“Eu só vou parar de advogar o dia que Deus envelhecer, e ele nunca envelhece”. Esta foi a última frase dita pelo advogado criminalista Ricardo Trad ao MSREPÓRTER na entrevista. As palavras ilustram a paixão que ele exalta pelo Direito Penal e pelo Tribunal de Júri, onde já atuou em mais de 300 casos.
Antes de dar início a entrevista, Ricardo Trad comentou que estava preocupado com a saúde de familiares, principalmente de sua esposa, Tânia Trad, e de seu irmão, Nelson Trad, que inclusive veio a falecer dois dias depois que nossa equipe esteve em seu escritório. Homem apaixonado pela profissão, mas que não deixa de lado seu encantamento e ligação com a família, falou orgulhoso dos filhos, companheiro da esposa, e admirador do irmão.
Ricardo Trad atua na defesa de casos polêmicos como a morte do segurança “Brunão”, em que Cristhiano Luna está sendo acusado de homicídio doloso; no caso Zeolla, que foi julgado por matar o sobrinho; atuou na acusação do caso “Rogerinho”, em que o jornalista Agnaldo foi condenado e também vai atuar na acusação dos autores do assassinato do vereador de Alcinópolis, Carlos Carneiro. Ele falou sobre esse e outros casos.
MSREPÓRTER: Seu nome hoje é marca na advocacia criminal do Estado, quando percebeu a sua vocação para esta profissão?
Quando eu concluí o curso clássico (ensino médio de hoje) aqui em Campo Grande, nós não tínhamos universidade. Então fui ao Rio de Janeiro para fazer meu curso de Direito, onde eu me formei na Faculdade Nacional de Direito em 1968. E durante esse lapso de tempo, eu estagiei no Segundo Tribunal de Júri do Rio de Janeiro, onde realizei inúmeros júris ao lado do defensor público Dr. Celso de Barros. E ali verdadeiramente nasceu minha vocação pelo Direito Penal, apesar de eu sempre me inspirar, também nessa área, no brilhantismo e na capacidade profissional do meu irmão, Nelson Trad, que teve uma banca aqui de 64 a 75. Ele tinha uma banca extraordinária ligada à área penal.
MSREPÓRTER: Quais são as características do Direito Penal que te atraíram mais enquanto advogado?
Eu sempre me identifiquei com o Direito Penal porque entendo que é o ramo mais útil a consciência humana, a memória, a imaginação, porque o Direito Penal provoca coloridos emocionais e num dizer de um grande jurista penal, abrange o céu e a terra. Efetivamente, quando eu comecei a exercer a advocacia criminal aqui em Campo Grande, eu não queria estar ligado umbilicalmente ao meu irmão Nelson, eu queria fazer o meu nome profissional, não atrelado ao brilhantismo dele. E então, naquela época, eu ia ao cartório, e pedia ao escrivão processos de réus pobres, sem capacidade financeira para arcar com os custos de um advogado. Para eu exercer a defesa daquele cidadão necessitado. E eu fiz mais de cem júris defendendo réus sem nenhuma capacidade financeira para suportar o ônus de um pagamento de honorários. A partir daí, com júris que eu estava fazendo, modéstia a parte, eu ia ganhando projeção no meio jurídico e também porque os jornais daquela época noticiavam qualquer júri, do mais pobre ao mais rico. O júri era o ponto central. O fórum lotava de pessoas ávidas a conhecer o trabalho dos advogados. A partir desta projeção, passei a defender casos celebres.
MSREPÓRTER: Como se vê hoje atuando na defesa ou acusação em um Tribunal de Júri?
Eu defendi mais de 80 casos de repercussão, incluindo crimes passionais. Uma hora acusando, outra hora defendendo. Eu não me identifico muito com a bancada acusatória. Mas eu acuso sim. Dependendo do crime, eu acuso. Me sinto muito melhor na tribuna da defesa, usando a beca da defesa, porque ali eu me identifico com a liberdade do ser humano.
MSREPÓRTER: Quais os casos de repercussão na mídia que mais marcaram a sua carreira?
Eu posso citar inúmeros casos de repercussão. Aqui houve um caso muito famoso. De uma sortista que teria mandado matar o amante da filha dela. Defendi o caso ainda quando o Estado era uno. Logo depois houve a divisão.
Atuei no caso em que o chefe de governo do Garcia Neto teria mandado matar o assessor de imprensa. Este júri foi de repercussão nacional, porque esteve em Campo Grande, e quem é da minha geração deve conhecer, o delegado Fleury. O delegado Fleury foi um cidadão que agiu com extrema arbitrariedade na época do golpe da ditadura, pra torturar presos políticos. E o delegado Fleury veio a Campo Grande para apurar esse crime, que aconteceu na véspera do Natal. O assessor de imprensa saiu da sua casa para dirigir seu carro, quando foi atingido por três disparos de arma de fogo. E o delegado Fleury, que conduziu o inquérito, chegou à conclusão que o mandante do crime teria sido um advogado de nome Rui Santana. Ele foi levado a júri aqui em Campo Grande, e eu o absolvi por seis votos a um naquela oportunidade. Talvez tenha sido esse o júri de ponto de partida para minha carreira profissional.
MSREPÓRTER: Houve algum caso de repercussão internacional?
Eu defendi um caso muito famoso, de repercussão internacional sim, do caso denominado João de Deus. O João de Deus tinha um projeto de vida com a namorada dele. E numa noite, ele agindo culposamente (sem intenção), manuseando uma arma, atingiu a garganta da mulher. Ele socorreu a mulher, levou a mulher ao hospital. Enfim, ela veio a óbito. Durante o tempo que ela esteve internada, ela não falava a não ser monossilabicamente. Isto é, sim ou não. E aqueles que perguntavam pra ela como teria ocorrido o acidente ou o caso, ela respondia ou com a cabeça, ou monossilabicamente. Quando ela veio a óbito, instaurou-se o inquérito e a família da vítima começou a pressionar a autoridade policial, e a autoridade policial enfim requereu e o juiz decretou a prisão preventiva. Eu revoguei essa prisão preventiva no tribunal, e a partir daí ele procurou o Chico Xavier. E através do Chico Xavier viera para o processo três mensagens psicografadas pelo Chico e enviadas pela mulher, inocentando o marido. Esse caso foi amplamente divulgado pela imprensa nacional e internacional. Porque a pátria do fundador do espiritismo Alan Kardec é da França.
MSRPÓRTER: Como advogado de defesa, sentiu receio em utilizar as cartas no processo?
Eu não iria usar essas mensagens nos autos, porque minha fé é católica. Mas por sugestão de dois desembargadores na época, espíritas, acabei cedendo. Eles me pediram para que eu anexasse essas mensagens nos autos. E eu ajuntei e isso causou um reboliço muito grande. Até onde uma mensagem psicografada pode valer em um processo penal? Até onde o jurado poderia ou não aceitar esse tipo de mensagem? Eu não tive dúvida em anexá-las aos jurados, e nem tive nenhum receio em contrariar a legislação processual penal, porque o jurado não decide fundamentadamente. Ele decide monossilabicamente, isso é através do sim ou do não. Enfim, não era só essa prova espiritual que vinha a socorro do acusado. A prova testemunhal era amplamente favorável a ele, através das palavras dos enfermeiros do hospital, das enfermeiras.
MSREPÓRTER: Teve algum júri que lhe provocou emoções a ponto de ter algum reflexo na sua saúde?
A emoção deste júri, do caso João de Deus, me levou a ser internado. Logo após o júri, fui levado às pressas para São Paulo, na madrugada desse júri. Onde eu me submeti a três implantes de ponte de safena e uma mamária. Enfim, esse é um caso que vai marcar sempre minha vida profissional, porque eu tenho convicção, e isso eu posso dizer mesmo depois de mais de 25 anos desse fato, que efetivamente esse rapaz no máximo cometeu um crime por negligência ou imprudência, no manuseio da arma. Não me faz nenhum drama de consciência ter conseguido uma vitória pra ele. Porque a minha consciência chegou ao resultado positivo. Ele é inocente.
MSREPÓRTER: Já atuou ao lado de outros profissionais de renome na advocacia criminal do Brasil?
Em outro caso de repercussão que eu tive aqui em Campo Grande foi de um homicídio que ocorreu em Três Lagoas e o processo foi descolado para Campo Grande, o assassinato de um promotor chamado Dr. Manuel. Eu fiz esse júri ao lado do maior criminalista do Brasil na época, chamado Valdir Troncoso Peres, que indicou o meu nome para assumir a bancada de defesa. Esse júri está todo documentando, porque quem atuou na acusação foi o procurador Dr. Anísio Bispo dos Santos. E ele conseguiu a gravação de todo o júri, então isso marcou efetivamente a minha vida profissional. Enfim, tantos outros casos eu defendi aqui em Campo Grande, são mais de 300 júris na minha vida profissional. Olha, não tem comarca em que eu não tenha percorrido para exercer minha atividade profissional nesses quase 40 anos de advocacia.
MSREPÓRTER: Hoje em dia, atua em mais áreas além do Direito Penal?
O júri me trouxe notoriedade para as outras áreas do Direito Penal, de sorte que eu não só atuo no júri. Hoje atuo nos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, nos crimes contra a Ordem Tributária. Recuso muitos casos criminais que me estuprariam a consciência, como alguns crimes de estupro, alguns crimes de latrocínio, eu não defendo. Eu só defendo quando eu tenho consciência de que aquele réu é inocente. Mas em mais de 90% eu recuso casos de alguns crimes hediondos. E sempre foi assim. Se você olhar nos anais ou na literatura criminal do estado você vai ver que são raros, raríssimos, os casos em que eu atuei na defesa de um suposto estuprador. Não tenho drama de consciência. Absolutamente. Eu defendo muitos culpados, porque o estatuto da Ordem, o Código de Ética da Ordem impõe o advogado á defesa dos réus. Mas defendi culpados, não vou negar que defendi culpados. Todo crime, mormente os crimes de homicídio, tem um motivo. Ninguém mata sem motivo.
MSREPÓRTER: Nos crimes de homicídio, onde encontra fundamento para defesa?
Eu digo sempre que os homens de bem jamais vão praticar um crime de estupro latrocínio, tráfico de entorpecentes e de sequestro. Mas nenhum homem de bem pode afirmar que não irá matar o seu semelhante. Ou por legítima defesa ou em estrito cumprimento do dever legal, ou coação moral irresistível. Então o crime de homicídio tem particularidade. Há os crimes de homicídio verdadeiramente que machucam a consciência humana, como os crimes em bando, os crimes de pistolagem. Esse tipo de crime assusta e causa perplexidade, porque você mandar matar alguém por dinheiro é uma coisa muito ignóbil (de uma baixeza extrema). Tanto é que agora estou acusando os autores do homicídio do vereador de Alcinópolis, que foi morto por paga e promessa de recompensa. Então aí estou atuando na acusação.
MSREPÓRTER: Como avalia recente o julgamento, em que atuou na acusação do jornalista Agnaldo, no caso “Rogerinho”?
No caso do jornalista Agnaldo, há algumas particularidades que devem ser ditas. Porque um homem como ele, de 62 anos de idade, que nunca teve uma passagem pela polícia, sempre teve uma vida reta, deflagrou essa cena delituosa, matando um menino de dois anos de idade? Esse réu já tinha transtornos. Uma semana antes, em uma agência do Banco do Brasil, ele agrediu moralmente uma funcionária, chegando a chamar a mulher de “vaca”, e dizendo que ia contratar uns jagunços pra matá-la. Então, por uma discussão banal de trânsito, banalíssima, ele sem medir as consequências, desferiu tiros visando na verdade atingir quem estava dirigindo, mas por uma infelicidade acabou atingindo o menor. Ele quis um resultado morte do menor? Não, ele jamais quis a morte da criança. Mas ele assumiu o risco de produzir essa morte, é o chamado dolo eventual. Não estava dentro da órbita da consciência dele eliminar uma criança, mas ele assumiu o risco de produzir esse resultado.
MSREPÓRTER: Em sua visão, a pena aplicada no caso do jornalista foi justa?
A pena dele até pelas circunstâncias do processo, é uma pena de 14 anos. Foi relativamente branda, porque o Tribunal de Justiça manteve a decisão do juiz, na sentença de pronúncia, que afastou duas qualificadoras, a do motivo torpe e a do recurso que dificultou a defesa da vítima. De sorte que ele foi a julgamento pelo júri pra ser acusado de uma forma mais branda do crime de homicídio, porque se fossem mantidas as qualificadoras pelo Tribunal, a pena dele seria superior a 20 anos de reclusão. O homicídio qualificado é crime hediondo, o tempo de progressão é mais elástico, o homicídio simples não é crime hediondo, então a progressão é de um sexto da pena. Como ele foi condenado há 14 anos, eu acredito que com um ano ele esteja em regime semiaberto. Muitos confundem o regime semiaberto com liberdade, e não é. O regime semiaberto é um regime de prisão onde a pessoa trabalha cedo e a tarde, e se recolhe a noite na Colônia Penal Agrícola.
MSREPÓRTER: Há drama de consciência quando está ao lado da acusação e não da defesa?
Não é drama de consciência. Eu quando me vejo sentado ao lado da bancada acusatória, eu começo a me questionar. Ricardo, o que é que você está fazendo aqui? Se a sua vida toda foi dedicada àquela bancada dali? A bancada da defesa. E começo a me questionar sobre isso. Mas esses questionamentos não atingem de nenhuma forma a certeza que eu tenho da autoria do crime e da materialidade desse crime. E então eu acuso com toda veemência. Porque como nesse caso do Agnaldo, você matar alguém, pode ser até justificável em certos pontos. Mas você matar, ou assumir o risco de matar, uma criança de dois anos de idade. Aí a minha alma se enche de repulsa por um crime dessa natureza. Essa família está de luto o tempo todo. Eles não pisam no chão, eles perderam a esperança de viver, e isso me sensibilizou profundamente, então quando eu acuso, acuso na certeza que estou cumprindo meu dever profissional.
MSREPÓRTER: Atuando em tantos júris, a emoção é sempre a mesma?
Cada júri que eu faço é como se fosse o primeiro. Eles não se automatizam, as emoções sempre se renovam. Se eu vou fazer um júri amanha é como se fosse minha estreia, as pernas tremem, tenho arritmia cardíaca, as mãos suam, eu acho que se eu perdesse essas emoções eu não seria talvez o advogado que eu sou hoje. Porque essas emoções é que me levam a exteriorizar no julgamento as minhas palavras, as minhas orações, todas elas materializadas através dessas emoções. Se eu perdê-las eu vou fechar as portas do meu escritório e não vou mais advogar.
Olha, raramente aqui no meu escritório entram na minha sala pessoas sorrindo. Quem entra aqui na minha sala entra chorando, e esse choro até hoje me emociona como no primeiro dia, há 40 anos. Isso não me automatiza. Se uma pessoa chora, eu choro junto. Muitas vezes eu choro junto com a mãe que está com o filho preso, com a esposa que esta com o esposo preso. É duro, é muito difícil você lidar com a liberdade. Eu acho que depois da vida, a liberdade é o bem mais supremo que tem a pessoa, sem dúvida nenhuma.
MSREPÓRTER: Já teve que dizer a si mesmo para conter as emoções perante um caso?
O Direito Penal provoca coloridos emocionais. Quando se faz uma defesa perante o juiz singular, que não envolve júri, eu redijo com emoção, às vezes eu penso: Ricardo para um pouco com emoção e aborda a letra fria da lei. Porque a letra fria da lei às vezes não permite que você aborde com emoção. Mas em casos de júri se você não se emocionar, você não é advogado criminalista. Pode procurar outra profissão.
MSREPÓRTER: Muitos advogados dizem que o júri é como um teatro, o senhor concorda com essa afirmação?
O júri, no bom sentido, é um teatro. Onde são protagonistas varias pessoas deste script. De um lado o juiz presidindo, de outro lado a bancada acusatória, e do outro a defesa. O corpo de jurados, a platéia. Mas eu não confundo, porque o ator se emociona por um fato, o ator se emociona pelo conteúdo da peça. No júri não. Quando o advogado passa a discorrer sobre o caso, na acusação, passa pelo sentido da vida, e que o crime de homicídio detentor da orografia penal, é um dos crimes mais bárbaros que tem, em tese. Há como não se emocionar? Não há jeito, eu sou um homem de carne e osso. Quando você pensa na criança que morreu, as lágrimas caem. Porque eu passo a pensar nas mães que perderam os filhos nessas condições. E eu choro, choro porque a causa me faz chorar. Então não é o teatro no mau sentido. O processo não contém paginas frias, no teatro sim. No júri é a realidade, no teatro é a ficção. Então, geralmente quando eu falo, a minha perolação, isto é, o final do meu discurso no júri, é o ápice. É o momento que você tem pra arrematar o seu discurso e sensibilizar os jurados a proferirem o resultado dentro daquilo que a defesa ou acusação espera, aí marca o advogado. Na perolação eu dou minha vida. Dou minha vida pela causa que eu estou defendendo. Emocionalmente eu me envolvo. Por isso que eu digo sempre, não há histórias iguais no processo e em júri, cada processo conta uma história. E são histórias dramáticas, envolventes.
MSREPÓRTER: Na defesa, como é a luta contra a opinião pública?
Quando o advogado luta contra a opinião pública, passa a ser um mártir. Porque imagina o direito de defesa sendo combatido pela opinião pública e pela mídia? Um exemplo recente é o caso do Cristhiano Luna. Que me perdoe, mas 80% da imprensa querem ver esse rapaz preso. Quando nem se sabe se foi ele que deu causa ao resultado morte dessa indigitada vítima. Será que essa vítima morreu em razão de supostos chutes que o Cristhiano teria dado no tórax dela? Ou essa vitima morreu em razão de massagens mal feitas cardiorrespiratórias? Mas você nunca pode atribuir nesse caso ao Cristhiano um homicídio doloso, como se ele quisesse a morte da vitima. E ele nem assumiu o risco de matar. A imprensa diz toda que ele é lutador de jiu jitsu e por isso sabia aplicar golpes para matar. É porque não conhece o processo. Se você ver as imagens desse fato, as cenas desse fato, no youtube, vai ver três seguranças batendo nele, com ele no chão.
MSREPÓRTER: E quanto ao comportamento dele dentro da boate?
Ele foi inconveniente dentro da boate? O Cristiano foi. Você não pode negar o óbvio. Ele foi inconveniente ao bater com a mão nas nádegas de um garçom? Foi. Foi inconsequente. Mas a partir daí, ele foi imobilizado e arrastado para fora do clube, da boate, foi arrastado e três seguranças bateram nele e ele tentou se desvencilhar. E lamentavelmente esse segurança morre. Porque ele morreu? Em razão dos supostos chutes que o Cristiano deu, ou foi por outra causa? O Cristhiano queria a morte dele ou assumiu o risco de produzir? Não. Então, eu tive que lutar contra tudo e contra todos nesse caso. Contra tudo e contra todos, pra colocar esse rapaz em liberdade. E eu consegui, nós conseguimos. Hoje ele esta em liberdade cumprindo as determinações que a justiça impôs a ele, e agora estou tentando tirar as qualificadoras desse crime. Quais sejam do motivo fútil e recurso que dificultou a defesa da vitima.
MSREPÓRTER: Em que andamento está este caso agora?
Esse caso está no tribunal sendo analisado, e eu espero que essas duas qualificadoras sejam retiradas e ele vai para júri por homicídio simples. Um exemplo foi o que eu disse na sustentação oral no tribunal. Em um caso muito mais grave, do jornalista Agnaldo, a mesma turma tirou as qualificadoras. Nesse caso, em que não se sabe o que deu causa a morte da vítima, pesam sobre o rapaz duas qualificadoras rigorosamente descabidas e impertinentes.
MSREPÓRTER: A seu ver, a imprensa pode atrapalhar a Justiça manipulando a opinião pública?
A imprensa atrapalha, claro. Geralmente, a imprensa processa, julga e condena. Antecipadamente. Então você imagina um acusado nessas condições, onde a imprensa seguidamente acusa, julga e condena, como que um rapaz desses vai a júri onde vai ser julgado por sete cidadãos leigos que diariamente lêem jornais. Então esses jurados já vão pra lá com uma impressão totalmente desfavorável ao réu. Aí a mídia influência a justiça. Eu entendo que a mídia influencia alguns juízes de direito também. Quando decretam prisões preventivas descabidas, prisões preventivas injustiças.
MSREPÓRTER: Como entender uma prisão preventiva como descabida?
A prisão preventiva é uma medida odiosa, porque é a prisão sem pena. Porque fere o princípio da presunção de inocência. Em alguns casos sim, é necessária a prisão preventiva. Mas a regra é a liberdade. A prisão é exceção. Então eu não tenho dúvida, eu quando fiz meu Habeas Corpus ao tribunal eu disse o seguinte: “Quem condenou Jesus cristo? Não foi o povo? Preterindo-o a Bahabas? Essa é a opinião pública”. A opinião pública que condenou um homem, o salvador, pra absolver Bahabas, e condenar cristo. Este é o perigo que parte da imprensa, nem toda, pode trazer nos julgamentos públicos. E o caso do Cristhiano é um caso que eu tenho dito quase que frequentemente para os que me ouvem aqui: é um caso que a imprensa deveria conhecer o que tem no processo. Porque se a imprensa conhecesse o que tem no processo, ela terá outra opinião.
Tem um professor presidente da federação de jiu jitsu de MS que depõe em juízo vendo as cenas captadas, e falou que ali não tem nenhum golpe de jiu jitsu. O que eu vi nessas cenas foi o Cristhiano se defendendo de três pessoas que estavam por cima dele. Então tem que conhecer o processo.
MSREPÓRTER: Como o advogado de defesa age para lutar contra esta opinião pública formada pela mídia?
Eu sempre tenho que lutar contra isso. E para isso, você tem que perder pelo menos 30 minutos do tempo que você tem no júri de uma hora e meia pra explicar para os jurados as consequências que podem advir de uma má impressão midiática em cima do réu. Eu fico com muita pena e fiquei com muita pena do advogado que defendeu o casal Nardoni. Independente da culpa do casal ou não. Mas esse advogado de defesa sofreu o massacre da imprensa. Quando ele estava lá, cumprindo o dever dele, o dever profissional, o juramento que ele fez. Você veja, ele foi execrado pelo povo, pela mídia, pela sociedade. E passou a ser confundido, o advogado com o casal. Não tem nada a ver o papel do advogado com o que cometeu o crime. O advogado defende o fato, não faz apologia ao crime.
MSREPÓRTER: Como advogado, já ficou com medo da revolta da população?
Fiquei em inúmeros casos com medo da reação das pessoas. Em frente ao fórum, quando o fórum era na Fernando Corrêa da Costa, estudantes não deixaram eu entrar no local. Eu ia subir as escadarias e teve que ter intervenção da polícia pra eu assumir a tribuna da defesa. Porque eu defendia um rapaz acusado de um homicídio com estupro de uma estudante. Neste primeiro júri eu consegui a absolvição dele. Aí, no segundo júri, sem essa manifestação, ele foi condenado pelo crime de homicídio, não pelo crime de estupro. Serenidade, muita serenidade nos julgamentos públicos. Para que as paixões não se materializem em ira e ódio. Porque aí não se faz justiça, se faz vingança.
MSREPÓRTER: Nem sempre a tese da defesa é pela absolvição do réu. Quais os outros meios de defender?
Em muitos casos há outras teses de direito que minimizam a situação jurídica do réu. Exemplo: a violenta emoção logo após a injusta provocação da vítima, como no caso Zeolla; não enseja absolvição, enseja aplicação de uma pena branda. E não é hediondo o crime. Há também o reconhecimento de atenuantes, a desqualificação do crime no plenário do júri. Por exemplo, vamos admitir que um acusado vai a júri com duas qualificadoras, eu peço pra retirar e ele ser condenado no homicídio simples, cuja a pena mínima é de seis anos. Então são variantes, são várias teses jurídicas que possibilitam o abrandamento da sanção penal aos acusados.
MSREPÓRTER: Como é sua relação com os clientes e seu contato emocional com eles que muitas vezes estão em desespero?
Sempre pelo aspecto profissional. Existem casos de réus absolvidos que se tornaram posteriormente amigos. Mas não amizade íntima. O caso do João de Deus, que marcou, ou do João Santana, chefe da Casa Civil. E o Zeolla, coitado. Eu achei que cometeram uma grande injustiça, embora tivessem reconhecido o homicídio privilegiado, o júri deveria ter reconhecido a semi-imputabilidade dele. Isso é, ele só tinha parcial entendimento do crime que cometeu. Eu achava que além do privilegiado deveria se reconhecer em favor dele a semi-imputabilidade.
Eu encaro sempre sob o aspecto profissional. Os clientes são gratos eternamente, chega o final do ano, eles não se esquecem de mim. A partir do momento que encerra um caso, por exemplo, o do Zeolla encerrou, mas o vínculo continua. Porque ele está preso, no manicômio, no hospital, continua preso. E em tese eu continuo a prestar serviços na área da execução penal. Então você cria vínculos com o cliente, com a família. A família nunca se esquece do trabalho e da vitoria que eles conseguiram através da minha pessoa. Um vínculo inapagável. Isso fica marcado pra sempre na memória e na vida da família e são raríssimos os casos em que eles se esquecem de mim. Eu estou sempre na lembrança de todos pelo trabalho que eu fiz pra eles.
MSREPÓRTER: Sua família apoia a sua profissão?
Sou casado desde 1971. Em alguns casos de repercussão eu recebia telefonemas anônimos tentando me intimidar, e minha família sempre foi solidária comigo. Especialmente minha mulher, Tânia Trad. Quantas e quantas noites, quando eu me aprofundava no estudo das causas, ela estava do meu lado me acompanhando. Prestando a sua solidariedade não só como esposa, mas como psicóloga. Nos júris do interior, raras vezes ela deixou de ir me acompanhando. Por isso eu devo muito a minha mulher o sucesso que eu tenho hoje na minha vida profissional. Eu tenho filhos maravilhosos também. São cinco que trabalham aqui comigo.
MSREPÓRTER: O senhor se considera um homem bem sucedido após ter construído esta carreira de 40 anos na advocacia?
A advocacia criminal dá fama, mas pouco pão. O advogado civilista fica rico, o advogado criminal não. O patrimônio maior que tenho hoje são meus filhos. O que eu construí em 40 anos de profissão em patrimônio? Eu não tenho boi no pasto, esse escritório é meu, tenho a minha casa e um lote. Esse é meu patrimônio. Mas esse patrimônio maior é a herança que eu vou deixar, e eu pretendo morrer aqui nessa mesa. Esse patrimônio são esses meninos que eu tenho. Olha, são advogados notáveis. Cinco advogados, melhores que o pai. Cada um em uma área.
MSREPÓRTER: Se não fosse advogado criminalista, imagina que pudesse ter alguma outra profissão?
Eu quero que, se amanhã ou depois eu partir, e tiver que nascer novamente, eu quero ser advogado criminal. Porque hoje quando eu passo pelas ruas, eu tenho hábito de fazer compras nos mercados, o povo se aproxima de mim, as pessoas se aproximam de mim. “Dr. Ricardo, o senhor que é o Dr. Ricardo?” E ninguém paga isso. Esse carinho que eu recebo do povo pelo trabalho que fiz na profissão. Porque um dia eu fui político também. Mas joguei a toalha. Eu vi que a minha seara não era política. Era advocacia. Eu fui secretário de estado, no governo do Pedro Pedrossian, quando eu tinha 24 anos de idade. Secretário de Indústria e Comércio. Depois dividido o Estado, eu fui vereador aqui em Campo Grande, o terceiro mais votado.
MSREPÓRTER: Por qual motivo chegou a ingressar na política e ser vereador?
Eu entrei na política porque, com o golpe de 64, os direitos políticos do meu irmão Nelson foram suspensos por dez anos. E ele me pediu pra que eu entrasse na política para manter viva, acesa, a chama do sobrenome. Porque ele era vice-prefeito e foi cassado. E eu falei “tudo bem, eu vou ser vereador”. E fui vereador por seis anos, e quando terminou o meu mandato, os direitos políticos dele foram restabelecidos, e eu falei não, eu vou pro escritório e não quero tentar reeleição, não quero mais saber de política na minha vida.
E foi então a partir daí que comecei a exercer e exercitar a advocacia com toda intensidade. Eu encaminhei o Marcos Trad, o Fábio Trad para a advocacia, e hoje vê que estão se notabilizando na vida política. E hoje eu já encaminhei os meus filhos, então meu trabalho está feito. O que Deus pode dar mais pra mim? Mas, eu vou continuar advogando, e eu só vou parar de advogar o dia que Deus envelhecer, e ele nunca envelhece.
Ana Maria Assis
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