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Entrevistas

Psicóloga destaca importância de limites e diálogo na educação infantil

15 janeiro 2012 - 20h00 Por Markito

A estrutura familiar do lar continua a mesma: pai, mãe e filhos. No entanto, as funções estão em constantes mudanças, e cada família possui as suas peculiaridades. A mãe é também operária, advogada, jornalista, médica ou vendedora. O pai tem mais de um emprego, faz outra faculdade, é empresário ou engenheiro, e acumula afazeres domésticos para ajudar a esposa. Neste cenário de vidas com sobra de atividades e falta de tempo, a convivência intensa com as crianças da casa é substituída pelas matrículas em aulas de inglês, ballet, judô e etc. No entanto, ainda assim, a educação sempre será uma preocupação prioritária.

O estágio obrigatório despertou o interesse pela área da psicologia infantil ainda na faculdade, quando, no fim do curso, o tema da monografia teve o mesmo foco. Depois veio a pós-graduação, e hoje, aos 25 anos, Taiana Rondon trabalha em uma clínica de psicoterapia e em um centro de aprendizagem, atendendo crianças com patologias diversas, mas principalmente aquelas que, por algum motivo, tem dificuldades de alfabetização.

Formada e pós-graduada na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), a psicóloga falou em sua entrevista ao MSREPÓRTER sobre educação infantil, a importância do diálogo e questões polêmicas como a punição por indisciplina nas escolas, bullying e as “palmadinhas” dos pais para reprimir os filhos.

MSREPÓRTER: Como é o trabalho no centro de aprendizagem?

Nós atendemos crianças com dificuldades em aprender o que é passado na escola. Geralmente, a escola encaminha alunos para que nós atendamos, ou então, alguns pais ficam sabendo do trabalho desempenhado ali, sabem da dificuldade do filho, e nos procuram. Primeiro, a criança passa por uma avaliação, para que nós identifiquemos o perfil dela, para darmos início ao acompanhamento. Algumas crianças vão três vezes na semana no Centro de Aprendizagem, outras vão duas vezes. Nós ajudamos a criança a se organizar, desde agenda, tarefas até o estudo mesmo. O acompanhamento é durante o ano inteiro. Para checarmos se a criança melhorou, se houve aproveitamento, nós vamos até a escola, para saber como ela está nas avaliações dos professores.

MSREPÓRTER: Sempre que os pais procuram um psicólogo, é porque a criança já desenvolveu alguma patologia ou dificuldade?

Geralmente sim. Algumas chegam à clínica com um problema de déficit de atenção, ou hiperatividade, ou a dislexia por exemplo, que é muito difícil de ser diagnosticada, sendo necessária uma equipe multiprofissional . É possível identificar que a criança está com dificuldade na escola, mas o tipo de dificuldade nem sempre é facil. É preciso a ajuda de um neuropsicólogo em alguns casos. Existem também aquelas crianças que precisam apenas de uma organização, uma ajuda para que elas se organizem para o estudo. Outras precisam da realfabetização. Aquelas que tiveram problemas apenas no início da alfabetização, que tem problemas tanto de leitura como de escrita.

MSREPÓRTER: O que pode levar uma criança a ter dificuldade na fase da alfabetização?

Esta dificuldade está, geralmente, ligada a fatores emocionais. Um exemplo disso é a criança que começa a ser alfabetizada quando seu irmão mais novo começa a andar. A mãe não vai ter tempo de olhar para essa criança que está aprendendo a ler e escrever, e ela vai acabar apresentando alguma dificuldade que vai perdurar, pois vai ser mais demorada para os pais a identificação do problema.  Então, pode ser uma dificuldade que ela apresenta em casa, onde não tem estímulo ou orientação dos pais. Na fase da alfabetização, a criança precisa da ajuda dos pais em casa.

É preciso estimular e mostrar que tem interesse pela alfabetização, e explicar para a criança o quanto a leitura e escrita são importantes. Nesta fase, o que é trabalhado na escola tem que se reforçado em casa. Algumas crianças acabam tendo apenas o lado da escola, sem ter essa orientação em casa.  Tem crianças que só tem um lado, o da escola, e não tem isso em casa. E tem também aqueles casos em que a criança tem esses dois auxílios, no entanto, possui alguma patologia, como dislexia e déficit de atenção, que também ocasionam dificuldades no processo de alfabetização.

MSREPÓRTER: Quando os pais percebem que precisam da ajuda de um psicólogo?

Quando a criança começa a apresentar qualquer dificuldade, principalmente na escola. Você percebe que a criança não consegue acompanhar o restante da sala, enquanto muitos alunos da mesma série já lêem, ela ainda não consegue identificar as letras. Os pais percebem que o filho está atrasado em relação aos outros alunos da sala, ou em relação à idade que tem hoje, uma criança com seis ou sete anos, já sabe ler pelo menos a maioria das palavras. Se a criança chega nesta idade e não consegue ler, já é um indício de alguma dificuldade.

 MSREPÓRTER: A indisciplina pode ser um fator que atrapalha a vida escolar e o aprendizado?

A indisciplina no seu quadro mais grave caracteriza o desvio de conduta. Crianças que tem o desvio de conduta são aquelas que “aprontam”, são crianças sem limites. Mas, nem sempre a criança que tem desvio de conduta tem dificuldade de aprendizagem. Nós vemos que já muitas crianças hiperativas que vão bem na escola. Ou crianças super dotadas, que tem altas habilidades, e já não vão tão bem assim na escola. Então, o desvio de conduta não está ligado com a dificuldade de aprendizagem. Ela pode apresentar o desvio de conduta associado à dificuldade de aprendizagem pela perseguição do desafio. A criança que possui o desvio de conduta procura o desafiante, e ela pode se sentir atraída em desafiar a escola, o professor, e isso pode fazer com que ela vá mal na escola, devido à indisciplina. No entanto, não são fatores ligados diretamente ou necessariamente.

MSREPÓRTER: Quem deve impor os limites na educação das crianças?

Muitos pais acabam deixando esses limites como tarefa para as escolas. Neste caso, fica para escola o papel de educar. A vida corrida, cheia de atividades, sem tempo, muito trabalho, faz com que os pais abram mão cada vez mais das suas responsabilidades com os filhos. Quando não passam para a escola, passam para uma babá, um professor, um empregado, para que esta outra pessoa exerça o papel que ele deveria cumprir. Os pais precisam dosar até que ponto a responsabilidade da educação é deles e até que ponto é da escola. A melhor maneira para resolver esta questão é o diálogo, e isto é tarefa dos pais.

MSREPÓRTER: Qual a melhor maneira para impor estes limites?

Se bater resolvesse algum problema, seria preciso bater uma vez só. E nós sabemos que nunca é assim. Claro que existe a diferença entre as chamadas “palmadinhas” e espancar uma criança.  Mas, é muito mais válida uma educação com palavras, sentando e conversando com a criança. Algumas pessoas acham que elas não conseguem entender. Mas elas entendem sim. É preciso conversar com elas, com a linguagem delas. Um pai não deve conversar com um filho de três anos como se estivesse falando com um adolescente. Ou, o pai não pode dizer para não fazer, dizer que é errado, algo que ele sempre faz. Pregar sem dar o exemplo. É muito mais válida uma conversa com os filhos, esclarecendo tudo o que pode gerar dúvidas, construindo uma relação de amizade. A intenção é que a criança consiga confiar nos pais. Uma conversa em que a criança não vai ser reprimida, e não será preciso palmadas.

MSREPÓRTER: O projeto que prevê punição em forma de atividade socioeducativa para crianças indisciplinadas nas escolas é positivo para a educação?

Pode ser positivo apenas se a criança tiver consciência do que ela fez. Se ela errou e depois de uma conversa, ela perceber o erro e realmente se arrepender, pode ser positivo ela realizar uma atividade para se redimir ou reparar o dano. Mas se ela não se arrependeu, se acha o que fez não foi errado, então para ela não vai adiantar, pois vai realizar a atividade que a escola pedir e depois vai manter a mesma atitude. Conversar e abrir espaço para que a criança peça desculpas é bom para que ela saiba e entenda o que fez.

Algumas crianças podem quebrar algo ou agredir o colega e não achar nada disso errado. Elas acreditam piamente que estão no papel delas e que isto é o certo. Então, para estas crianças, atividades socioeducativas não farão efeito nenhum. Elas podem cumprir as tarefas, mas vão fazer porque foram mandadas, e não porque querem reparar o que fizeram. É a mesma linha de pensamento em relação à terapia. Se a criança vai à terapia sem vontade nenhuma de ir, o trabalho não terá efeito.  Ela vai com sentimento de obrigação. Mas se a criança vai sabendo a importância do trabalho, sabendo a razão de estar ali, e disposta a criar um vínculo, o trabalho faz bem para ela, e a evolução é bem mais rápida. É preciso que a criança tenha noção e consciência do que fez sempre que for reprimida. No desvio de conduta é um dos casos em que a criança não vai se arrepender, poderá cumprir o que a escola determinar, depois vai agir com indisciplina novamente.

MSREPÓRTER: No caso do desvio de conduta, como os pais devem agir?

Quando os pais perceberem que a criança pode ter problemas com desvio de conduta, é preciso procurar um profissional para diagnosticar e acompanhar o desenvolvimento da criança. A ajuda de um psiquiatra é imprescindível nesses casos. Um desvio de conduta não tratado pode levar a formação de um adolescente rebelde, um jovem violento e um adulto frustrado e cheio de problemas. O comportamento pode incluir atitudes cada vez mais graves, e é preciso que os pais estejam atentos, para impedir a evolução do problema.

MSREPÓRTER: Qual a melhor maneira para a criança lidar com a separação conjugal dos pais?

A melhor saída é sempre o diálogo. É preciso explicar para a criança o que está acontecendo, garantindo que o pai vai continuar sendo pai, e a mãe sendo mãe, e que independente da separação, isso nunca vai mudar. Não é preciso esconder o que acontece dela. Alguns detalhes é claro que não são necessários de se falar a uma criança, que compete ao mundo dos adultos. Mas é bom deixar tudo claro, para que ela não imagine além do que está acontecendo.

MSREPÓRTER: O que deve ser feito para combater o bullying?

O bullying é algo que acontece dentro das escolas, e por isso, é de responsabilidade delas combater. É preciso primeiro prestar atenção para identificar o problema. Muitas vezes uma criança pode ser vítima de bullying e não se manifestar por medo ou vergonha. Os pais também podem conversar com a criança para investigar como ela se sente junto dos colegas na sala de aula, e se identificar algo de errado, comunicar a escola em seguida. É importante este acompanhamento, pois o bullying pode causar transtornos emocionais que vão atrapalhar o desenvolvimento desta criança.

MSREPÓRTER: O acesso da criança às novas tecnologias pode atrapalhar em sua educação?

Quando o assunto é educação, é preciso saber que limites são necessários. A partir do momento em que a criança deixa de ter uma vida social para ficar no computador ou no vídeo game, este hábito pode ser prejudicial. Os pais podem perceber no dia a dia, quando estão de folga em casa e convidam o filho para um passeio, se ele prefere não sair para ficar envolvido na internet, ou quando a criança se afasta dos amigos, não brinca com outras crianças da sua idade, pois prefere a vida virtual. É importante cultuar as brincadeiras antigas quando possível.

Quando os pais ensinam brincadeiras antigas, que aprenderam com os avós das crianças, eles reforçam o vínculo familiar de uma maneira divertida. Se os avós ensinam brincadeiras para os netos, também é estabelecido um vínculo importante para a criança. Na falta de tempo dos pais, deixar as crianças o tempo todo na internet ou vídeo game não é a melhor saída, e pode ser prejudicial ao desenvolvimento dos filhos.

Ana Maria Assis

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