÓRTER: E a Associação tem parcerias para manter-se?

Hoje eu trabalho com a minha vida de uma forma paralela. Claro que quando se fala em movimento LGBT hoje em dia, as pessoas lembram logo a Cris Stefanni, e me procuram. Mas eu tenho a minha vida pessoal, onde eu me envolvo com a política, e tem a questão institucional, que eu não posso envolver, porque eu não quero que a associação fique atrelada a este ou aquele candidato.

E eu tenho lidado muito bem com isso. Eu consegui estar dentro de um partido fazer uma militância partidária e do outro lado, dizer para o meu próprio partido que aqui não, aqui dentro eu sou instituição e não posso, não vou deixar o partido influenciar.

Sou contra troca de favores por questões políticas. Até porque, mesmo que eu saia candidata e me eleja, eu vou continuar primando pela instituição, onde eu comecei, que é o trabalho social, das pessoas poderem vivenciar sua sexualidade ou até mesmo ter a vida longe de violência, independentemente de raça, cor ou religião. É essa a minha luta, a questão da igualdade.  É o ser diferente, mas com direitos iguais.

Então eu jamais vou querer abandonar essa bandeira.  Na época de campanha política, cada um se agarra a uma bandeira, mas eu acredito que em primeiro lugar deva vir os direitos do ser humano. Pra mim, não importa o quão diferente você seja, você é ser humano, seu direito precisa ser resguardado.

MSRPÓRTER: Vocês recebem muitas denuncias de abuso ou preconceito? Acompanham crimes cometidos contra travestis e homossexuais?

A Associação trabalha com assuntos sociais, pautado na garantia de direitos, por exemplo, se o governo tem nas suas instâncias um programa de ação social que trata a questão de quem de fato precisa, nós vamos intervir para que todos tenham a mesma visibilidade de direitos e saiam da exclusão social.

Existem casos em que, por exemplo, a pessoa é vulnerável, é portadora de HIV, ou qualquer tipo de doença crônica e não tem acesso à moradia, é discriminado por algum motivo, nós vamos intervir, vamos pedir ao poder público que faça valer o direito dessa pessoa. No caso, ela vai precisar de uma moradia digna, aposentadoria e auxilio doença. Mas nós orientamos tudo isso é dever do Estado.

 Nós somos uma instituição sem fins lucrativos, então algumas pessoas acabam confundindo, porque nós não fazemos assistencialismo. O que está ao nosso alcance, fazemos sim. Nossa demanda é lutar pelos interesses iguais da população, sendo LGBT ou não.  Tanto que há pessoas associadas que não é do movimento. São aqueles que colaboram, participam ou simplesmente querem ficar por dentro do assunto.

MSRPÓRTER: A ATMS atende somente travestis e transexuais?

A instituição não atende todos. É muito agradável receber pessoas que não são do segmento. Porque todos merecem respeito, manutenção da integridade física.

Nós inclusive realizamos cursos de qualificação profissional, no último tinha 55 jovens, e desses apenas 12 eram do movimento LGBT. Os outros se dividiam em indígenas, comunidade negra, pessoas das mais diversas religiões, inclusive evangélicos. Muitas famílias acompanharam, vieram ao local conhecer o ambiente e o conteúdo do curso.

MSRPÓRTER: Vocês ainda sofrem muito com o preconceito?

As pessoas julgam o trabalho por se tratar de uma Associação de gays, lésbicas e travestis. Mas quando eu estou palestrando ou dando aula, eu sou extremamente rígida. Na parte teórica tem muita aula sobre cidadania, direitos humanos, diversidade, gênero, sexualidade e prevenção. Sempre contamos com parceria, professores de outras instituições para fazer palestras.

MSRPÓRTER: De que maneira é possível tratar as diferenças?

Durante as palestras nós usamos o desenho “Fuga das Galinhas” e também do “Patinho Feio”, justamente para explorar o tema diferença, para mostrar a exclusão social, a discriminação, o ser diferente. Para que os alunos entendam e sintam o quanto isso pode ser prejudicial.

Nós sempre nos dividimos em grupos para que haja discução e que todos interajam sobre a diferença entre as pessoas. Qual o grande lance, como é para o ser humano ser taxado como diferente e ser discriminado enquanto pessoa? Isso eles precisavam responder e refletir.  

MSRPÓRTER: E casos de extrema violência, morte entre gays ou travestis, você acompanha?

Sim. Nesses dez anos de instituição estamos fazendo um trabalho de combate a essa infeliz realidade. A associação lutou junto com o deputado Pedro Kemp, mesmo ele sendo católico sofrendo perseguição da igreja na época, conseguimos a aprovação da Lei Estadual 3.157, de dezembro de 2005, que dispõe sobre as medidas de combate à discriminação devido à orientação sexual. Essa foi a nossa primeira grande conquista.

A lei é muito clara quando ela destaca que toda e qualquer forma de discriminação, prática de violência, seja de ordem física, psicológica, cultural e verbal ou preconceito derivado de sua orientação sexual e gênero, deve ser combatida e punida.

MSRPÓRTER: Como caracteriza a discriminação?

Seria qualquer ação ou omissão que, motivada pela orientação sexual, venha a causar constrangimento, exposição à situação vexatória, tratamento diferenciado, cobrança de valores adicionais ou preterição no atendimento a gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e travestis.

MSRPÓRTER: Atualmente a lei de combate à discriminação está sendo cumprida? Qual a punição?

Depois da aprovação dessa lei foi criado o Centro de Referência ao Combate da Homofobia, que recebe e faz cumprir o que determina a lei. Não penaliza com prisão, mas existem multas ou cassação de alvará, se for estabelecimento.

Se no caso a discriminação partir de algum do órgão público, poderá ser expulso. O próprio Centro também oferece orientação jurídica, porque a pessoa, caso queira, poderá entrar com processo na justiça.

MSRPÓRTER: Já há um resultado desse trabalho?

As pessoas têm procurado sim, tem feito as denúncias. Eu acho que a visibilidade do movimento LGBT veio a mostrar tamanha agressividade e violência que existia. Hoje há mais facilidade das pessoas se assumirem, e denunciarem, procurarem os meios de comunicação e falarem o que aconteceu.  O assunto está mais exposto na imprensa, nas novelas, nos filmes. Seja contra ou a favor, o assunto está sempre em debate.

MSRPÓRTER: Recentemente o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união estável entre homoafetivos. Isso representa uma vitória para as associações?

O casamento civil entre pessoas do mesmo sexo é uma discussão muito ampla e importante. Então é um ganho em cima do outro que não se via há anos.

São anos de luta, e é um avanço importante. O movimento LGBT existe há 40 anos. Mas enquanto o judiciário tem avançado, o legislativo só tem se recusado a discutir esse assunto, por conta de políticos extremamente neopentecostais que se esquivam, ou tentam fazer pressão de assuntos delicados para a sociedade. Fazem chantagens, por exemplo dizendo, “se você votar a favor do aborto, ou da união estável, vão abrir uma CPI e te denunciar”. E isso aconteceu com o kit de combate a homofobia.

MSRPÓRTER: Em sua opinião, a sexualidade dos pais, influência na dos filhos?

Está comprovado que filhos de pais homoafetivos são mais inteligentes, e justamente porque recebem mais atenção, mais carinho, mais afetividade. E a sexualidade dos pais não influencia na sexualidade dos filhos, do contrário ninguém seria homossexual, porque a sociedade sempre foi muito machista. 

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