Menu
Busca sábado, 15 de agosto de 2026
Entrevistas

No Dia do Músico, Geraldo Espíndola fala dos 44 anos de carreira e novo disco

21 novembro 2011 - 20h00 Por Markito

Dia 22 de novembro é comemorado o “Dia do Músico”. Carreira que como qualquer outra exige dedicação e disciplina. Uns têm talento desde crianças, outros estudam, fazem curso superior e se especializam na área. Independente de ser dom ou esforço, o profissional precisa usar a criatividade.

Nosso Estado é celeiro de grandes talentos que se destacam nacional e internacionalmente.  Em comemoração a data, a entrevista da semana do MSREPÓRTER é com um dos maiores compositores de Mato Grosso do Sul, que está na estrada há 44 anos, Geraldo Espíndola. Hoje com 59 anos, disse que vai cantar e compor até seu último suspiro.

Em meados da década de 60, teve seu primeiro contato com a música, aos 14 anos, quando foi estudar em um colégio interno no interior de São Paulo junto com seu irmão Sérgio Espíndola. Para passar o tempo, seu irmão mais velho, Humberto Espíndola presenteou Geraldo e Sérgio com um violão. Sérgio aprendeu a tocar através de revistas de cifras, já Geraldo estudou mais o braço do instrumento, criando melodias, assim aprendeu a compor também.

De lá para cá, bandas como, “Os Bizarros”, “Tetê e o Lírio Selvagem”, “Lodo”, parcerias com Elza Soares, Almir Sater e a composição “Vida Cigana” levaram Geraldo Espíndola a ser conhecido no Brasil, na Europa e até mesmo na África, isso mesmo, para ser mais específico, até na Tunísia.

Apesar de mais de duas décadas de carreira solo, Geraldo diz que gravar discos não é seu forte, gosta mesmo é de fazer shows. Casado há 34 anos, pai de três filhos e com um neto, ele lançará em breve seu quarto disco solo. Sobre as expectativas do novo trabalho, diz que espera a aprovação/opinião do público.

MSREPÓRTER: Qual foi seu primeiro contato com a música e como começou a compor?

Eu tinha 14 anos e junto com meu irmão Sérgio fomos estudar em um colégio interno no interior de São Paulo, em Monte Aprazível. E meu irmão Humberto, o mais velho ficou com dó da gente e deu esse violão para nos distrair lá no internato.

O Sérgio usou umas revistinhas (Vigu), eu fui só de ouvido. Ele tirava tudo por cifra, eu já comecei estudar o braço do instrumento, depois fui aprender no método Paulinho Nogueira. Aí fui criando melodias e nessa eu virei compositor.

MSREPÓRTER: Em 21 anos de carreira solo, esse vai ser apenas seu quarto disco, tem alguma explicação?

Não sou de gravar muito, sou de tocar muito. Eu vou para as pequenas cidades do interior e faço minhas apresentações. De repente vira o grande lance da noite.

MSREPÓRTER: Qual foi a primeira banda que tocou?

Em 1967, comecei com um grupo chamado Bizarros, era eu, o Paulo Simões e o Mauricio de Almeida. A gente tinha 15 anos, Campo Grande tinha só 40 mil habitantes. Era muito pequeno. E a gente foi a juventude da época.  Apresentávamos nos bailes do conjunto Nascimento. Batíamos um papo e nos apresentávamos nos intervalos dos shows deles. Era um show irreverente, tocávamos mutantes, Rolling Stones.

MSREPÓRTER: E como foi sua vivência na cidade do Rio de Janeiro?

Eu fui tocar no Rio de Janeiro em 1972, num grupo chamado Lodo. No ano seguinte até fizemos uma tour pra o Mato Grosso (na época).

Esse grupo deixou grandes caras ai pelo Brasil, um baterista até acompanhou por um tempo o Morais Moreira.  Eu tocava craviola de 12 cordas, toco viola de 12 (cordas), viola de 10, contrabaixo. Eu gosto de cordas, cordas é meu forte.

MSREPÓRTER: O senhor não quis servir o Exército na época?

Eu escapei do exército. E como todos os outros integrantes do Lodo eram cabeludos, e eu tinha acabado de sair do exército, eu era o único careca. Fiquei bem conhecido por ser “diferente”.

MSREPÓRTER: E até quando durou o grupo Lodo?

Roubaram todos nossos equipamentos, depenaram e jogaram na lagoa. Depois que nós vimos os instrumentos boiando na lagoa, ai acabou o grupo e cada um seguiu seu rumo. Depois disso eu voltei pro Mato Grosso.

MSREPÓRTER: Como surgiu a parceria com a Tetê e o Lírio Selvagem?

Foi em 1978, eu criei o uma banda chamada Luz Azul, que virou em seguida a “Tetê e Lírio Selvagens”, com os quatro irmãos. No mesmo ano lançamos o disco em São Paulo, foi um sucesso.

O Almir (Sater) tocava com a gente. Na época, o povo nem queria saber da gente, só do Almir.

MSREPÓRTER: Quando foi o primeiro contato com Almir Sater? 

Foi aqui na Rua Barão do Rio Branco, na casa do avô do Geraldo Rocca. Eu, o Simões e o Rocca tocávamos na varanda da casa e aquele menino de nove anos começou ir lá para ver a gente tocar. Nós fomos os primeiro a fazer viola de 10 (cordas) para linguagem da música popular urbana. Até então era só aquela coisa de “sertanejão bravo”.

Ele é um cara super bacana, tanto que eu o chamo de “bacana” e sem dúvida é um ícone da nossa cultura. O Almir é um dos maiores expoentes que já botaram nosso Estado lá em cima. Toca uma viola sensacional, o maior violeiro do mundo pra mim. 

MSREPÓRTER: O senhor tem mais de quarenta anos de carreira. Antigamente, era difícil viver de música?

Naquela época era muito mais difícil, a mídia era muito menor. Restringia-nos do Continente. Mato Grosso era o fim do mundo. Lá no Rio (de Janeiro) o povo achava que tinha onça na rua aqui, que você batia em índio.

MSREPÓRTER: E com esse conceito aqui do Estado, qual era a estratégia para vocês músicos?

Encomenda de discos. Amigos que iam para os Estados Unidos traziam os discos para nós. Mandavam do Rio de Janeiro, demorava um pouco para chegar aqui. Mas foi assim que eu conheci as grandes bandas.

Pensar em carreira de músico nessa época era sinônimo de ser bandido. Se você namorasse uma menina e o pai soubesse que você era músico, ele a mandava pra Europa pra ficar longe de você. Assim que a sociedade campo-grandense tratava você se fosse músico.

MSREPÓRTER: Como foi o tour que fez com a Elza Soares na década de 80?

Em 1985 rodei nove capitais do país com o ‘Projeto Pinxinguinha’, com Elza Soares e João de Aquino. 

Ela é minha madrinha, participou do meu CD “30 Anos Desse Mato”, cantou dois blues comigo, foi sensacional.

MSREPÓRTER: O senhor já ganhou alguns concursos, conte um pouco mais sobre eles.

Ganhei a concorrência Fiat na década de 80, que era um prêmio nacional. Aí em 1998 ganhei um festival de músicas natalinas. Sei que compus especificamente para o natal.

Ela se chamava “A fonte da Ilusão”. E depois acabou pegando o nome popular, virou o “Papai Noel Pantaneiro”, que a BBC uma vez pediu um vídeo pra TV Morena. E em seguida foi tema de natal em três anos seguidos (1999/2000).

MSREPÓRTER: O senhor vai gravar o quarto disco. Quando reconhece que é o momento de gravar um novo trabalho?

Quando eu consigo pegar janelas como essa (FIC, Fundo de Investimento da Cultura), um dinheiro público que é nosso e eu nunca usei.

As burocracias sempre atrapalharam, documentos errados entre outros. Mas tudo bem, eu só tenho a agradecer, espero que o Prefeito aprove um aumento nessa lei de incentivo à cultura.

Mas eu faço uma peneirada em 30 músicas para tirar de 10 a 12 para gravar no CD.

MSREPÓRTER: O presidente da Fundação de Cultura do Estado (FCMS), Américo Calheiros afirmou dias atrás que nunca se viveu momento igual na cultura como hoje, você concorda?

Sem dúvidas, é o melhor momento. Mas não podemos esquecer que temos que divulgar a cultura regional nas pequenas cidades do interior que estão abandonadas. Tem cidades com universidades e os acadêmicos não sabem da cultura do Estado deles.

MSREPÓRTER: Como o senhor avalia a nova geração da música sul-mato-grossense?

Eu gosto muito do Guga (Borba) e o Guilherme (Cruz), gosto dessa moçada nova, do Curimba, Karina Marques, da Isabela Costa, eu acho maravilhoso o trabalho dessa nova geração.

MSREPÓRTER: Já viajou alguns países em outros continentes fazendo shows, como era a receptividade do público?

Até hoje divulgo meu trabalho no exterior, desde 2006, na Europa, norte da África, mais especificamente na Tunísia. Lá eles adoram a música brasileira, me recebiam muito bem.

Eram feitos folders com traduções das minhas músicas, aí eles gritam, deliram, cantando. Uma das coisas mais emocionantes foram eles cantando um refrão da minha música em árabe.

MSREPÓRTER: Qual dos seus trabalhos considera o mais importante de sua carreira?

O primeiro, com a Tetê e os Lírios Selvagens, eu era muito rebelde. Demorei pra ir gravar, fui o último a ir gravar. A Tetê insistiu tanto para eu ir gravar e eu não queria sair daqui. Desse disco, das 12 músicas, sete eram de minha composição, eu não podia deixar de participar.

Acho que se eu não tivesse gravado ele, eu não ia ter gravado nenhum até hoje. Ia ficar só fazendo shows por aí e esperando a internet pra divulgar meu trabalho.

MSREPÓRTER: Alguma composição te surpreendeu pela repercussão?

Cunhataiporã. É uma música minha da década de 70. E até hoje mexe com a geração. Eu achava que por ser de um aspecto regional demais, ninguém ia dar importância pra ela, só eu, mas foi o contrário.

MSREPÓRTER: O senhor já compôs alguma música em um curto tempo? Ou que demorou muito?

Já, saiu muito rápido e eu achar que ficou maravilhosa. Aí acordar no dia seguinte e falar nossa que b... que eu fiz. São 98% de inspiração de 2% da mão de Deus. Mas acontece de fazer de um dia para o outro. E também já teve composições que levou meses para ficar pronta. Tem que trabalhar muito no instrumento.

MSREPÓRTER: Já juntou dois pedaços de músicas diferentes e compôs outra?

Tem uma do novo disco, chama-se “Luar do Deserto”. Eu mandava e-mails da Tunísia para a minha mulher que é a minha produtora também. Aí eu pedia para ela juntar tudo dessa nossa conversa por e-mail e saiu a letra da música.

MSREPÓRTER: O que o público pode esperar do seu novo trabalho?

Vai ter principalmente minha cara. Não tenho dinheiro para contratar orquestras e músicos para tocar, eu vou fazer da maneira mais simples.

Eu e meu técnico de som, dentro do tempo que a gente puder. Com os violões, violas, craviolas, minha percussão.

Mas é o público quem vai dizer se é uma coisa bem diferente ou não. Quero esperar o parecer, se irão gostar ou pagarei mico.

MSREPÓRTER: Comparando o estilo do Geraldo de 1967 e o de 2011, qual a diferença?

Eu vim do rock and roll. Mas o Geraldo de hoje é muito mais diversidade. Hoje em dia eu consigo compor uma bossa nova, um reggae. A música do “Papai Noel Pantaneiro” que eu te falei, ela é uma valsa.

MSREPÓRTER: Você se considera um músico realizado profissionalmente?

Dizem que a morte não leva quem trabalha, então vou trabalhar até meu último suspiro. Pra morte pensar “esse aí ta trabalhado, vamos o deixar viver um pouco mais”.

Helton Verão

Leia Também

Detran de Mato Grosso do Sul passa a oferecer opção de CNH exclusivamente digital
Detran de Mato Grosso do Sul passa a oferecer opção de CNH exclusivamente digital
Equipamentos e 522 viaturas:
Equipamentos e 522 viaturas:
Projeto de IA do Detran-MS
Projeto de IA do Detran-MS
Detran-MS alerta sobre golpe:
Detran-MS alerta sobre golpe: