De Dois Irmãos do Buriti para o Brasil. O primeiro Rei Momo anão do país é sul-mato-grossense e lança um olhar que mistura simpatia e timidez aos que chegam a sua casa na Vila Vilma, região Oeste de Campo Grande.
Aos 31 anos, Messias Alves de Lima sonha em comprar uma casa, participar do reality show Big Brother Brasil e trabalhar na televisão. Com 1,30m de altura, a faixa de Rei Momo que recebeu no dia 25 de janeiro ficou grande e se arrasta pelo chão. O sorriso no rosto traduz a emoção e a alegria de ter conquistado o título de Rei do Carnaval de Campo Grande 2012.
Nascido no interior do Estado, em Dois Irmãos do Buriti, Messias surpreende a todos com muito samba no pé. Em entrevista ao MSREPÓRTER, ele fala como foi enfrentar o preconceito e os desafios da vida.
MSREPÓRTER: Quando veio para Campo Grande?
Vim para Campo Grande em 2005. Morei de 1980 até 1990 em Dois Irmãos do Buriti, depois fui embora para Dourados e fiquei lá até 1997. Depois, voltei para Dois Irmãos do Buriti, porque minha avó estava sozinha.
Meu pai e minha mãe moram ainda em Dois Irmãos do Buriti. Em 2005, apareceu uma oportunidade de trabalhar na Casa do Papai Noel. O Luis Pedro Calisto estava precisando de sete anões, mas conseguiu quatro, e no fim ficaram três. E foi através da Casa do Papai Noel que eu entrei no aeroporto e já tem seis anos que estou aqui.
MSREPÓRTER: Como foi sua infância em Dois Irmãos do Buriti?
Na escola, eu sentia muito preconceito. Sentava na cadeira e os meus pés ficavam balançando, o pessoal tirava sarro por causa disso, por causa do meu tamanho. Meu pai me levou na psicóloga e eu fui aprendendo. Muitas vezes era eu que sentia preconceito contra eu mesmo.
Terminei o segundo grau completo e comecei a trabalhar em um restaurante de garçom. Trabalhei por oito anos nesse restaurante em Dois Irmãos do Buriti. Foi uma dificuldade muito grande para conseguir esse emprego, por causa do preconceito. Às vezes, a pessoa olha para um anão e acha que ele não tem capacidade de trabalhar.
A primeira porta que se abriu foi nesse restaurante e hoje para mim eles são uma família. São minha segunda mãe e segundo pai, se não fossem eles, eu não sei o que seria de mim. Foram eles que me ajudaram a terminar o segundo grau.
Eu não tinha condições de comprar livros e foram eles que compraram tudo, eles são muito especiais. Eles sabem que ganhei o prêmio, já me ligaram e estão felizes. Jamais eu vou esquecer dessa família, onde eu estiver eles vão estar dentro do meu coração.
MSREPÓRTER: E os seus pais, já sabem que você é o Rei Momo?
Meu pai e minha mãe não são fanáticos de Carnaval porque eles são evangélicos. Respeito a religião e já fui evangélico também. Mas mesmo assim, eu não bebo, não fumo, nunca dei trabalho para os meus pais. Eles sabem que desde os meus 13 anos, o meu sonho é ser um artista de televisão. Meu primeiro sonho é ir para o Big Brother e o segundo sonho é ter minha própria casa e ajudar meus pais.
MSREPÓRTER: Seus pais são anões?
Meus pais não são anões e têm só eu. Sou filho único e me sinto muito orgulhoso de ser assim.
MSREPÓRTER: O que você faz atualmente?
Há seis anos, sou auxiliar de aeroporto na Gol. Entrei através de um amigo meu e através da oportunidade para pessoas especiais.
MSREPÓRTER: Sempre gostou de samba?
Sempre gostei de samba, sempre participei de vários concursos de dança, desfiles. Não tenho vergonha. Sempre falo que só de você subir no palco, você já é um campeão, já é um vencedor, não importa se você perder ou ganhar.
MSREPÓRTER: Como surgiu o interesse de participar do concurso de Rei Momo?
No ano passado, uma amiga minha, a Patrícia, que trabalha no aeroporto, me deu essa ideia. Fui procurar, mas já tinha encerrado a inscrição. Neste ano, ela pediu de novo, parecia que tava tocando no coração dela, porque ela tinha muita confiança que eu ia ganhar.
Depois que ganhei, agradeci, coloquei a faixa nela. Eu falei para ela: essa vitória não é minha, é sua também porque você teve muita confiança. Através dela que eu me inscrevi e fui lá sambei com tudo.
Para falar a verdade eu não preparei nada, na hora que eu subi no palco eu não esperava torcida, não esperava tudo aquilo. Tinham alguns amigos meus, mas a chuva atrapalhou um pouco, mas tive o apoio de muita gente e aí eu entrei com tudo.
Falaram que o Rei Momo tinha que ser gordo, então eu pensei que essa vitória não vai ser minha. Mas depois um dos candidatos a rei momo chegou a me dar parabéns e disse que eu merecia o prêmio.
MSREPÓRTER: O que mudou na sua vida depois que ganhou esse prêmio?
Para mim assim, não mudou nada, porque eu sempre vou ser a mesma pessoa, sempre simpático e humilde com as pessoas, porque não adianta nada você ganhar e você não falar com as pessoas e se achar. Eu acho errado isso, porque você não sabe o dia de amanhã, então você tem que ser a mesma pessoa.
Agora tem muita alegria, muita emoção, o pessoal no aeroporto me dando parabéns, os passageiros me reconhecem. Esses dias um dos passageiros falou que a minha história já está em Santa Catarina, minha gerente ficou contente também porque ela sabe da vontade que tenho de realizar esse sonho. Eu não esperava tanta fama, todo dia reportagem, todo dia entrevista.
MSREPÓRTER: Quais os planos para o futuro?
Mostrar samba no pé na avenida. Hoje, eu sendo o primeiro rei momo anão do Brasil espero que possa ir para outros lugares no Carnaval, nas escolas de samba. Cumpri os compromissos como rei momo, mostrando samba, alegria e simpatia. Aonde tiver evento da Fundação de Cultura e precisar do rei momo eu vou.
Meu sonho é ir para o Big Brother e ter minha própria casa porque eu moro de aluguel há seis anos, já fiz inscrição na Agehab e na Ehma, mas é difícil conseguir. Eu quero para o Big Brother, ver se eu consigo trabalhar em televisão mesmo, no programa do Didi ou qualquer programa e ajudar meus pais.
MSREPÓRTER: Gostaria de deixar um recado para pessoas que tem alguma limitação?
Tenho uma colega que também é anã, que é a Kátia, ela sempre participa de eventos comigo, estava na Cidade do Natal também, mas é meio tímida. Então queria dizer, tanto para as pessoas grandes, como para as pessoas baixas, que não tenham vergonha, não importa se alguém tira sarro, mostra que você tem seu talento no palco ou em qualquer lugar. Muitas vezes você mesmo é que tem o preconceito dentro de você. Mostre o que você sabe, deixem que as pessoas falem.
Adriana Oliveira
Leia Também
Detran de Mato Grosso do Sul passa a oferecer opção de CNH exclusivamente digital
Equipamentos e 522 viaturas:
Projeto de IA do Detran-MS
Foto: Gabriel Olímpio