Com mais de 30 anos de profissão, Luiz Antônio Moreira da Costa é um dos médicos do Samu mais conhecidos em Campo Grande. Nasceu em São Paulo, é casado, tem três filhos e veio para a cidade morena em 1974, quando passou no vestibular de medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, na época Universidade Estadual do Mato Grosso.
Em 2003, se formou em Biologia pela Universidade Católica Dom Bosco. Trabalhou como ginecologista por mais de 20 anos, mas sua paixão sempre foi o atendimento ao Pronto Socorro. Na antiga Santa Casa que ficava na Avenida Mato Grosso, foi plantonista durante vários anos como acadêmico. Atuou como médico em Ladário como oficial da Marinha, onde foi nomeado encarregado do Pronto Socorro do Hospital Naval.
Aos 57 anos, além de Campo Grande e cidades do interior do Estado, já atuou como médico por quatro anos no Paraná. Exerceu ainda outra profissão, professor no Colégio Dom Bosco e na Universidade Católica Dom Bosco. Em 2001, começou a trabalhar nos Postos de Saúde 24 horas e depois de quatro anos participou da implantação do Samu na capital de Mato Grosso do Sul.
Em entrevista ao MSREPÓRTER, relembra como foi esse processo, fala sobre a rotina e importância do Samu e mostra ainda a preocupação com o atendimento às vítimas de enchentes em todo o país. “Tonhão”, como é conhecido, criou o projeto Força Nacional de Emergência Médica, que pretende sistematizar o atendimento às vítimas de catástrofes naturais e reduzir o número de mortes. A ideia já foi enviada ao Ministério da Saúde, que espera receber até o dia 31 de janeiro a documentação para que eles montem o Cadastro Nacional dos Profissionais.
MSREPÓRTER: Como foi a implantação do Samu em Campo Grande?
A portaria 2048 do Ministério da Saúde que institui o Samu foi criada no final do governo do Fernando Henrique Cardoso, em 2002, só que como ele já estava no final do segundo mandato não implantou. O Samu foi implantado já no Governo Lula.
Em Campo Grande, o Samu foi implantado em 2005. Eu sou o único do período anterior ao Samu que está trabalhando até hoje. Na implantação, houve uma troca de coordenadores, quem assumiu a coordenação foi o Dr. Cury. Eu fiquei como gerente técnico. Depois, optei em deixar o cargo.
Hoje, eu estou só com a ambulância, faço 60 horas por semana. Por conta até da minha idade, evito fazer plantões noturnos. É serviço que eu gosto de fazer, que tem uma adrenalina muito grande.
MSREPÓRTER: Como é a rotina de ser um médico do Samu?
Não existe uma rotina. Você sai de manhã cedo para o plantão sem saber o que vai passar no decorrer do dia. Às vezes, você tem um plantão tranquilo, um plantão que não tem quase nada de significativo. O transporte de um paciente do Posto de Saúde até o Hospital. Às vezes, um que cai de bicicleta e teve só escoriações. Mas têm os casos mais graves, um atropelamento, um caso como aquele que ficamos acompanhando as buscas ao menino que morreu no lixão, uma parada cardíaca dentro do ônibus, como tivemos esses dias, ficamos mais de uma hora reanimando o paciente com os Bombeiros, porque a gente faz um trabalho conjunto, coeso e somatório. Isso é importante que seja frisado.
MSREPÓRTER: Qual a diferença entre o trabalho dos Bombeiros e do Samu?
Os Bombeiros em Mato Grosso do Sul não têm quadro de saúde e eu até acho que não é negócio para eles colocarem quadro de saúde. Os Bombeiros vão progredindo nas patentes, e quando eles chegam à oficial superior, no caso a major, eles deixam de ser operacionais.
Logo no início, o comandante geral do Corpo de Bombeiros, quis fazer um estudo da implantação do quadro de saúde com médicos. Eu falei que só médicos não resolvem, tem que ter enfermeiro, tem que ter técnico de enfermagem. Tem que abrir um quadro, o técnico de enfermagem vai ter que entrar como sargento, e enfermeiro e o médico como oficiais. Daqui a pouco, os primeiros já vão ser major, coronel, tenente-coronel, e deixa de ser operacional.
O Corpo de Bombeiros e o Samu trabalham em conjunto. Só que os Bombeiros, como não têm quadro de saúde, tem socorristas com o treinamento de primeiros socorros, de resgate, resgate em altura, desencarceramento de vítimas presas em lataria.
Nós não temos material para isso, precisamos que os Bombeiros vão lá para cortar a lataria do automóvel, para tirar uma vítima de dentro de um poço, para tirar uma vítima do fundo de um córrego. Para fazer um rapel, por exemplo, para descer no inferninho como teve esses tempos atrás a moça que caiu lá. Quem tem que fazer esse serviço é o bombeiro, porque o médico e o enfermeiro vão fazer o atendimento direto à vítima, de saúde.
Chegou, é um caso grave, precisa de um médico, eles já chamam no rádio, já chama a ambulância com o médico. Os bombeiros aguardam no local fazendo os primeiros atendimentos, contendo hemorragia, mantendo a respiração, colocam oxigênio, isso eles tem como fazer. Agora fazer a medicação, fazer a massagem cardíaca, desfibrilação, entubar o paciente grave, isso aí só médico que pode fazer.
Mas no caso, por exemplo, que é só uma escoriação leve, não está sangrando, não tem risco iminente, eles tem como imobilizar e levar para o hospital, não precisaria chamar o médico. O trabalho soma. A diferença é que eles não são profissionais de saúde, eles são profissionais militares de resgate.
MSREPÓRTER: Como surgiu a ideia do projeto Força Nacional de Emergência Médica?
Em 2008, houve uma enchente catastrófica em Santa Catarina. Em uma reportagem pela televisão, o repórter entrevistava um médico que estava chorando, o repórter perguntou se ele estava emocionado devido às vítimas da enchente. O médico disse que era porque a casa dele também tinha sido arrastada pela água da chuva e a família dele também precisava ser socorrida.
A partir daí, comecei a pensar em um projeto que atendesse essas vítimas de forma mais organizada, no modelo da Força de Segurança Nacional. Em uma reunião no início de 2009, conversei com o coordenador geral de Urgência e Emergência do Ministério da Saúde, Clésio Mello de Castro, ele pediu para mandar o projeto. Mandei, mas em um ano não tive resposta. Em 2010, fui a Brasília apresentar o projeto ao Ministério da Saúde. Depois, no final de 2010, conversei com o Moka, que na época era deputado. No início de 2011, o Moka já como senador deu entrada no projeto de lei pelo Senado. Mas quando chegou na Comissão de Constituição e Justiça os senadores não passaram porque disseram que o projeto tinha que ser proposto pelo Executivo. O projeto foi então para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Em dezembro de 2011, saiu o decreto pelo Ministério da Saúde.
MSREPÓRTER: Qual o objetivo do projeto?
A ideia do projeto é a seguinte. Toda vez que você tem uma catástrofe, as pessoas são mobilizadas, só que vinda de diversos pontos, sem que haja uma coordenação central. Tem muita gente trabalhando, muita gente disposta a trabalhar, mas não existe assim uma organização central. Existe um treinamento internacional que é o SCI, que é o Sistema de Comando de Incidentes, que o atendimento seja único, a partir dos recursos, veículos, medicamentos, material humano.
Através do Sistema de Comando de Incidentes, você tem que montar uma estrutura, um comando geral que organize. Tem gente da Defesa Civil, do Exército, da Aeronáutica, do Bombeiro, da Polícia Militar, do Samu. Os voluntários, quem que manda nos voluntários? Fica algo descentralizado, um monte gente mandando, gente fazendo coisas da própria cabeça, que resulta em uma situação de menor eficiência.
Ao passo que, se a gente tiver um comando único, você pode determinar as ações e dividir as funções, usando todo os recursos materiais e humanos que você dispõe, e virar uma situação que é quase uma situação militar, porque tem que ter um corpo de comando determinando o que cada um vai fazer.
MSREPÓRTER: Na prática, como funcionaria?
Esse projeto visa pegar profissionais preferencialmente da área do Samu, fazer o Cadastro Nacional de Profissionais de Emergência e Urgência. Esse pessoal vai ter encontros para treinamentos periodicamente para ter uma uniformidade no atendimento. Uma colega viajou para a Europa e viu uma atuação do Samu da França. Ela falou que não muda nada, o que eles fazem na França, na Alemanha, na Austrália, na Austria, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Espanha, na Turquia, é tudo igual.
Por exemplo, teve o terremoto no Haiti, e em seguida terremoto no Chile, se já tivesse o cadastro do projeto, manda 10 médicos, pega um de cada Estado, fica 10 ou 15 dias, não pode ser mais que isso, porque são 24 horas de trabalho por zero de descanso e também para não prejudicar a escala da cidade aqui no Brasil.
MSREPÓRTER: Qual a estrutura necessária?
A Coordenação Nacional do Samu vai montar, tem que ter disponível, já embalado pronto, baús com medicação, soro, macas, gerador. Tem que montar um hospital de campanha com estrutura. Precisa do combustível, do óleo do gerador, a água para o radiador, tem que fornecer luz elétrica, cozinha, panela, fogão. Esse material vai ter que ficar sempre pronto.
MSREPÓRTER: Qual a situação atual do projeto?
Agora, o Ministério da Saúde nos deu até o dia 31 de janeiro para encaminhar a documentação para que eles montem o Cadastro Nacional dos Profissionais. Nós vamos assumir um termo de responsabilidade nos comprometendo a ficar vinculado ao serviço, por no mínimo, dois anos, e, nesse período, é preciso participar de, pelo menos, duas operações. Nos casos de emergência, na ausência do profissional na cidade que trabalha, ele continua recebendo o salário normal, e recebe também as diárias pelo Ministério da Saúde pelo trabalho nas catástrofes.
MSREPÓRTER: Como o senhor avalia a situação atual de Campo Grande e do Estado em relação a outros lugares do Brasil?
Campo Grande é uma cidade privilegiada em relação a alguns outros locais que a gente tem visto por aí. Nós temos quase 20 córregos que cortam nossa cidade. Existe como fazer a prevenção de enchentes. Tem que sempre calcular cinco vezes mais, dez vezes mais do que aquela chuvinha normal e se preparar para isso.
Aqui no Bairro Santo Antônio é um lugar alto, mas é muito plano e a chuva não escorre, nós tivemos no ano passado, uma enchente desproporcional, a água cai e empossa. Agora foi feito um serviço de drenagem muito grande. Nós ainda não tivemos chuvas que alagassem novamente.
Nós temos dois principais córregos, que são o Segredo e o Prosa, que formam o Rio Anhandui. Com a impermeabilização da cidade, só asfalto e concreto, as pessoas não têm deixado área de infiltração, é fácil de prever que um volume de chuva maior, vai inundar. Começaram fazendo aquela obra grande perto do shopping, que teoricamente não deve mais alagar.
O córrego Prosa, na Fernando Correa da Costa, alguns anos atrás foi feito um afundamento do córrego e fechado por cima. Espero que eles tenham feito fundo o suficiente para não voltar a inundar, porque se vier uma cabeça de água grande pode jogar aquele concreto todo para cima, porque água não respeita concreto. Aquela região da Fernando Correa da Costa, perto da Mace, do Posto de Gasolina, não teve mais alagamentos.
Esse córrego Segredo, da Euler de Azevedo até o Horto Florestal, tem 28 anos essa obra. O ano passado caiu um pedaço desse paredão, mas aquele pedaço do Horto Florestal para frente foi feito muito depois e vive desmoronando. Quer dizer, está havendo alguma falha estrutural da engenharia para evitar essa situação.
Mas você não pode colocar barreiras para a água. Tem o projeto das calçadas que tem que ter grama. Mas isso daí só não é suficiente. Os quintais não podem ser totalmente calçados, porque senão cai no quintal e vai para a rua.
MSREPÓRTER: Quais cidades têm atendimento do Samu aqui no Estado?
A previsão é que até 2014, todas as cidades do Brasil com mais de 100 mil habitantes tenham o Samu. Em Mato Grosso do Sul, o Samu funciona em Campo Grande, Três Lagoas, Dourados e em Corumbá está sendo implantado. Nas cidades menores, serão criados Samus regionais. Por exemplo, Campo Grande vai abraçar Ribas do Rio Pardo, Sidrolândia, Terenos. A tendência é que as cidades em um raio em torno de 100 quilômetros se tornem parte de uma central. Já tem ambulâncias em algumas cidades só que ainda não estão operando.
MSREPÓRTER: São quantos profissionais do Samu são nessas cidades?
Em Campo Grande, são cerca de 70 médicos, 15 enfermeiros e milhares de técnicos de enfermagem. Em Três Lagoas e Dourados, deve ter cerca de 20 médicos em cada cidade. Entre médicos e enfermeiros, deve dar em torno de 300 profissionais, sem contar os técnicos de enfermagem.
Mas será implantado o Samu Estadual, que vai ser uma central de regulação estadual independente da central de Campo Grande, de Dourados, de Três Lagoas e de Corumbá. Uma central estadual que vai atender as outras cidades. Serão colocadas ambulâncias e equipes para fazer o atendimento nessas cidades pequenas. Então, às vezes, você tem uma equipe para atender duas, três cidadas próximas.
MSREPÓRTER: Quem dá suporte financeiro ao Samu?
O Samu é um órgão tripartide, é financiado pelo Governo Federal, Estadual e Municipal. O Governo Federal monta a estrutura e paga 50% das despesas mensais. O Governo Estadual paga 25% e o Municipal mais 25%. No caso do Samu Estadual, o Governo Estadual deve contribuir com um pouco mais de 25%.
Existe ainda a possibilidade, de montar um avião ambulância, para transporte aeromédico. Porque se tiver um paciente grave para trazer de Corumbá para Campo Grande, não justifica colocar ele na estrada, vai matar esse paciente, você tem que trazer ele de avião.
Existe também a possibilidade de um helicóptero do convênio com a Polícia Rodoviária Federal, que tem helicópteros que podem ser adaptados para saúde, para ambulância, para fazer o transporte. Só que o helicóptero tem um raio de ação menor do que o de um avião.
MSREPÓRTER: E a utilização de motos, como é feita em outras cidades?
Nós temos em Campo Grande, duas motos, que nós não operalizamos. Só que a moto em Campo Grande não se justifica, tem que mandar sempre duas, porque se o médico chegar sozinho não adianta e de moto não dá para levar para o hospital. A moto é mais ágil no trânsito, mas faz diferença em um trânsito como São Paulo. Lá, eles usam as duas motos, uma ambulância básica e uma camionete. Mas, em Campo Grande a gente não tem engarrafamento, apesar de ter alguns horários com trânsito difícil. Até foi feito o treinamento com o Samu daqui, porque não é fácil pilotar moto em situação de emergência, foram 15 dias de treinamento. Mas para Campo Grande não precisa.
MSREPÓRTER: E quais os projetos futuros?
Vamos participar da implantação do Samu Estadual. Até porque tenho curso de transporte aeromédico. Mas, por enquanto, eu vou fazer ambulância que isso eu não dispenso, essa adrenalina. Enquanto eu tiver estrutura física para aguentar, vou fazer ambulância. E esperar que projeto Força Nacional de Emergência Médica seja mesmo implantado.
Adriana Oliveira
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