Ela não é autoridade, não é do ramo da política, não é artista. No entanto, Renata Leal também tem uma história para contar, por ser Mais Forte Que O Câncer. Mulher guerreira, exemplo de fé, otimismo e determinação para os que estão na luta contra a doença. Por meio do seu blog divide histórias e experiências com o mundo.
Renata tem 30 anos, é chefe de cozinha e tem seu próprio negócio na Capital, mas no momento se dedica somente ao seu tratamento. Sempre gostou de gastronomia e chegou a fazer uma especialização na Itália. Mas quando retornou ao Brasil descobriu que tinha câncer. Desde então, além de enfrentar dias difíceis, ela ajuda diversas pessoas que têm a mesma doença, através das suas postagens em seu blog.
Nascida em Presidente Prudente, já morou em Rondonópolis/MT e também em Coxim, cidade da região norte de MS. Atualmente mora com seu esposo e seu filho de quatros anos em Campo Grande.
Forte e com boa aparência, na entrevista ao MSREPÓRTER, a empresária conta como descobriu a doença, qual a reação da família, o que mudou em sua rotina e como é lidar com a doença e ir de 15 em 15 dias para seu tratamento em São Paulo.
MSREPÓRTER: Como você descobriu que estava doente?
Eu fui para Itália me especializar em massas e gastronomia italiana. No dia que viajei eu tive uma febre muito alta no vôo e achei que era emocional. Eu estava até tremendo. Liguei pra minha mãe e ela disse que era de nervoso. Nessa hora eu estava em São Paulo. Eu achei que tinha pegado alguma gripe por causa do ar condicionado do avião. Cheguei à Itália e acabei desencanando e a febre foi passando. Os primeiros dias foram tranquilos, mas depois eu tive uma enxaqueca muito forte e comecei a perceber que todo dia que eu deitava e relaxava, sentia uma dor, um incômodo, durante a noite.
Eu fiquei um mês lá fazendo o curso e voltei pra Campo Grande em agosto de 2009. E ainda enrolei para fazer um exame. Eu tinha acabado de terminar com meu “namorido”. Depois a gente acabou voltando, mas mesmo assim eu ia voltar pra lá (Itália). Só que eu comecei a sentir dor novamente. Até que um dia eu acordei de madrugada com uma dor muito forte e falei que tinha alguma coisa errada. No outro dia liguei pro meu irmão e ele marcou um gastro.
No começo me falaram que era vesícula e várias coisas, mas a única coisa que não passava pela minha cabeça e nem a do médico é que poderia ser tumor. Em seguida eu fui fazer um ultra-som e lá a funcionária já viu. Só que ela não podia me falar nada, mas pela cara dela eu vi que não era boa coisa. Ela começou a me apertar e perguntar se eu tava com dor nas costas e quando eu ia fazer endoscopia. Eu falei pra ela o que estava acontecendo e a resposta foi que tinha que perguntar para meu médico. Eu já tinha marcado a endoscopia pra sexta-feira, mas como eu queria que ela me falasse, eu falei que ia viajar e só ia fazer na semana que vem. Ai ela disse: não, você é nova e pode viajar depois. Você tem que fazer a endoscopia. Me veio à cabeça que tinha algo errado.
Sai de lá chorando. Eu não tinha nem entrado no carro, recebi a ligação do consultório do médico e a secretária pediu que eu fosse lá no dia seguinte com a minha família. Eu disse que não ia esperar e queria falar com o médico na hora. Passaram uns minutos, ele me ligou. E disse que nem poderia falar por telefone, mas como eu estava muito nervosa, ele ia conversar. Ele contou que realmente tinha achado uns tumores no meu corpo e que eu teria que começar fazer uns exames. Na hora tomei um susto muito grande e fui direto para casa da minha sogra e pedi uma oração porque não sabia como contar para minha mãe.
MSREPÓRTER: E como foi a reação da sua família. Como você contou para sua mãe?
Quando eu cheguei em casa, eu ia subir e contar pra ela no quarto, mas não sei se ela sentiu alguma coisa, mas veio ao meu encontro e viu que meu olho estava vermelho de chorar e já chegou perguntado apavorada o que estava acontecendo. Eu nervosa falei: estou cheia de tumor no corpo e estou morrendo.
No dia seguinte, meu irmão que é médico, foi com a gente no gastro. Chegando lá, ele explicou que no meu fígado tinha 30 tumores e que tinha que descobrir se era benigno ou maligno. Eu fiz tudo quanto foi tipo de exame que você imaginar. Fui nos médicos daqui e eles falaram pro meu pai que eu tinha três meses de vida. Foi um desespero. Em seguida eu fui pra São Paulo no Sírio e foi uma luta pra achar qual era o foco. Porque o tumor só pode ser tratado quando você acha o foco dele.
MSREPÓRTER: E como descobriam qual o tipo do tumor e qual o foco?
Todo mundo falava que era secundário, mas eu nem entendia o que era. E eu perguntei pro meu irmão se secundário era metástase. E pronto, pensei vou morrer! Na minha cabeça, a pessoa tinha metástase morria. Eu fiquei acabada.
E em seguida descobriram que ele nasceu no pâncreas e depois ele se espalhou e sumiu. Então eles não achavam o foco. Eu fiz um exame em SP que chama PET scan (mapeamento de diferentes substâncias químicas no organismo) e foi assim que acharam o foco. Eles identificaram que o tumor tinha nascido no pâncreas, em seguida foi para o fígado, depois para coluna e atingiu os linfonodos e eu fiz a biópsia por um linfonodos no pescoço. Logo depois eu já comecei a tratar em setembro de 2009. Fiz um ciclo de 12 quimioterapias, fiz a radioterapia em Campo Grande, que não adiantou.
Quando voltei pra São Paulo fiquei dois meses sem tomar a quimio até para ver como seria a reação sem a medicação. Mas acabou voltando no fígado, que já tinha sumido todos. E eu tive que começar as sessões de quimioterapia tudo de novo. Agora eu já estou na oitava sessão.
MSREPÓRTER: Como e onde é feito seu tratamento?
Eu vou para São Paulo de 15 em 15 dias. Vou sempre na madrugada de domingo pra segunda. Chego de lá de manhã e vou direto para o hospital. Tem uma consulta e logo depois eu vou tomar a quimioterapia durante 6 horas.
Quando acaba, eu vou para casa com um infusor, um parelho que fica ligado em mim 40 horas. Eu tenho que ficar em SP por dois dias e cada vez é pior, vai sobrecarregando meu corpo. Na terça e na quarta eu vou de manhã pro hospital para tomar uma hidratação, um soro para combater o enjôo. Minha mãe sempre me acompanha. Fico na casa de uma prima, que fica pertinho do hospital. Depois que acabar essas 10 sessões, vou refazer os exames e saber como está minha situação, se vai precisar de mais quimioterapia ou de radioterapia. E assim vai indo. Se tiver tudo bem, eu vou refazendo os exames e acompanhando.
MSREPÓRTER: Esse processo quinzenal cria uma certa ansiedade. Como é sua reação psicológica na antes e depois da quimioterapia?
Eu não sinto dor mais. Eu esqueço que estou doente. Eu vou lembrar na sexta-feira de manhã, que eu tenho que fazer exame de sangue. Aí já começa a tensão. Eu passo sexta, sábado e domingo numa pilha. No domingo já choro o dia inteiro, fico agoniada e bem nervosa, porque eu sei que vou passar por tudo aquilo de novo na segunda.
Eu falo sempre que tenho uma TPQ (Tensão Pré Quimio). Porque toda vez que eu vou para SP é pior. Tem hora que dá vontade de desistir. O corpo chega uma hora que fala: Pelo amor de Deus chega, é muito veneno. Essa última foi a pior. Eles até me deram uma semana para meu corpo ganhar mais uma forcinha.
Eu peguei pânico de avião, eu tenho medo de ir, mas eu vou orando de Campo Grande até lá. Mas no meu dia-a-dia eu até esqueço. A hora que o avião pousa aqui, eu sinto uma alívio. Meu filho geralmente me busca no aeroporto. Então já muda o humor, melhora tudo, até meu apetite.
MSREPÓRTER: E o que mudou na sua rotina? Você continua trabalhando no restaurante?
Eu estou bem parada. Mas pretendo voltar pro restaurante porque minha família está precisando de mim. A parte de massas é minha e é sempre bom estar lá. Seria bom também para ocupar minha cabeça.
MSREPÓRTER: E o que você faz no seu tempo vago, sem trabalhar?
Eu vou correr, tomar tereré e na academia. Na época que eu fazia radioterapia, não podia nem andar de carro, por causa dos buracos, porque como o tumor era na coluna, ficava muito sensível. Mas agora eu estou liberada para fazer atividade física. Meu médico disse que é pra ir de acordo com que meu corpo aguentar. Eu sempre gostei muito de malhar, pegar peso e correr.
MSREPÓRTER: Você tentou fazer alguma faculdade ou sempre gostou de gastronomia?
Eu sempre gostei de mexer com comida. Teve uma época que comecei a fazer psicologia, mas não me formei. Fiquei grávida. Nesse período ainda fiz um pouco, mas depois eu parei porque eu fui ter o João Gabriel. Depois eu transferi da UCDB pra Uniderp. Mas a grade mudou toda, então eu perdi uns dois anos. E acabei desistindo da psicologia.
MSREPÓRTER: Como surgiu a ideia de criar o blog “Mais forte que o Câncer?
Então foi uma bobeira. Eu estava em casa um dia e como eu gosto muito de escrever e sou muito aberta, eu criei. O intuito no começo era encontrar pessoas que tivessem passando por aquilo que eu estou, para trocar ideias e informações.
MSREPÓRTER: Mas o blog teve grande repercussão e é visitado por muitas pessoas. Você esperava tudo isso?
Tomou uma proporção tão grande, que eu não esperava. Já tem mais de 70 mil acessos. Eu recebo recados todos os dias. Tem gente que me manda mensagem diariamente e o povo me cobra. Tem vez que eu estou mal, não quero escrever e eles mandam perguntando se está tudo bem, por que não estou postando? Por conta do blog, eu fiz muitas amizades no mundo inteiro e a gente troca experiências. Fiz muitas amigas que falo diariamente. As pessoas me adicionam nas redes sociais.
MSREPÓRTER: Qual a importância dessas experiências hoje para você?
Esses tempos atrás eu cheguei da quimioterapia e no primeiro dia eu fico com um gosto horrível na boca e nada sai. E coloquei pelo amor de Deus alguém sabe de algo que tire esse gosto ruim? Nossa bombou de comentários. Uns falando para tomar sorvete de limão, outros para chupar geladinho, bala de gengibre e várias outras dicas.
O câncer virou gripe, quem não tem, conhece alguém que teve e essa pessoa pode ajudar a outra. As pessoas me perguntam muito no blog. Eu acho que consigo ajudar de uma forma ou de outra.
MSREPÓRTER: Você recebe vários comentários todos os dias. São sempre positivos e você tem o hábito de respondê-los?
Sempre positivo. Teve até uma menina essa semana que me perguntou por que eu não respondia os recados dela. Mas eu expliquei que eu não respondo nunca, pelo fato de serem muitos e também não conseguir responder todos pelo blog. Eu sempre aceito as mensagens.
Só teve uma vez que eu estava muito mal e eu coloco tudo o que estou sentindo. E teve um dia que eu falei que queria desistir, que não aguentava mais. E uma pessoa entrou no blog e comentou que como eu tinha condições de me tratar, tinha que erguer as mãos pro céu e parar de reclamar. Eu fiquei indignada com o comentário, porque ela falou muita coisa. Meu irmão se revoltou com aquilo e me mandou um email respondendo essa pessoa. E eu pedi pra ele deixar eu publicar, e postei. Esse recado negativo foi o único que eu apaguei.
MSREPÓRTER: E a sua família sempre te apoiou? Teve uma postagem no blog em que você escreve que teve o lado bom de tudo isso. Você se refere a quê?
Minha família se aproximou muito depois da minha doença, se uniu muito. Nós somos em seis irmãos e a gente sempre foi muito unido, mas agora somos mais próximos. Eu tinha um relacionamento com o Zé (esposo) de anos de idas e voltas, bem coisa de adolescente. E nós dois tomamos uma "acorda" com isso, principalmente por causa do meu filho também. Agora nós já vamos fazer treze anos juntos. Todo mundo cresceu muito. Eu sempre fui muito imatura, não dava valor na vida, nas pessoas. Era até um pouco egoísta, só pensava em mim. Até em relação as minha amigas que vinham conversar comigo, contar os problemas e eu não dava muita atenção. E hoje, eu dou muito mais valor em tudo.
MSREPÓRTER: E de onde você tira tanta força?
O que me dá força são meus amigos, minha família. É acordar todo dia de manhã e ver o João Gabriel e pensar que vou lutar por ele ou daqui uns dias meu filho vai ficar sem mãe. Ele precisa de mim.
MSREPÓRTER: Você chegou casar na igreja ou tem esse sonho?
Na época a gente estava conversando em morar junto ou casar, mas eu descobri a doença. Nós conversamos e eu falei que não ia casar. Porque eu quero casar com festa, e estando bem. E nós fomos morar juntos e foi a melhor coisa para os dois e para meu filho.
MSREPÓRTER: No blog você fala muito de Deus, você é de qual religião?
Minha família é toda católica. Mas eu sou evangélica já tem uns 10 anos. Eu comecei a ir na igreja por causa da minha sogra. Mas ia de vez em quando e teve uma época que dei uma afastada. Mas quando vem algo difícil, a gente sempre pede socorro pra Deus. E hoje eu só tenho a agradecer, porque Deus fez um bem muito grande na minha vida, mudou tudo. Tudo tem o dedinho dele, minha família mudou, eu mudei e me considero uma pessoa muito mais feliz, por incrível que pareça.
MSREPÓRTER: Como foi a fase que seu cabelo começou a cair?
Meu cabelo caiu e ficou ralinho aqui atrás. Eu não cheguei a raspar a cabeça, porque não tive coragem. Meu cabelo batia no cós da calça antes da doença. Eu fui e cortei chanel e deixei ele cair naturalmente. Depois que cortei, ele caiu em dois dias, caia na mão, caia tudo. Foi no dia do meu chá de casa nova. Eu chorava, chorava. Meu marido tava em casa e eu fiquei desesperada. Eu desabei aquele dia. A partir daí eu comecei a usar boné, lenço. Primeiro eu comprei uma peruca, mas não deu muito certo, eu não me adaptei com ela. Depois eu cheguei a colocar aplique.
MSREPÓRTER: E nesse período, você encontrou algum tipo de preconceito por causa da doença?
Nesse tempo que usei lenço as pessoas olham com pena mesmo. Principalmente no restaurante, elas olhavam e acho que pensavam: coitada tão nova. Mas só quem não conhecia. No meu dia-a-dia não, porque elas estão acostumadas. A minha pior parte eu sempre estou em São Paulo, então ninguém vê. As minhas amigas falam que nem lembram que estou doente.
As pessoas dão bastante furo também. Sempre tem um que fala que fulano morreu e todo mundo conversa e pergunta do quê, e a pessoa responde que foi de câncer. Têm muitos amigos que ficam sem graça, com vergonha, disfarçam. Mas eu levo tudo na brincadeira. Não é porque fulano morreu, que eu vou morrer também. É óbvio que isso passa pela minha cabeça, mas eu também não posso levar tudo a sério. Eu ganhei um bonequinho da AACC, e meu filho fala que sou eu e a gente morre de rir. Ou passa algum careca e eu falo: olha lá igual era a mamãe. Se você mesmo tirar sarro dos seus problemas, a vida fica muito mais leve.
MSREPÓRTER: Seu filho tem apenas quatro anos. E como ele reage a tudo isso?
No dia que eu cortei o cabelo, cheguei em casa, quando ele me viu de cabelo curto, começou a chorar e não vinha perto de mim de jeito nenhum. Ele entrou em baixo da mesa e não queria sair, chorava de sofrido sabe e eu lembro que eu desabei. Com muito custo ele veio perto de mim e disse que não gostou do meu cabelo, que queria que eu voltasse como antes. E aquele dia eu expliquei de novo pra ele que eu estava dodói e o cabelo da mamãe ia cair. Ele disse se ia ser igual ao de neném. Eu falei para ele que eu tomava remédios muito fortes e quando começasse a crescer era porque eu estava sarando. Mas ele agora está muito tranquilo. O Gabriel é muito inteligente e participa de tudo. Ele até acha o máximo que eu vou para SP, porque toda vez eu trago um presente pra ele.
MSREPÓRTER: Como você avalia o tratamento de quem depende da saúde pública?
É muito difícil, eu vejo pelos dias que eu fiquei aqui. Eu tenho uma injeção (granulokine) que tenho tomar e é muito cara, mas eu consegui pelo governo. Ela é para levantar minha resistência e como eu estou com resistência alta, eles não querem me dar a medicação. Só que se baixar eu não consigo tomar a quimioterapia. E aqui em Campo Grande para comprar é muito cara, deve estar em média R$ 3 mil e até para comprar eu tenho dificuldade, porque é difícil de achar.
Tem uma injeção (clequisane) que eu tenho que tomar todos os dias e não consegui pegar pelo governo. A gente vai ter que entrar na justiça agora para conseguir. Essa é para não me dar trombose, que eu já tive durante o tratamento bem no começo.
Até entramos na justiça para conseguir. Realmente é difícil para quem tem condições, imagina para quem não tem.
MSREPÓRTER: E qual a mensagem final que você deixa depois de toda essa lição de vida?
Para quem está passando por isso, a primeira coisa é aceitar, que aquilo é um fato. E tem duas escolhas quando está doente. Uma é se entregrar, e você vai acabar morrendo realmente. A outra é você lutar e viver. Eu acordo e agradeço todos os dias pela minha cura. Você tem que acreditar que você vai conseguir. É uma luta diária, mas eu escolhi viver.
Quem quiser conhecer o blog: http://renataleal2011.blogspot.com/
Karla Lyara
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