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Entrevistas

Padre fala de temas polêmicos, como dízimo e adequações da Igreja Católica

18 dezembro 2011 - 20h00 Por Markito

Nesta semana, o MSREPÓRTER traz uma entrevista de reflexão sobre as relações humanas e fé para entrarmos no clima natalino. Conversamos com o Pe. Wagner Luis Galvão da Paróquia São João Bosco de Campo Grande, que em uma conversa informal e sem batina falou sobre a mídia e os valores da sociedade, a relação com os jovens, as adequações da Igreja Católica com tantas novas congregações que surgiram nos últimos anos.

Nascido em Araçatuba (SP), o pároco percebeu a vocação religiosa desde criança. Passou pelo Seminário, se formou em Filosofia e Teologia, e foi ordenado padre em 1999. Aos 42 anos, fica todos os dias até as 21 horas na Paróquia. Atende as pessoas da comunidade, conversa com as crianças da catequese e do Centro Social Dom Bosco e administra a Igreja.

O pároco explica sobre o sentido do dízimo (10%), que geralmente gera polêmica e divergem opiniões. Ele também comenta sobre o verdadeiro sentido do Natal, deixado de lado por alguns, principalmente pelo consumismo a que época foi associada.

MSREPÓRTER: Atualmente, a gente percebe que as pessoas estão muito consumistas, individualistas e acabam se distanciando da religião. Como a Igreja trabalha essa questão?

A religião tenta mostrar às pessoas o que vale a pena de fato nessa vida, que é a boa convivência, o perdão, a paz, é o amor que a gente deve cultivar dentro do nosso coração. Isso a gente vai difundindo através da missa, da palavra de Deus, dos programas de televisão, porque hoje tem muitos programas católicos. Além dos programas de rádio, e também através dos bons cristãos que vem na Igreja.

Só que a mídia, os meios de comunicação, são muito mais apelativos do que a palavra de Deus. Nós não podemos ser apelativos também. Nós que temos que transformar nosso coração e a nossa vida, porque a gente quer. O caminho de Deus é um caminho pessoal, não um caminho como mostra na televisão, que todo mundo vai por aquela moda. Deus não é modismo, Deus é um modo de viver, Jesus Cristo não é uma filosofia.

Jesus Cristo é um modo de viver, um modo de viver a paz, a esperança, tratando bem as pessoas, procurando dar oportunidade e voz para quem não tem. Também dando esperança aos pobres, aos afrodescentes, aos indígenas, aos abandonados, aos sem teto, a tantas pessoas que são esquecidas na sociedade.

A Igreja é mãe. A casa da mãe está sempre com todas as portas abertas para todos os tipos de filho. É isso que a Igreja tem que sempre ser, sem discriminar ninguém. É claro que a mãe depois corrige se, por exemplo, existe algum filho que está fazendo a coisa errada. Por isso, a Igreja corrige, falando e chamando a atenção. Muitos filhos não entendem, gritam contra a Igreja, falam mal da mãe, mas a mãe perdoa, sabe que depois os filhos retornam para o seio da Igreja.

MSREPÓRTER: Como a Igreja procura atrair os jovens diante do contexto de consumo de bebidas alcoólicas e vida sem regras?

A Igreja tem muitas iniciativas para os jovens, como retiro, como o Segue-me (Encontro de Jovens com Cristo), como o Carnaval com Cristo, como o Natal com Cristo. Nós temos os acampamentos, as jornadas, e também milhares de grupos de jovens. Isso é uma forma de fazer com que os jovens possam se apoiar no bem. O jovem estando na Igreja, no grupo de jovens, no retiro, vão fazer amizades sadias, vão namorar com pessoas da Igreja, vão criar aquele carinho por pessoas que também pensam como Igreja. Dessa forma, vão nascer famílias sadias e felizes.

Aqui, na Paróquia São João Bosco, nós temos um grande movimento de jovens que é o Segue-me, que encaminha para outros grupos de jovem. Nós temos muita gente engajada e o jovem deve se sentir acolhido naquele grupo que ele se sente bem. Onde tem um amigo, ou então, uma amiga que acolhe, que tem um carinho mais especial, ali o jovem fica. O segredo de o jovem permanecer é acolher. Um tem que ser carinhoso com o outro, não pode, por exemplo, deixar que o orgulho seja maior, não pode deixar que as diferenças atrapalhem, não pode deixar, por exemplo, que as picuinhas da vida atrapalhem no relacionamento da Igreja.

É claro que essas coisas também têm na Igreja, porque a Igreja é lugar de pecador, todos nós somos pecadores, mas o amor de Deus supera tudo isso e o jovem se sente feliz na Igreja. E aqui na Igreja através do grupo de jovem, das palestras, das missas, eles vão percebendo como é gostoso ter uma vida perto de Jesus, porque Jesus quer tudo para o jovem. Jesus não quer que o jovem se envolva em droga, em bebedeira, nessa vida desregrada, sem compromisso, sem amor. Jesus quer que o jovem seja feliz e ser feliz é viver esse carinho, essa amizade, essa alegria que vem do coração.

MSREPÓRTER: De que forma a religião católica tenta se readequar aos novos tempos?

Nesses últimos 30 anos da Igreja, a renovação carismática no Brasil soube atrair muitas pessoas para a Igreja. Porque muitas pessoas foram embora da Igreja para seguir outras ceitas. E, rezar da maneira como rezam o movimento da renovação, é um modo novo de rezar, um modo mais espontâneo, um modo mais carinhoso. Um modo mais informal do que aquela formalidade da liturgia que também exige que nós façamos uma liturgia bonita.

Mas a Igreja também vai deixando que a cultura, que as pessoas vão transformando um pouco o ambiente. Por exemplo, as pessoas vão trazendo cantos novos, vão trazendo maneiras novas de acolher, maneiras novas de celebrar, sem perder o essencial da liturgia, isso que é o mais importante.

A missa é igual a que era celebrada a dois mil anos atrás, só que de uma linguagem diferente, uma maneira diferente. Por exemplo, a adoração ao Santíssimo que nós fazemos aqui na Paróquia no final da missa é litúrgica. É uma liturgia que a Igreja permite só que aqui é de uma maneira mais afetiva, mais perto do povo. O povo precisa muito de perceber esse Deus bem próximo de nós. É isso que a Igreja vem fazendo.

MSREPÓRTER: As pessoas às vezes criticam a doação em dinheiro. Qual a importância do dízimo para a Igreja?

O dízimo é importante na Igreja porque através do dízimo nós fazemos a obra social da Paróquia. Por exemplo, nós temos que sustentar duas creches e uma obra social com mais de 100 crianças por dia e isso vem do dinheiro do dízimo. Todo mês passamos em torno de 10, 12 mil reais para sustentar essas duas obras. O dízimo também ajuda na construção, nos reparos da Igreja, além do pagamento de água e luz. Só que o dízimo nosso em si é muito pouco.

Saiu uma pesquisa no ano passado sobre aquilo que se angaria de dinheiro nas Igrejas no Brasil, a Igreja Católica ficou lá embaixo, os evangélicos conseguiram arrecadar milhões e milhões por causa do apelo. Nós não somos apelativos, não exigimos e não pedimos 10%. As pessoas dão aquilo que acham melhor. Por isso, nós fazemos festa, quermesse, almoço, rifa, justamente para que a Igreja fique mais bonita, mais gostosa, mais acolhedora. Nós estamos colocando ar condicionado, trocando as portas, tudo isso não é só com o dinheiro do dízimo, mas com o dinheiro das festas.

O dízimo é sumamente importante, desde o tempo de Abraão, os fiéis entregavam o dízimo para que o templo pudesse fazer a caridade em nome das pessoas, porque às vezes a pessoa não vai fazer. Uma pessoa só fazendo caridade é muito pouco, quando muitas pessoas fazem é muito melhor. No nosso caso, nós atendemos as crianças mais empobrecidas, isso é uma coisa muito mais bonita do que uma pessoa só fazendo. Tudo com o dinheiro do dízimo, então o dízimo é fundamental para que nós possamos continuar fazendo o bem porque a Igreja não é só rezar, Igreja também é caridade e a caridade se faz através do dízimo.

MSREPÓRTER: Nessa época do Natal, fala-se muito em movimento no comércio. O senhor acredita que as pessoas acabam esquecendo o verdadeiro sentido do Natal?

Pode ser que algumas pessoas esqueçam, mas o Natal é uma festa tão bonita, é uma festa que toca tanto o coração das pessoas, que mesmo aquelas pessoas que estão muito preocupadas com o consumismo, com os presentes, não esquecem que o Natal é a festa da Família. É a festa da confraternização universal.

O Natal é o dia em que nós reunimos toda a nossa família, para dizer para família que mesmo com as nossas diferenças dá para viver unido. O menino Jesus é tão sagrado que ele toca o coração daquelas pessoas mais insensíveis, por isso que o Natal é uma festa que mexe com todas as religiões, com todas as pessoas, mesmo com aqueles que se dizem ateus, mesmo com aquelas pessoas que dizem que não acreditam em Deus. Na verdade, eu não acredito que existam no Brasil pessoas que são ateus, pode ser que existe em outros lugares do mundo, mas no Brasil não.

O Natal é a festa do menino Jesus que vai nascer novamente em cada um nós. Jesus que acredita em nós, Jesus que mais uma vez nós dá esperança, mais uma vez ele acolhe a cada um de nós para que nós possamos viver mais uma vez a nossa vocação, que é a vocação de homens e mulheres que fazem desse mundo um mundo melhor. O Natal é a festa mais linda do povo brasileiro, em nenhum lugar nós vamos encontrar isso como aqui no Brasil.

MSREPÓRTER: Qual a mensagem final que gostaria de deixar?

Eu gostaria de deixar meu abraço e minha benção a todas as pessoas que estão lendo essa entrevista. E dizer para essas pessoas que tenham coragem, que não desistam da vida, principalmente, quem está passando por dificuldades, quem está chorando, e para as pessoas que estão desanimadas e tristes por algumas dificuldades da vida. O Natal é época de reconstruir os pedaços do coração e olhar para frente e deixar que o menino Jesus possa unir as nossas famílias, unir os nossos corações para continuarmos fazendo o bem, Amém.

Adriana Oliveira

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