2012 é ano de eleições municipais. Mais uma vez a população tem a oportunidade de exercer a cidadania e fazer a diferença na hora do voto. Para dar início à reflexão sobre o papel da sociedade e da política na melhoria e no desenvolvimento da cidade, o MSREPÓRTER conversou com o professor de Ciências Políticas, Neimar Machado de Sousa.
Nascido em Amambai (MS), casado e com dois filhos, Sousa é graduado em Filosofia (1996) pela UCDB, mestre em História Regional (2002) pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), campus de Dourados, e doutor em Educação (2009) pela Universidade Federal de São Carlos.
Já foi professor de Ciências Políticas e Doutrinas e Filosofias Políticas no curso de Direito da Estácio de Sá (2001), e também foi professor de Sociologia da Comunicação e Ciência Política no curso de Jornalismo da UCDB. Atualmente, faz parte do corpo docente e atua como pesquisador no Programa de Pós-graduação em Educação da universidade.
Na entrevista, Sousa fala sobre o papel dos jovens na Política, as relações entre os partidos de Mato Grosso do Sul, as eleições 2012 e pontos importantes para reflexão do eleitor.
MSREPÓRTER: Como surgiu o interesse pela temática regional e pela política?
A temática regional me interessa por causa do mestrado de História Regional. Eu trabalhei as temáticas indígenas no período colonial, então tudo que tem relação com os povos indígenas e a América Latina é do meu interesse. O que tem relação com MS e a sua história também. Em relação à política contemporânea, me interesso pelo fato de ser um cidadão e uma pessoa que trabalha com a formação de jovens. O jovem é o tema do futuro, trabalho com o tema para buscar a melhoria da qualidade dos fatos políticos, tentar quebrar um pouco o quadro de apatia política e especialmente dos jovens universitários que são ainda um grupo bastante elitista no país. São coisas que me guiam profissionalmente.
MSREPÓRTER: O senhor considera que tem uma grande rivalidade aqui no Estado entre esquerda e direita?
Seria mais adequado falar que no Estado há uma polarização entre PT e PMDB. Nós sabemos que os partidos, uma definição de Norbert Bobbio, são grupos que se organizam tendo em vista controlar o Estado e a sua máquina administrativa, consequentemente, um partido não é uma força homogênea. Ou seja, nós podemos falar que dentro de um partido grande como o PMDB, há várias correntes, uma mais a esquerda e outra mais a direita.
Na política brasileira, nós vimos nas últimas eleições uma polarização entre PSDB e PT. Em MS, nós vemos também uma polarização, mas entre PMDB e PT. Nesse embate, podemos dizer que o PMDB tem saído vitorioso pelo número de municípios que ele governa. Podemos afirmar que o Estado tem uma característica até bastante conservadora com relação a política, especialmente, se considerarmos que a economia dele está baseada no agronegócio e o voto nos estados onde predominam o agronegócio, como setor forte na economia, tende a ser um voto mais conservador, não tanto pela mudança.
MSREPÓRTER: Então, o senhor acredita que não existe hoje essa diferença entre esquerda e direita?
Sim, eu arriscaria uma conclusão semelhante a essa. Nós estamos em um contexto hoje, pós-queda do muro de Berlim, pós Guerra Fria. Antes, a política era mais polarizada entre esquerda comunista, socialista e direita liberal capitalista. Antes da queda do muro de Berlim e durante a Guerra Fria, você era pró-União Soviética ou pró-EUA. Depois de 1989, nós estamos infelizmente num mundo que não é mais multipolar, num mundo em que há apenas um pólo hegemônico de poder político e econômico . Nesse contexto, fica difícil dizer se tem rivalidade entre e esquerda e direita.
MSREPÓRTER: O poder do PMDB é muito forte em Mato Grosso do Sul. As quatro maiores forças são do PMDB, governador, prefeito, presidente da Assembléia e presidente da Câmara de Vereadores. Isso vai interferir nas eleições de 2012?
Eu acho que ainda é cedo para arriscar uma previsão. A política no país e aqui no Estado tem se pautado muito pela chamada “sociedade do espetáculo”. A política hoje ocorre muito na mídia, na imprensa, no rádio, na TV. Em relação à estratégia de marketing, nas últimas eleições majoritárias, nós vimos que o candidato do PSDB e o candidato do PT, no final da campanha, tinham propostas muito semelhantes. Ou seja, o discurso dos marketeiros das campanhas é pautado pelo feed back do eleitor, de modo que a divergência ideológica acaba ficando em segundo plano tendo em vista vencer as eleições.
Sobre a questão de até que ponto ter candidatos eleitos pode influenciar a eleição, antigamente o peso da máquina era muito grande especialmente em relação aos votos do funcionalismo e de seus familiares. Por outro lado, nós sabemos que cada vez mais o Executivo é mais vigiado, a prova disso são os vários ministros que nós assistimos a queda nos últimos meses. As impropriedades, o mau uso da máquina administrativa, que não deve ser usada para fins eleitorais, está muito em evidência.
A imprensa, a sociedade civil, está de olho, de modo que a gente espera e torce para que o peso da máquina não seja tão grande na eleição, porque isso seria ruim para a sociedade civil como um todo. Não é função da máquina administrativa movimentar-se, tendo em vista fins eleitoreiros, não é essa a sociedade transparente que nós queremos. Mas aqui no Estado, já estão sendo feitas muitas pesquisas para sondar a rejeição de um candidato e o seu capital eleitoral.
MSREPÓRTER: O senhor acredita que a pesquisa quantitativa e qualitativa é que direciona as eleições?
Direcionam sim. Porque as campanhas estão cada vez mais caras. Uma campanha eleitoral envolve muitos recursos. E a Transparência Brasil, que é uma ONG, tem apontado nos últimos anos o aumento dos políticos eleitos que são milionários. Isso significa que a nossa democracia corre o risco de transformar-se numa plutografia, num governo dos mais ricos, por causa do custo da campanha eleitoral. E esse custo da campanha eleitoral está relacionado a essa ‘espetacularização’ da política, que torna caro o espaço na mídia e todo o aparato de publicidade.
E, além disso, nós temos o caso da Lei da Ficha Limpa, ou seja, nem sempre aquele candidato que em tese tem respaldo popular, não tem contas a acertar com a justiça. E isso também é um elemento que pesa. Imaginando, por exemplo, que de fato os mandatos cassados pelo candidato ter ficha suja são muito poucos, por outro lado, o desgaste político de um prefeito, deputado ou governador que tenha a ficha suja e que tem que ficar permanecendo no cargo com liminares judiciais é muito grande. Isso querendo ou não afeta a popularidade do seu mandato e afeta também a sigla onde aquele candidato está. E nós temos assistido nos últimos anos, candidatos que se tornaram famosos não pelos seus feitos positivos, mas pelo envolvimento em casos de corrupção.
MSREPÓRTER: Mas em sua opinião a Ficha Limpa e esses escândalos que saem fazem com que a população não vote mais nesses candidatos?
Nós temos que ver a política também a longo prazo. A democracia mais antiga do Ocidente é a democracia norte-americana, que vem desde o século 18, e apenas acompanhando a mídia se vê que a própria democracia norte-americana tem ajustes que ainda precisam ser feitos. Resumindo, eu faço coro com os otimistas, no curto prazo, nós temos a impressão de que a sociedade mais informada não surte efeito, mas surte sim.
Temos visto, por exemplo, uma renovação mais discreta do que gostaríamos, mas há uma renovação no quadro de políticos. Isso tem relação com a maior liberdade de imprensa, nas últimas duas décadas, posterior ao regime militar e também o número de jovens que têm votado. Normalmente, o jovem é melhor informado.
E outro elemento importante é o acesso do jovem à internet e às mídias sociais, que são ferramentas poderosas de difusão de boatos, de um lado, e de informações sobre os candidatos, de outro. É muito fácil hoje você mobilizar um grupo de pessoas em torno de uma causa usando o Facebook. Segundo a própria empresa, 1 em cada 13 pessoas no mundo tem um perfil no Facebook, 1 em cada 4 norte-americano tem um perfil no Facebook. A média de de brasileiros que tem o perfil também é alta. Por isso, as redes sociais têm também um papel importante na informação ao eleitor.
E aí vem um elemento que eu vejo com muita preocupação. Tenho acompanhado também pelas redes sociais estratégias de alguns políticos de extrema direita de algumas siglas partidárias, de coibir o trabalho da imprensa movendo ações milionárias por danos morais. Se nós não temos hoje práticas violentas e ilegais para coibir o trabalho da imprensa, nós temos, por outro lado, essas medidas judiciais que implicam em custas processuais e isso surte um efeito chamado o “efeito da punição exemplar”.
Os outros jornalistas, vendo o que aconteceu com o colega, alvo dessas ações, tendem a calar-se, a recuar também. Vejo isso com preocupação, são estratégias que lembram, por exemplo, a ditadura.
MSREPÓRTER: De que forma a população pode realmente fazer a diferença, já que este ano é ano de eleição?
Quanto mais o eleitor se informar, melhor. Por exemplo, o TSE divulga o currículo completo de um candidato e, inclusive, a declaração de bens desses candidatos. O partido é uma organização de um setor da sociedade com o objetivo de chegar ao poder e controlar a máquina administrativa. Resumindo, um partido está a serviço de uma classe, de uma camada, de um segmento, como o eleitor vai poder julgar se aquele candidato vai representá-lo? Basta olhar a declaração de rendimento daquele candidato e você saberá com quais setores aquele político está comprometido. Infelizmente, essa ficha dos candidatos fora do período eleitoral, não fica acessível no site do TSE. Seria um avanço importante para o futuro manter esse perfil dos candidatos e transformar o TSE também numa espécie de rede social dos políticos.
Outra maneira do eleitor se informar... Existe um projeto, também disponível na internet, que é o projeto “Excelências”. Esse projeto é mantido por uma organização não-governamental com informações, com um banco de dados alimentado por voluntários, e fica disponível online em um dos maiores portais da internet brasileira que é o Universo Online.
Ali você pode, por exemplo, consultar os processos que foram movidos contra determinado candidato, nem todos esses processos são processos que chegaram a uma decisão final, mas nós temos condições de avaliar que denúncias aquele político teve.
Uma pesquisa da Unacom mostra que o grau de transparência e da compra de votos em Mato Grosso do Sul, não é tão grave quanto em outros estados. Ou seja, quanto mais liberdade tem a imprensa e quanto mais atuante ela é, o efeito da compra de votos é menor. Não significa que podemos comemorar. Em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, temos ainda de avançar. E, por outro lado, se temos candidatos que tentam coibir a atuação da imprensa, nós temos também um setor da imprensa que tem atuado de forma marrom.
MSREPÓRTER: Muitos candidatos que já passaram pela Câmara anos atrás estão querendo tentar uma vaga no próximo ano. O que acha disso?
O que a gente acompanha pela imprensa, é que há um movimento grande no país contra a reeleição. Parece que a reeleição não é bem vista por muitos eleitores. Por outro lado, em democracias sólidas como a França, um presidente ficou no poder por 15 anos, que é o François Mitterrand. Então é difícil afirmar que a reeleição é uma fragilidade da democracia. Eu acredito que não, tendo em vista outras experiências. Mas, a reeleição indefinida dificulta que lideranças políticas jovens consigam conquistar uma cadeira no legislativo, tendo em vista que partidos tradicionais com candidatos já estabelecidos tem um poder econômico maior.
MSREPÓRTER: Qual a opinião sobre o fato da vice-governadora ser possível candidata a prefeita de Campo Grande?
Muito embora ela venha de um setor tradicional no Estado de políticos e de um partido que tem muita influência, um peso eleitoral grande, talvez tenha alguma dificuldade em relação à identificação do eleitor de Campo Grande com candidata. Mas isso também é imprevisível, porque talvez uma boa campanha possa resolver. Ou seja, não é uma regra também ter que ser um candidato da terra para que seja um bom prefeito.
Um caso clássico é do FHC, que era conhecido como político paulista, mas originariamente não era de São Paulo. Há na história da política brasileira casos de pessoas que fazem campanha e carreira política fora do local onde nasceu. Outro caso é do ex-presidente Jânio Quadros, sendo aqui do Estado fez carreira política em São Paulo. E o PSDB também parece que cogita a possibilidade de ter um candidato que foi prefeito de outro município do interior. A tarefa de casa vai consistir nas propostas e na equipe de assessoria desses candidatos de demonstrar e convencer o eleitor de que as suas propostas são viáveis para Campo Grande.
MSREPÓRTER: Campo Grande não foi escolhida como sede da Copa do Mundo. Pode ter havido algum interesse político na decisão ou é questão de falta de estrutura mesmo?
Acredito que a infraestrutura nesse caso não foi determinante, porque nós estamos vendo dificuldades e atrasos de obras em várias capitais, muito melhor estruturadas do que Campo Grande. A campanha foi muito focada em “Não Cuiabá, Sim Campo Grande”. Foi uma campanha que enfatizou mais que Cuiabá não poderia ser e Campo Grande deveria ser. Foi uma campanha negativa e não tão positiva, essa é a impressão que tenho. Isso tem relação com a história da divisão do Estado e com a rivalidade clássica que há entre o Norte e o Sul, que vem desde o início do século 20, não poderia ser diferente.
Outro elemento que também acho que tenha pesado foi o elemento político. Do ponto de vista econômico, nós temos no Mato Grosso, uma bancada poderosa ligada, por exemplo, a economia da soja. Em relação ao desenvolvimento econômico e ao PIB do Mato Grosso, os indicadores econômicos mostram que o Mato Grosso está se desenvolvendo mais rapidamente do que o Mato Grosso do Sul. Os últimos dados do IBGE apontam isso.
Não sei se isso é positivo ou negativo, acredito que há inclusive consequências ambientais pelo fato de Mato Grosso estar na área da Amazônia Legal, porém, nós observamos que a economia tem um peso importante nas decisões políticas. Eu acredito que a economia de Mato Grosso, mais dinâmica nesse momento do que a economia de Mato Grosso do Sul, tenha relação com essa decisão.
MSREPÓRTER: Essa decisão também teria relação com investimento no esporte?
Eu não tenho dados do investimento em esporte em Mato Grosso do Sul. Mas o fato de uma das sedes da Copa não ter vindo para cá, não significa algo necessariamente ruim. A Vila do Pan do Rio de Janeiro teve uma série de problemas estruturais e quem investiu nos apartamentos teve prejuízo porque as obras foram apressadas e numa área em que o solo não era muito estável.
Também considero que um investimento em uma infraestrutura de esporte demanda depois que o evento acontece, um investimento alto na conservação daquele equipamento de lazer. Se não tem uma previsão do poder público em investir e fazer um bom uso social da infraestrutura que ficou, é desastroso para a população local. Ou seja, os dividendos de um grande evento como esse podem causar uma euforia na economia local, ativar alguns setores e, depois que o evento ocorre, a população acaba não se beneficiando. Então, nesse caso, eu não sei até que ponto uma cidade ser a sede de um grande evento é positivo. O pós-evento é que vai dar a resposta.
MSREPÓRTER: Um dos grandes “cabeças” da política de MS, Nelson Trad faleceu em dezembro de 2011. A morte do “pai” pode influenciar na carreira política da família que está presente nos poderes?
Independente do seu currículo, nós poderíamos destacar também o que observamos na imprensa. Nós vimos políticos de várias siglas repercutindo a sua morte e inclusive, políticos do grupo contrário, do PT. Isso mostra o respeito que o Nelson Trad tinha no meio político do Estado. A nota do presidente do PMDB foi dizendo que Trad era uma pessoa importante para o PMDB nacional, afinal de contas, foi alguém que dedicou 34 anos da sua carreira à vida política. Ocupou diversos mandatos de vereador, vice-prefeito, deputado estadual e federal, e, além disso, nós temos hoje o atual prefeito de Campo Grande , que é filho, o deputado estadual, Marquinhos Trad, o deputado federal Fábio Trad, que também ocupou a presidência da OAB, uma instituição importante na defesa da democracia. E também temos novas lideranças surgindo no clã Trad, podemos dizer assim, como pré-candidatos a Câmara de Vereadores. Não se pode negar que o nome Trad, a família Trad tenha uma força grande dentro do PMDB.
Eu estava lendo uma declaração do prefeito Nelson Trad e ele comentava, que há alguns anos quando o pai dele começou já ter as complicações de saúde em virtude dos problemas cardíacos, houve uma preocupação muito grande e a declaração do prefeito foi que “se ele estivesse morrido naquela ocasião eu não seria prefeito de Campo Grande”. Uma interpretação desse discurso seria que na avaliação do prefeito, hoje, o seu grupo político está estabelecido, mas naquela época ele não estava preparado. De fato o prefeito Nelson Trad é uma força jovem, porém forte, dentro do PMDB, que é um partido que tem uma força eleitoral muito grande em Mato Grosso do Sul. A morte do Nelson Trad deixou um legado forte e essa força vai depender das opções políticas que os seus sucessores vão tomar daqui por diante.
MSREPÓRTER: Falando das eleições 2012. Qual a sua opinião sobre a troca de equipe que o prefeito Nelson Trad está fazendo na Prefeitura?
Isso é clássico na política. Estamos já acompanhando a promessa da Reforma Ministerial no âmbito nacional. Significa que metade de um mandato é a equipe que compôs as forças que elegeram um determinado candidato de um determinado partido. No meio de um mandato, ocorre a reforma de secretarias, de prefeituras e de ministérios.
Essa reforma é para atender a nova composição política tendo em vista eleger um candidato da situação ou uma possível reeleição. Significa que aqueles partidos que saem da situação e passam para a oposição perdem secretarias ou ministérios, e aqueles partidos que vão compor a base da coligação da próxima eleição são contemplados com cargos.
Nesse caso, nós como sociedade civil temos que torcer para que o corpo burocrático seja bom. Porque, independente da troca de secretários, os serviços públicos e a máquina administrativa precisa continuar funcionando. E quem mantém a máquina funcionando é o corpo técnico administrativo.
Antigamente, havia uma visão muito negativa do corpo burocrático, mas eu tenho observado que autores da política, como Eduardo Bittar e até o Norberto Bobbio, tendem a avaliar que quanto mais técnica for a formação, a escolha e o concurso do corpo burocrático, melhor será a qualidade do serviço público e da administração pública.
Um elemento que é uma esperança de que nas reformas políticas seja contemplado é a diminuição dos cargos nomeados. A quantidade de cargos nomeados temporários é um forte indicativo de fragilidade de uma administração porque a escolha de uma pessoa para ocupar um cargo nomeado não se dá necessariamente tendo em vista a sua qualificação técnica.
No país, no governo FHC do PSDB e nas últimas administrações do PT, o número de cargos nomeados é muito alto, poderia ser menor. Esses cargos nomeados refletem a política do Estado mínimo de reduzir ao máximo os funcionários concursados, o que diminui a qualidade do serviço público. Reflete em uma fragilidade, porque a função não ocupada por um funcionário de carreira é ocupada por algum funcionário nomeado e que se envolveu na campanha e infelizmente nem sempre essa pessoa é a mais indicada para exercer aquela função.
MSREPÓRTER: Qual a situação política das principais cidades do Estado como Três Lagoas, Corumbá e Dourados?
Em relação a Dourados, eu resumiria uma posição de torcedor, tendo em vista as denúncias e visibilidade negativa que a cidade teve no cenário nacional no contexto da Operação Uragano. Todos nós como sul-mato-grossenses torcemos para que a administração da cidade entre nos eixos. O douradense merece uma boa administração, mais eficiente. A cidade não merece aparecer no noticiário policial. Na cidade, há uma influência do PDT, muito embora, quem ocupa hoje a cadeira do executivo municipal, não seja do PDT. Mas na última campanha a governador, a composição política com o grupo de Dourados foi importante para a vitória eleitoral.
Já Três Lagoas têm sido um local de força e atuação do PMDB e o marketing eleitoral naquela região está muito baseado nas expressões: choque de gestão e atração de investimentos. Tradicionalmente, a crítica que nós temos em relação a industrialização é que se o desenvolvimento econômico não resultar também em desenvolvimento social é um mau modelo.
Este dilema já é antigo na história da política brasileira, vem desde a década de 50, com a chamada ideologia do nacional desenvolvimentismo. Resumindo, não há desenvolvimento econômico, se esse desenvolvimento não for acompanhado de melhoria nos índices sociais. Me preocupa, por exemplo, o impacto ambiental dessa industrialização em Três Lagoas. A universidade e os pesquisadores da cidade têm um papel importante na avaliação dessa política de desenvolvimento econômico acelerado.
Corumbá tem sido já um local de forte influência do PT. Então, desses três grandes colégios eleitorais, temos um que se identificam com a situação e outro com a oposição.
MSREPÓRTER: Como avalia o desenvolvimento político de Mato Grosso do Sul nos últimos anos?
O Estado está onde está do ponto de vista econômico muito concentrado nas últimas décadas em Campo Grande. Hoje, mais de 40% do PIB do Estado está em Campo Grande. A divisão do Estado em 1977 fez com que os serviços e a indústria se concentrassem muito na capital. Há uma disparidade em relação ao PIB de Campo Grande e outras cidades do Estado. Há algumas cidades, por exemplo, de destaque do ponto de vista econômico, as cidades do Bolsão, São Gabriel do Oeste, Aparecido do Taboado, que tem uma economia forte baseada no agronegócio.
Porém, grande parte dos municípios tem sérios problemas de desenvolvimento humano, tem o IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] muito baixo, de acordo com índices internacionais. No cenário nacional, Mato Grosso do Sul não está entre as posições mais baixas, mas também não está nas posições mais altas, em relação ao PIB e ao desenvolvimento humano. Houve melhorias na qualidade de vida da nossa população nas últimas décadas, mas há ainda muito por melhorar e não é hora ainda de comemoração.
Em relação a política, o setor serviços tem uma participação importante no PIB do Estado, porém a influência na política não é proporcional a participação no PIB e na arrecadação. Determinados setores ainda monopolizam muito o quadro político do Estado tendo em vista os candidatos eleitos e os partidos. Os setores que mais contribuem na arrecadação estadual são serviços e comércio. O terceiro setor contribui muito para a economia.
MSREPÓRTER: Como destaca a relação da política com a questão indígena?
Muito embora a mídia e os políticos tenham dado uma atenção maior ao caso, nós ainda estamos longe de uma solução efetiva. Nesse caso, a discussão ainda está bastante polarizada. Nós não tivemos ainda a necessária mobilização da sociedade sul-mato-grossense, seja dos políticos ou da sociedade civil. Eu gostaria de não acreditar, mas isso se deve ao preconceito. Parece que ainda uma parte da nossa população acredita que algumas pessoas são menos do que as outras, que algumas pessoas não devem ter direitos, inclusive, o direito à alimentação e à vida. Nesse sentido, eu considero que nós não seremos um Estado desenvolvido enquanto uma parcela significativa de nossa população não tiver direitos.
MSREPÓRTER: E a população deve estar atenta aos problemas do Estado e das cidades para votar nessas eleições...
Exatamente, porque nós temos muita lição de casa para fazer. A divisão do Estado veio responder ao anseio da população sulista, porém, nós ainda como um Estado jovem temos desafios a enfrentar e esses desafios são grandiosos e para desafios grandiosos nós precisamos de líderes e quem nesse caso tem o poder de mudar é o senhor eleitor.
Adriana Oliveira
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Foto: Adriana Oliveira