Diante da fama de Capital com cara de cidade do interior, Campo Grande conquistou o coração do mineiro Ricardo, que optou por viver de uma arte pouco explorada na nossa região: a mágica. Rick Thibau, que também é jornalista, nasceu em Belo Horizonte, e veio para Mato Grosso do Sul com os pais e o irmão, aos 11 anos de idade. Desde então, o mágico constrói sua história com idas e vindas, pois costuma viajar pelo mundo em busca de conhecimento e espalhando surpresas com seus números de adivinhações por onde passa.
Ele é membro da Sociedade Mágica do Brasil, afiliada à Federação Latino-Americana de Sociedades Mágicas, e conquistou o 1º lugar no campeonato de close up/mágicas de mesa do Congresso Brasileiro de Mágicos (em 2006). Thibau atua como jurado de competições mágicas e intérprete de conferencistas internacionais, e sempre procura participar dos mais importantes congressos na sua área, como a Blackpool Magic Convention (maior congresso mágico do mundo, Inglaterra) e o Congresso Argentino de Ilusionismo.
Casado com a atriz, não menos talentosa, Aline Duenha, ele vive da arte enfrentando todos os desafios pelo amor ao que faz. Com simplicidade, mesmo sendo respeitado e admirado por todos que conhecem o seu trabalho, Thibau disse no fim da entrevista: “Quero pedir desculpas pra você e pra pessoa que tiver paciência de ler esta entrevista, porque não sou a pessoa mais objetiva do mundo”, no entanto, nisto não surpreendeu, pois um mágico sem subjetividade seria, então, um mágico pela metade, sem a alma do artista.
MSREPÓRTER: Como começou seu interesse pela arte e pela mágica?
Há oito anos trabalho só com mágica. Mas, antes de trabalhar com mágica, já estava envolvido com arte. Eu trabalhava com música, e era baterista de uma banda de heavy metal. Eu tocava e dava aula de bateria, já tinha um sonho com a arte. Eu tinha uns 22 anos quando comecei a trabalhar com mágica, sendo que tinha começado a estudar na área com uns 20. Eu ainda estava na faculdade de jornalismo e tranquei o curso por um ano, período em que morei fora do Brasil, em Londres. Eu fui para lá com a ideia de trabalhar com a banda, que é uma banda daqui, mas que tinha um trabalho para ser reconhecido no exterior.
Trabalhei pouco tempo com essa banda. A gente foi pra lançar disco e fazer umas apresentações de heavy metal na Europa. Depois de dois meses que cheguei lá, eu já estava trabalhando com mágica. Porque quando eu fui pra Londres eu já fui com a cabeça de quem ia chegar em um lugar que é referência pra mágica. Então eu aproveitei desde a minha primeira semana lá, e fui nas lojas, congressos, e em pouco tempo comecei a trabalhar. Nessa época foi que eu me profissionalizei. Eu passei por uma situação em que eu tinha que pagar minhas contas, e não sabia quanto tempo eu ia ficar fora de casa. Então, comecei a trabalhar com o que eu mais tinha prazer. Então pensei: Vou encarar, vou voltar pro Brasil e vou continuar a trabalhar com mágica.
MSREPÓRTER: Você utiliza os conhecimentos que adquiriu na faculdade de jornalismo na sua profissão atual?
Eu me formei em jornalismo, sou comunicólogo e hoje, finalmente eu estou sentindo que ter escolhido a comunicação, ter feito o curso, está me fazendo um bem danado, principalmente por causa do mentalismo, que é um pedaço da mágica trata mais com axiomas (proposições que não são provadas ou demonstradas) clássicos que tratam que a mente é tudo, e a psicologia, comunicação e etc. Então estou vendo que eu sou um mentalista, com uma ligação muito forte com a comunicação.
Uso este conhecimento como um diferencial, também fora o óbvio, que estar por dentro do meu material promocional, todo tipo de divulgação, estar em contato com a imprensa. Eu mesmo faço meus contatos, não tem nenhum agente marcando nada pra mim. Eu trabalho completamente sozinho, então tem um lado que o jornalismo, especificamente aquela coisa do vídeo repórter, é uma coisa que sobrepõe, a gente separa, mas no fundo está tudo unido.
MSREPÓRTER: Quais foram os maiores desafios que enfrentou desde que escolheu viver da mágica?
Cada fase tem um conflito, no começo foi me acostumar com os fundamentos, com a base da arte, se é que se pode falar assim. Porque na verdade, é você entender porque aquilo funciona e como aquilo funciona. E então, os primeiros cinco anos, seis anos, são pra entender as diversas linguagens que têm dentro da arte e fazer um pouco de tudo. São diversas as áreas, manipulação, magia cômica, mentalismo, cartomagia, mágica com moedas, então é o close up dessas coisas com objetos pequenos, até isso virar algo maior, para ser apresentado para plateias grandes.
Hoje, tenho minhas preferências, não estou mais cru no barco, mas o primeiro conflito foi esse. O próximo conflito é trabalhar mesmo, viver aquilo, ser profissional da mágica. Especificamente aqui em Campo Grande, não ter um mercado estabelecido. Então, em quase todas as vezes que eu vou vender um espetáculo, eu tenho que explicar, e é minha parte também, educar um pouco o mercado e oferecer. E tem outro ponto, como você não tem muita concorrência, as pessoas não têm base para saber se o seu trabalho é legal ou não. Às vezes, você faz coisas fantásticas e as pessoas não dão muito valor, outras vezes, você faz apresentações medianas, e todo mundo pira. O mais ou menos, não é por querer, mas erros acontecem, ou o despreparo para uma situação única, porque cada apresentação é uma apresentação única.
MSREPÓRTER: Como você lida com o erro e qual seu conflito hoje?
Quando acontece um imprevisto, e é a primeira vez, é uma coisa muito maluca, então você fica travado mesmo. Mas, depois não, você vai aprendendo a lidar com as piores situações. Hoje o conflito é a estabilidade. Trabalhar sem ter noção de quanto vai ter no final do mês. Tem mês que é muito legal, tem mês que não é. E você fica dependente disso. Aqui em Campo Grande as coisas estão mudando, mas tem mês que não tem muitas apresentações, e eu vou para Minas Gerais, Rio Grande do Sul, São Paulo e aproveito se tiver congressos, e trabalho fora. Afinal, o pedreiro todo dia vai lá e assenta o tijolo, faz aquela construção ir pra frente. Todo profissional tem que estar em contato com a sua arte, com o seu trabalho.
Quando eu tenho uma fase de parêntese de apresentação em Campo Grande, eu saio, vou trabalhar onde querem me pagar e querem me assistir, então esse posso dizer que é o conflito de agora. Há oito anos que estou trabalhando com mágica, e desde 2005 em Campo Grande, não tem um ano que eu não tenha que sair de casa.
MSREPÓRTER: O que essas viagens representam na sua carreira? Pretende sair de Campo Grande?
Eu sempre viajo pra várias cidades, Rio, São Paulo, Curitiba, e todo ano vou pra algum congresso. Sempre nesse esquema, de ter uma fase com mais oportunidade fora, e ir. Não penso duas vezes. Primeiro porque eu preciso me formar e quero poder oferecer o melhor pra plateia, mas pra isso eu também preciso de uma plateia. Mas, aproveito muito a qualidade de vida daqui de Campo Grande, quero continuar morando aqui. Se algum dia for embora, não é o que tenho na cabeça agora. Todo mundo tem dificuldades no trabalho, minha dificuldade é essa, minha situação é que estou em um lugar onde o que eu faço ainda não é totalmente popular, ou eu não estou com uma marca estabelecida. Mas, é aquela coisa, “santo de casa não faz milagre”.
Estou curtindo também enfrentar esses desafios, nessa circunstância, é prazeroso, estar em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. Eu fui pra argentina agora e todo mundo que viu o material da tenda (projeto Tenda das Adivinhações) gostou muito. Muita gente já tinha visto, mandado apoio pela internet, mas quem não tinha visto ficou admirado. Tem gente que está nos grandes mercados, em Las Vegas, Argentina, onde as coisas são bem avançadas em termos estruturais, mas não tem o tempo e tranquilidade pra digerir um trabalho e criar uma coisa original, e acabam ficando expostos às referências diversas, copiando muito.
MSREPÓRTER: Você tem profissionais em quem se inspira ou costuma estudar junto de outros mentalistas?
Aqui há pouquíssimos mentores. Os da minha área já morreram. Então, eu tenho contato com alguns outros profissionais de fora na internet, e tenho livros e livros, uma biblioteca grande. Então, quando não tem apresentação, eu estudo bastante também. Não paro de estudar e procurar coisas novas. Eu acabo ficando protegido também dessa desvantagem que tem no mercado estabelecido, que é excesso de cópias, trabalho pouco original e o mercado apertado, porque em São Paulo mesmo, tem mágicos excelentes, tenho vários amigos que trabalham lá, e têm outros que cobram R$ 200,00 por um espetáculo pra empresa. E, para ele oferecer o serviço que ele quer oferecer, o produto que ele quer oferecer, por esse preço, 200 reais, não paga nem o trabalho promocional. É complicado, são outros problemas que quem está fora daqui enfrenta.
MSREPÓRTER: Hoje você vê mais vantagem ou desvantagem em trabalhar com a arte em Campo Grande?
Eu hoje estou lidando mais com as vantagens do que com as desvantagens de trabalhar aqui. Porque até essas desvantagens, pra mim, trazem um certo conforto. Por exemplo, se eu tivesse em um lugar que eu não pudesse sair pra rua, como tenho colegas que estão nesse nível trabalhando em um mercado estabelecido. Seria uma dificuldade, pois todo mundo quer ver uma mágica, que ficar cumprimentando, então o profissional perde um pouco da vida social. Em Campo Grande todo mundo é tranquilo. As pessoas estão mais preocupadas consigo mesmas, pra ficar interrompendo o outro, e não tem essa coisa de vibrar muito. Tem um lance muito bonito aqui, que é o lance de humildade, simplicidade. Isso traz qualidade de vida mesmo. A gente não está com um município, um Estado, preparado para o que está vindo, mas a gente está indo, aos poucos cumprindo. Todas as classes de profissionais estão mais esclarecidas e obrigadas a apertar mais o passo, porque o mundo está globalizado mesmo.
MSREPÓRTER: Quais são seus planos para os próximos meses dentro da profissão?
Eu estou com alguns projetos interessantes. Um deles, é uma série de apresentações no interior. Eu já fiz pouquíssimas apresentações no interior e a maioria delas foi para empresas e clientes particulares. Agora que eu estou com o espetáculo da Tenda e meu solo de mentalismo, a primeira cidade na qual vou apresentar é Camapuã. A partir de Camapuã, imagino assim, não posso adiantar as cidades, devo ir a outras cidades, de 12 a 16 lugares no primeiro semestre. Vou colocar no Fic (programa de investimento em cultura do governo estadual), pra circular a Tenda, porque é difícil de auto produzir, custa dinheiro levantar a Tenda. Não é um espetáculo simples de vender, então é o que estou fazendo, inscrevendo nos festivais, amadurecendo roteiro, estrutura. E neste ano, estou remontando o meu ato de mentalismo.
Tem pouquíssimos mentalistas no mundo, e o ato de mentalismo é a interpretação pessoal daquele artista para os efeitos clássicos da parapsicologia, então cada mentalista vai ter uma solução, pra vários problemas: como você interpreta o que alguém vai dizer, como você prevê o que vai acontecer amanhã, são os problemas clássicos paranormais digamos. Eu estou há muito tempo com o show, melhorando no papel, e é muito difícil colocar em prática algumas coisas. Este ano estou muito feliz, eu já consegui ter mais sucesso com muitas coisas que eu estava estudando. Não é uma coisa certeira, você pode errar, e pode errar muito. Agora estou ficando mais seguro com alguns efeitos que são bem possíveis e que eu acho que não tem mais ninguém fazendo no mundo. Então é o que vai me dar oportunidade de viajar, tenho contato nos EUA, Inglaterra, e vamos ver se esse ano consigo começar a desenvolver o que eu vou fazer para o resto da vida, a coisa de composição.
MSREPÓRTER: Qual seguimento da mágica que mais te atrai?
Eu sempre me foquei mais no mentalismo, agora estou com baralho na mão, eu fico com o baralho na mão por vício, distração, mas desde 2004 que decidi que ia estudar as outras coisas pra me desenvolver, porque é importante ter uma diversidade de ferramenta pra depois começar a se especializar numa área, mas o mentalismo é o que eu mais amo, e o que eu estou mais estudando. Desde 2004 que eu estudo bastante, mas tem dois ou três anos que fixei em autores principais e pesquiso quem mais está fazendo isso pelo mundo, os que ainda estão vivos.
Mentalismo não é exatamente mágica, mas são atos que andam bem de mãos dadas, porque quando elas se afastam muito, quando o mentalista se afasta muito da mágica ele vira um charlatão mesmo, e quando o mágico se afasta muito do mentalista, ele deixa de ser mágico, porque o efeito está no impossível. Mas o mentalismo é aceito como dentro da mágica, com alguma linguagem ainda plausível, se alguém levantar o carro, você sabe que tem algum truque pra fazer um carro levitar. Agora, se alguém chega e diz que vai acontecer uma coisa, e no outro dia acontece, você pode falar que aquela pessoa é um vidente. Apesar de ser plausível, é impossível, não faz sentido logicamente, mas é algo bem intuitivo. Os dois são impossíveis, mas é como se um fosse mais impossível que o outro.
MSREPÓRTER: Como foi a montagem do projeto Tenda das Adivinhações?
A tenda na verdade já é uma ideia onde eu faço o desdobramento de todos meus trabalhos dos últimos anos. Há algumas limitações bem claras. O projeto já era pra ser um espetáculo itinerante, era pra ter produção, personagem, figurino, já tinha algumas características assim, que me obrigaram a abrir mão de algo que eu faria se estivesse apenas pensando em mágica. Na Tenda a mágica não foi a prioridade, a prioridade foi a experiência de quem estava assistindo. Eu já tinha contato com o Mauro há alguns anos. Quando fiz o projeto, na época, na fase de decidir estrutura e detalhe técnico, ele foi lá em casa e a gente conversou. Acabamos que montamos juntos o projeto. Ficou decidido que ele ia ser o responsável por essa parte da produção, da estrutura, do cenário, decisões estéticas de figurino. Desde o começo ele já era o cara que ia fazer isso.
Depois, com o projeto já aprovado, e quando a gente já tinha começado a colocá-lo em prática, apareceu o Breno Moroni aqui. Ele vinha de Portugal para o “Pantalhaços” (Festival realizado em Campo Grande), e acabou dirigindo Os Corcundas. Quando eu assisti Os Corcundas, vi que tinha tudo a ver com a Tenda. Convidei o Breno pra escrever o roteiro junto comigo. Já tinha um roteiro, mas era um roteiro muito básico. Eu queria que ele fizesse a adaptação, colocasse dramaturgia mesmo. Ele escreveu e colocou o Mauro na cena. Por enquanto, ele ia ficar só do lado de fora da Tenda, como uma espécie de bilheteiro, mas o Breno sugeriu que o Mauro entrasse, então tivemos que rever tudo, desde o começo do espetáculo. A gente colocou mais uma pessoa, na época a Renata, pra trabalhar conosco no lado de fora.
MSREPÓRTER: Você já havia misturado teatro e mágica dessa forma em algum outro trabalho?
A ideia era uma mágica bem teatralizada mesmo, e eu já tinha criado junto com outro cara, que mora em Marília no interior de São Paulo. Fizemos um personagem inspirado em Marco Polo, viagens fantásticas, Zé do Caixão com Carla Perez, um personagem bem brasileiro, com muita mística e com muita queda, uma pessoa que fala muito de coisas impossíveis, místicas, e de repente, transforma arroz em feijão. A Tenda, na verdade é a quebra, o contra ponto, mas quem definiu isso foi o Breno. Ele tem uma visão muito clara de motorização e conflito, de colocar o personagem, fazer o personagem crescer, encontrar o fim do túnel.
Quando assisti Os Corcundas, achei um roteiro simples, enxuto que pega onde te que pegar. Foram surgindo no caminho, um pouco do Mauro Guimarães, um pouco do Breno, e um pouco de mim, formando o produto final. Se você perguntar pra mim se está do jeito que eu imaginava, vou dizer que não, se perguntar para o Mauro ele vai dizer que não, e se perguntar para o Breno, que era o diretor, vai dizer o mesmo. Os três colocaram o que viam ali dentro, e o resultado por nossa sorte foi legal e a gente vê o potencial, não que não tenha falha, o espetáculo é recém estreado, é complicado produzir, mas ainda assim, tivemos um bom resultado. Eu e Mauro somos profissionais, mas chega um momento que sem aquilo estar inserido no mercado, ou com um bom investimento inicial, pra continuar, não tem como. Mas acho que é normal também.
MSREPÓRTER: Quantas vezes a Tenda das Adivinhações foi montada e quantas pessoas viram?
Na estreia, na Morada dos Baís, apresentamos em quatro dias, seis horas por dia, cerca de 10 pessoas no máximo entravam na Tenda em cada apresentação, que durava cerca de 20 minutos, depende do tipo de perguntas e o número de pessoas. Depois, apresentamos na Praça do Rádio Clube, durante o Festcamp, não sei de cabeça o número exato de apresentações, mas foram dois dias, três horas cada. Não foram muitas apresentações, montar a Tenda é muito difícil, temos “N” tipos de gastos de manutenção mesmo dela, e o espetáculo, a gente fez um espetáculo com pouca grana, o projeto mesmo era bem baratinho, então estamos resolvendo questões estruturais. Mas acredito que umas 200 ou 300 pessoas viram o trabalho.
MSREPÓRTER: O que sentiu do público que assistiu as apresentações da Tenda?
A gente pegou depoimento em todas as sessões, por escrito e em vídeo. Então, na maioria das pessoas, os objetivos que a gente queria despertar, todos eles foram alcançados. Então todo mundo ficou muito animado, apesar das dificuldades, todo mundo ficou animado como isso. Eu fiquei muito feliz como mágico e como mentalista. O meu maior medo era de que as pessoas vissem aquilo só como uma brincadeira e não enxergassem o potencial que existe no meio daquela brincadeira, porque no fundo tudo é mesmo uma brincadeira. Mas ali, tem o lance sério que é interessante, tem a ver com o potencial de cada ser humano e da vida. O que a vida é, então, o que a gente pode pegar de lição no meio disso tudo, e não sou eu que falei isso, é a canção da natureza e eu só tentei dar uma boa introdução pra um assunto que todo mundo já conhece, que todo mundo tem dentro de si. Eu acho que 90% do retorno foi que eu esperava ou até mais. Tem como dar errado, eu errei em algumas apresentações, errei, mas toda hora que acertava eu conseguia compensar.
As poucas pessoas que não gostaram já faziam parte do público que não era nosso alvo. Pelo que a gente analisou, pela faixa etária e outras questões, são pessoas que não iriam mesmo na Tenda, foram porque alguém levou junto, e viram algum tipo de resistência com a parte mística da coisa. O que é completamente normal, eu sou um cara cético, se não fosse mágico eu também ia ser bem resistente contra alguns termos que são usados dentro da tenda. Mas ao mesmo tempo foi bem positivo. O pessoal do teatro, atores, pessoal de fora que estava aqui pelo Festcamp, pessoal do Peru, ou do Sul do Brasil, gostaram, e eu estava na expectativa pela reação dessas pessoas. Eu já tinha aceitado que eles não iam gostar muito, pois iam pegar em problemas cênicos, por serem do teatro. Mas o pessoal foi super bacana, gostaram muito do meu trabalho, do Mauro e do Breno. Teve uma pessoa que escreveu dizendo que a linguagem era vaga. Mas se ninguém falasse que a linguagem era vaga, seria porque tinha alguma coisa no cérebro das pessoas que estavam assistindo, porque em alguns momentos a linguagem é vaga, e é de propósito. Tem momentos que a beleza está em falar sem dizer, para as pessoas tirarem conclusões por elas mesmas.
MSREPÓRTER: Qual sua relação com a arte do teatro?
Eu sempre participei de oficinas, espetáculos de teatro, eu adoro teatro, acho super legal, eu me envolvo com teatro de uma maneira. A cena, a parte de interpretação é uma das habilidades do mágico, eu ainda estudo interpretação nessas habilidades. O mentalista, mais especificamente a força do mentalista, está no aqui agora, quebrar a quarta parede que existe no teatro, e falar até com o segurança do teatro. Tem um ditado que diz que “quanto pior ator, melhor mentalista ele vai ser”, claro que não estou concordando totalmente com essa frase, cada vez mais de interpretação, de atuação, eu vou querer aprender, mas por enquanto eu ainda tenho um dever de casa muito grande pra fazer dentro da minha área. Princípios, práticas, quando for pra colocar a cerejinha em cima do bolo eu vou colocar, mas por enquanto eu estou na massa, deu pra entender? (risos)
MSREPÓRTER: Como vê as políticas públicas na área da cultura em Mato Grosso do Sul?
Eu estou há cinco anos escrevendo projetos, me ligando mais na questão de políticas públicas. Mas não tem como comparar muito, porque eu moro aqui e conheço a realidade daqui. Como referência, dentro da mágica mesmo, muitos profissionais conseguiram financiar seus estudos, como mágicos do Canadá, por exemplo, e isso nos anos 70, então não é uma novidade, em alguns lugares isto já está estabelecido. Aqui está todo mundo em fase de crescimento, a classe artística está muito mais unida, e isso é muito importante. A gente está vivendo um momento histórico, em Campo Grande e em Mato Grosso do Sul. São seguimentos completamente diferentes, linguagens artísticas diferentes, e todo mundo se reunindo, se encontrando, em busca de fazer a cultura acontecer localmente, e todo mundo ganha com isso. Acho que estamos em uma fase de luta.
Mesmo estando dentro de uma fundação, não se pode fazer muita coisa se tem uma determinação de alguém que está mandando mais. Aquela coisa não vai acontecer. A gente vê muito atraso de repasse, a gente não sabe como vai ficar esse ano ainda, porque o prefeito fez uma promessa formal de aumento de recurso do Fomteatro e Fmic (programas de investimento cultural do município), mas não tem nada oficializado. O poder público está aprendendo ainda a dar mais atenção à cultura. Quando nosso prefeito fala que ele gasta muito dinheiro pra arrumar problemas, que tem vandalismo ou coisas do tipo, quem sabe a cultura não é uma solução boa pra ocupar essas pessoas que estão desocupadas quebrando poste, e arrumando confusões, a conhecerem uma outra maneira de se expressar. As pessoas com auto-confiança não cometem essas atitudes, na cultura e na arte, estão as melhores maneiras de auto conhecimento, por ser uma forma abstrata.
Nós temos o conhecimento objetivo, o concreto, e a gente tem que desenvolver um lado intuitivo. E se é a preocupação deles, isso vai dar voto, e vai dar uma sociedade melhor, o que eu acho que é interesse da maioria. Então, eu estou confiante que nos próximos nos vamos ter mais investimento. E é importante também a classe artística estar mais preparada, para atender todas as demandas. Por exemplo, eu vejo que é uma coisa mundial, o artista tem um problema com burocracia. Eu também tenho, e tenho que lidar com isso. Acho que é um momento de todo mundo se ajudar, ser menos egoísta, amadurecer projetos, cada vez que pensa em pedir dinheiro público, pensar também no que você vai oferecer de contra partida.
MSREPÓRTER: Já pensou em fazer algum trabalho em parceria com sua esposa, a atriz Aline Duenha do Circo do Mato?
Então, por enquanto, temos uma parceria artística, inclusive muito boa, mas é para poucos. Poucas pessoas aproveitam, em momentos informais, as nossas apresentações que misturam cena, música, e bobeira insana. Alguma hora vamos fazer, ainda não chegou o momento de fazer nada profissionalmente, publicamente. A gente, de vez em quando, trabalha em eventos junto, mas não é nada programado. Às vezes eu sou contratado para fazer mágica e ela esta lá fazendo uma performance ou encenação com o Mauro. Alguma hora a gente vai fazer alguma coisa junto.
MSREPÓRTER: Como é ter uma esposa que vive da arte também?
Fica muito mais fácil quando você está com alguém que passa pelo mesmo tipo de situação que você. Tem dias que eu estou irado com o mundo, e ela me acalma, tem dias que ela está, e eu digo que já aconteceu comigo, e nos acalmamos. Crescemos juntos, mas ela está a anos luz na minha frente, trabalha com arte há bem mais tempo que eu, e ela trabalha com um grupo, passa por várias coisas com o grupo, e eu to completamente sozinho. Aqui a gente tem até alguns mágicos, mas não fazem exatamente o estudo que estou fazendo. No congresso que fui, de 400 pessoas, tinha uns 10 pra eu conversar. É difícil no meu caso ter alguém pra falar pontos específicos pra falar de mentalismo, mas, em casa, eu tenho uma pessoa pra falar sobre teatro, apresentação, e eu fico tranquilo porque toda vez que eu precisar eu vou ter uma ajuda muito profissional e muito crítica dentro de casa, a Aline é uma pessoa que tem muita sensibilidade para arte.
MSREPÓRTER: Como são estas “situações” em que o artista fica "irado"?
Ainda acontece muito de pessoas tentarem contratar o artista apenas para que ele divulgue o trabalho, sem ganhar nada pelo espetáculo. Quando você vê que é uma falta de noção total, eu fico muito chateado, eu explico, e em algumas situações, eu até vou e apresento. Não estou com uma ideia pronta do que é o trabalho e de como tem que ser, então, às vezes arrisco, abro mão porque não faço só pelo dinheiro, não é só recompensa, se é uma oportunidade boa, um público educado na minha frente, eu vou. Mas ao mesmo tempo, é minha profissão, e ainda é comum as pessoas acharem que estão me fazendo um grande favor de me convidar pra fazer uma apresentação.
Eu não tenho interesse nenhum, por exemplo, em tirar coelho de cartola, só se for pra horrorizar, pegar a minha cartola, bem na frente do público, perguntar: Tem alguma coisa dentro? Não tem? Então aqui, bem na frente, nada de palco. Coloca a mão e sai o coelho. Quem não acha que o diabo está envolvido com isso está errado. Por isso eu não faço essa versão do coelho na cartola, não tenho interesse. E às vezes alguém liga e pede: “Eu só quero que faça aquela, do coelho saindo da cartola. Uma vez, postei no facebook uma reclamação, de uma empresa, que sabe qual meu trabalho, que já me conhece. A pessoa que me ligou não sabia disso, e estava falando em nome da empresa, requisitando um serviço complexo, que seria um prazer fazer, mas que eu não ganharia para isso, apenas em troca de divulgação. Foi uma situação de conversar como se tivesse tudo certo, e no fim, não era trabalho.
MSREPÓRTER: Como é o estudo da arte do mentalismo?
Todo mundo já sentiu um pouco disso, de se ter tudo determinado pela cabeça. Se vamos ficar feliz, triste, com fome, há milênios existe a cultura que mostra o quanto a mente manda no corpo. É uma lei hermética que pode ser aplicada e enxergada em determinadas circunstâncias da vida. O mentalista vai atrás da comprovação e simulação dos efeitos dessa teoria. Pra um ser humano normal, é impossível pedir pra uma pessoa pensar em qualquer situação da vida dela e adivinhar em seguida o que ela pensou, para o mentalista não é impossível. Isso porque, se a pessoa está pensando, e é tudo mente, tudo pensamento, então de alguma maneira você vai conseguir se conectar com ela, ou influenciar o pensamento dela, convencendo de que você acertou, quando na verdade pode não ter acertado, ou então, interpretar o que ela está pensando.
Neste sentido, vários conhecimentos também entram, um pouquinho daqui, um pouquinho dali, e a coisa se constrói. A psicologia, a comunicação, hoje em dia tudo está separado, eu pego um livro de teatro, e outro de mágica, mas no fundo no fundo, toda mágica é teatral e todo bom teatro tem efeito mágico. A gente separara tudo para fins de estudo, categorizar, mas está tudo muito junto.
MSREPÓRTER: Como a mágica tem sido vista no mundo?
Hoje em dia, as pessoas têm impressão de que é uma brincadeira, a mágica antes era cheia de sentido, significado e prestígio. Hoje em dia, está assim, “vou comprar um kit de mágica e vou fazer a mágica”. Nesse sentido, vejo na televisão coisas poucos pensadas, copiadas, a mágica brasileira está copiando a mágica de Las Vegas, e esta se dando mal, porque não estamos lá, estamos no Brasil, e aqui é outra realidade. Tem aquele seguimento americano de atirar uma piada atrás da outra, e pode colar, não estou dizendo que não cole, mas é preciso ter uma contextualidade.
No cinema, que há mais investimento, então tem mais pesquisa, as últimas coisas que saíram de mágica no cinema, O Ilusionista, O Grande Truque, e vários que estão lançados estão com processo de pesquisa boa e consultoria de grandes mágicos, então, sendo uma boa referência em outras mídias. Mas televisão, infelizmente está um problema, tem programas de mágicos bons, mas estão sendo repassados. Pessoalmente, e a maioria dos mágicos profissionais também acham isso, a referência não são os que estão na mídia, não são populares conhecidos do público.
"Aqui está todo mundo em fase de crescimento, a classe artística está muito mais unida, e isso é muito importante. A gente está vivendo um momento histórico, em Campo Grande e em Mato Grosso do Sul." Rick Thibau
Ana Maria Assis
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