Um pequeno portão é aberto, e depois de subir alguns degraus, em poucos minutos, é possível perceber que se está diante de uma história especial. Logo na entrada do escritório, móveis elegantes, de marcenaria moderna, chamam a atenção. Todos com um formato de estilo, com uma arquitetura trabalhada em conforto e beleza. Não fosse a qualidade daqueles objetos, daqueles móveis, a alma desta história está ainda por trás disto, na origem destes trabalhos.
O que poderia fazer com que um homem bem sucedido, de vida confortável, de bens materiais, de amigos, com oportunidades de muitas viagens e sem problemas, resolvesse mudar o rumo de tudo? Deixar tudo o que construiu, para passar a erguer um novo castelo de sonhos, sonhos seus e de mais centenas de pessoas.
O entrevistado desta semana escolheu rejeitar o conforto, e se entregar à luta contra a miséria. Ele coordena o projeto que tira pessoas da pobreza para que tenham uma profissão, no aprendizado da marcenaria. O design, fotógrafo, publicitário e escalador, deixou a Suíça há 10 anos, e no Brasil, ergueu os pilares de seu castelo junto de crianças e adolescentes de Campo Grande, que nele, descobriram uma razão para vencer.
Com o sotaque ainda evidente, como no momento em que disse “a relógio”, Carl Stephan Hofmann mostrou durante entrevista ao MSREPÓRTER que um homem pode fazer a diferença, quando para de olhar apenas para si mesmo.
MSREPÓRTER: Como surgiu a ideia de deixar a Suíça e vir morar no Brasil?
Vim como turista da Suíça conhecer o Brasil, e trabalhei por três meses como voluntário em um projeto em Salvador. Na Bahia foi o início de tudo. Fui testemunha de um assassino na rua, em pleno dia. Um moleque de 13 ou 14 anos matou um taxista. O taxista estava dormindo, e eu estava em uma varanda assistindo a este ato. O moleque subiu da favela, viu o taxista pegou o revolver e matou ele, para pegar o relógio. Então nesse momento eu acredito, em 1999, foi o início de uma reflexão em geral sobre desigualdade, Como o moleque é capaz de fazer isso, onde ele tem que estar na sua vida, jovem ainda, o que precisa para alguém chegar nesse ponto?
Voltei para Suíça e comecei a pensar no que eu poderia fazer. Eu sou publicitário, tinha uma agência própria e foi neste momento, em que eu tinha 50 anos, e a agência fazia 20 anos, que eu decidi dar uma pausa nessa vida louca de publicitário. Pensei que eu precisava fazer alguma coisa por esses jovens. Eu sou fotógrafo, design e publicitário, tenho essas três formações, e deixei a vida confortável que eu tinha, para vir para cá.
MSREPÓRTER: E vindo ao Brasil, porque escolheu a cidade de Campo Grande?
Eu estou aqui há 10 anos. A vinda para Campo Grande foi uma história louca. Voltando de Salvador, eu já tinha decidido que ia fazer uma pausa de alguns anos, talvez dois. Tinha planejado ir para Salvador, atuar em projetos que já trabalham com esses jovens. Nessa época eu fui presidente da Aliança dos Publicitários Suíços, e essa aliança fez uma festa de despedida para mim. Nessa festa, tinha uma banda de brasileiros que moram na suíça, para dar um clima brasileiro na festa. Nessa banda teve uma jornalista que cantou, a Patrícia Nascimento, de Campo Grande. E a gente conversou nessa noite e em outros dias a gente se reencontrou.
Ela me perguntou o que eu ia fazer em Salvador, e contou que tinha um sonho de fazer um projeto de uma ONG, em defesa de crianças e adolescentes, mas que queria fazer isso em Campo Grande. A minha primeira pergunta era onde fica Campo Grande, porque não é uma das cidades que o gringo conhece como uma capital bem famosa, como Rio, Foz do Iguaçu, não era. Finalmente, essa conversa, esse projeto que me tocou, que estava bem no ponto que eu queria. Esse momento foi que mudou o destino de Salvador para Cá.
MSREPÓRTER: E como nasceu a Gira Solidário?
A Gira Solidário nasceu com a ideia de ser uma agência com notícias a favor da infância e ao mesmo tempo eu queria trabalhar direto com as comunidades. Ela nasceu com essa ideia de dois núcleos já desde o começo. Uma organização que usa ferramentas da comunicação e da ação. A jornalista deu o início, através do desejo forte que ela tinha, e conseguimos ser integrante da rede Andi, que é uma rede de dez agências no Brasil, que atua em outros países também, com notícias de projetos sociais em favor de crianças e adolescentes.
Eu comecei a desenvolver junto com pessoas competentes, ideias de como a gente pode ajudar, por exemplo, carvoeiros erradicados de Ribas do Rio Pardo, tirados pelo programa de erradicação, mas que ao mesmo tempo passaram por uma troca de misérias. Isso, porque essas pessoas não receberam nenhuma estrutura para uma nova vida fora da carvoaria.
Então, ali começamos realmente com esse projeto, que virou programa em sete anos, com patrocinadores daqui e de fora, além de outros projetos vinculados. Nós ensinamos uma profissão para que pudessem sair da miséria. Eu sou design de móveis e objetos, e ensino design, e nosso parceiro Alfred Lei é design também, mestre em marcenaria. Eu faço mais objetos pequenos, de decoração. Mas a gente desenvolve juntos o produto, ele mais na parte técnica e eu dou minhas dicas a respeito de design.
MSREPÓRTER: Como foi esse trabalho em Ribas do Rio Pardo?
Nós resgatamos essas famílias, elas trabalhavam conosco nos sábados para manter uma nova vida. Essa foi minha escola, porque a realidade dessas famílias era tão forte que foi uma aprendizagem muito direta e clara. Visitando essas pessoas de dois em dois meses em casa, e ainda vendo nos finais de semana, isso provoca uma proximidade dos problemas que elas enfrentam. Isso foi em 2003, fundamos em 2002, e em 2003 nasceu o projeto, que tem o nome de Direito de Crescer.
Nós também ensinávamos essas pessoas a fazer contas, foi muito bacana, um trabalho forte. As pessoas tinham tantas necessidades, mais que não sabiam fazer a conta, não sabiam o que podiam gastar e o que não podiam. Então, em outros momentos ensinávamos matemática, em outros momentos fazia curso de higiene, todo ano falamos sobre sexualidade. Foi uma ideia de um projeto que virou programa com muitos projetos.
Essas famílias hoje têm emprego, ninguém está no trabalho infantil e isso acabou. Para eles, praticamente era uma fonte de renda a carvoaria, mas foi um processo, mostrando que aquilo não dava futuro a elas. As famílias estão em projetos agora, 34 ou mais estão em artesanato, outros construíram dentro do programa seus projetos. Essa é a ideia de um projeto sustentável. Assim, nasceram muitos outros projetos que hoje são 15 projetos que a Gira realiza. Isso é uma coisa bacana, e você não perde o vínculo com essas pessoas.
MSREPÓRTER: Como costuma ser o primeiro contato da Gira com essas pessoas?
Você chega no começo e os conhece, cada um com seu talento, talento que eles nem sabem ou não acreditam. O nosso trabalho é isso, mostrar que cada um deles tem algum talento, vamos descobrir onde você tem o seu. Vamos colocar você em um projeto de dança de rua, em um projeto de arte, de música, assim eu acredito que o caminho de um projeto social é mais natural. Você pega o jovem ou a criança para criar autoestima, que ajuda a criar sua dignidade, acreditar em você e crescer. O projeto Direito de Crescer que finalmente virou um programa se tornou a nossa escola.
Estamos atuando agora em cinco projetos, e têm mais seis idealizados, que já foram executados várias vezes, e sempre recebem novas turmas quando entra um patrocinador como parceiro. Por exemplo, o Lanterna Mágica (projeto) trabalha com até 80 jovens em grupos de 20 durante um ano e eles recebem a capacitação como fazer um curta metragem. Durante esse ano entram na prática, fazem roteiro. E esse projeto, quando temos um novo patrocinador, buscamos uma nova turma na escola pública, para se expressarem através da produção de vídeo. Eles buscam temas, um grupo fez oito curtas sobre trabalho infantil, muito legal. A gente acompanha com nossos monitores que tem a capacitação, e gosta muito de trabalhar assim, dentro da metodologia, de aprender com cada projeto.
MSREPÓRTER: E como começou o projeto Pau Brasil, vencedor do prêmio Anu Dourado 2012?
A marcenaria teve uma historia um pouco separada. Foi resultado de um cliente meu da Suíça. Este meu amigo, o Fred, tinha um sonho de viajar de trailer. E ele começou a viagem, e um dia me ligou da Argentina. Ele queria vir, conhecer o projeto. Passou por aqui e ficou três semanas. Ele se encantou e se chocou com a realidade. Eu morava nessa época no bairro Dom Antônio Barbosa, que é um dos mais violentos que temos aqui, e lá, trabalhamos direto com a comunidade.
Eu morava lá porque sou casado com uma mulher que morava lá. Esse começo da minha trajetória aqui, em um bairro bem pobre, bem violento, me fez ver a falta de oportunidades para os jovens, foi também uma escola para mim. A escola Pau Brasil busca o jovem que está sem objetivo e sem oportunidade. E muitas vezes, ele quer fazer alguma coisa, mas já tem dificuldades por estar sem escolaridade, estar atrasado, é morador do Los Angeles, Dom Antônio, Lageado, Parque do Sol, fica no Lixão, pegando coisas... E assim, ele é discriminado pela sua própria situação de vida. Agora imagina ele buscando um trabalho.
Ele não sabe fazer um currículo, ele tem receio de se aproximar, e outra coisa, o chefe vai perguntar você terminou a escola? Não, terminei na quinta, na sexta... Com 18 anos e está ainda nessa. Então, a nossa ideia da escola Pau Brasil nasceu com essa visita do Fred da Suíça, um aposentado que decidiu que ia ser voluntário para ensinar jovens a fazer móveis, e aprender durante três anos essa profissão que é uma formação de alto nível, igual uma faculdade, pois tem design, questões ambientais, marcenaria moderna, aprende a se comportar, a ser pontual, a fazer matemática, calcular.
Temos a professora de matemática, geometria e português, porque uma hora ele vai ter que escrever uma carta pra um cliente, então a gente tenta preparar esse jovem de modo integral pra ele chegar ao mercado, onde ele não tem nada de auxiliar. Ele sai profissional, e com cabeça de um cidadão com responsabilidade. Nesses três anos, a gente consegue o resultado deles, jovens que já estão na profissão para ganhar de dois a três salários mínimos.
MSREPÓRTER: O que aprendeu sobre miséria nestes anos todos trabalhando com o projeto?
Tentando entender de onde vem uma situação dessa, o que é pobreza realmente, de onde vem? Cheguei à conclusão que pobreza começa na cabeça. E apenas vem um dia como resultado na carteira. Falta de dinheiro, falta de condições, existem, mas a pobreza mesmo começa na cabeça. A falta de educação, de estrutura intelectual para se desenvolver, para criar uma coisa na vida.
Se você nunca aprendeu o básico, valores, você anda na vida recebendo benefícios sem fazer nada. Você não vai criar uma força sua. Esse foi o ponto mais forte desses anos que eu morava no bairro Dom Antonio. Aprender que um presente não devolve dignidade, dando comida, salva a família em um momento, mas você não estimula nada. Só resolve todo dia um problema básico de fome. Mas você não estimula a pessoa a começar a fazer parte dessa luta para sair da miséria.
Então nossos projetos querem isso, estimular a pessoa. Paulo Freire diz pra não dar o peixe pronto, mas ensinar a pescar, e eu vou até um pouco mais para frente, ensina ele a fazer a vara para pescar. Porque se não tem ferramenta, já vai ficar na preguiça de novo. “Ah não tem vara, como vou pescar? Eu sei como pescar, mas não tenho vara”, vai ser a próxima desculpa.
MSREPÓRTER: Depois de participar do projeto, o que os beneficiados fazem com o conhecimento?
Os nossos marceneiros, a maioria vira autônomo durante a formação. Micro-empresários individuais. No segundo ano eles começam a receber do projeto, pois eles produzem e ganham com a venda dos móveis. A ideia dessa estrutura é que a própria produção deles, sustente cada vez mais o próprio projeto. Auto-sustentabilidade ainda não temos, mas em 2013, 2014 vamos conseguir.
Os problemas são os investimentos, porque a marcenaria moderna é muita coisa. Você precisa de um galpão, dois, dependendo do tamanho do projeto. O nosso projeto tem quatro galpões, dois são construídos, o próximo chega ano que vem e a Gira vai fazer o quarto galpão. São investimentos de 2,5 milhões de reais, até hoje investimos mais ou menos, 13 milhões nesse projeto, em construção, em estrutura, em maquinário, em formação de monitores.
MSREPÓRTER: Como a Gira faz para captar recursos?
No começo, entre 2006 e 2010, fizemos investimentos direto, captamos recursos na Suíça, na minha terra, porque aqui não conseguimos. Porque é construção, e ninguém acredita em construção aqui. É investimento em matéria prima, em bens, a maioria das instituições não quer investir nisso. Depois da atração, é suficiente para um patrocinador brasileiro, antes não.
O suíço tem uma tradição para investir também em estrutura. E isso é difícil no Brasil. Nesses cinco anos de projeto, nós temos o terreno, cedido pela prefeitura, o apoio de arquitetos que fizeram trabalho voluntariado, e temos empresas que ajudaram com materiais de construção, além do Walmart, como doador de dinheiro, que é um grupo de fora. O resto todo é da Suíça, Alemanha e Áustria. O Fred aproveita que de três em três meses ele tem que voltar pra Suíça e faz contatos com nossos patrocinadores.
MSREPÓRTER: Como começou a morar no bairro Dom Antônio?
O Dom Antônio foi, na verdade, através da minha filha, ela me adotou na verdade. Ela cresceu sem pai e pulou no meu colo em um desses projetos que começamos a fazer nos bairros, dizendo: Você é meu pai agora. Então isso é um convite bem forte que ela fez, e eu quis falar com a mãe dela. E ela me explicou que o pai, dizendo “o pai dela não acompanha a gente”. Uma coisa que acontece muito aqui, o pai é responsável por fazer a criança, que foi o caso dela, e depois some.
E ela só teve lembrança de violência com ele, mas ela não teve uma relação com o pai, que nunca apareceu lá. E ela sentia falta dessa figura, de ter um pai. Ela era muito comunicativa, me contou um monte de coisa, e disse que me queria como pai.
Os nossos projetos realmente já começaram no sul da cidade, principalmente porque essas duas ou três mil famílias dependem do lixão. Essa foi uma experiência que, como suíço, eu nunca vi. Uma família dependendo do que acham no lixo. Fora do fato que o lixo faz a pessoa se sentir mal, lixo não deixa a coisa agradável, na sua vida, é tudo desagradável.
Eu fui muito no lixão, é muito desagradável o cheiro, o clima, é perigoso. E o que me chocou nessa época foi ver crianças lá dentro. Meninas se vendendo dentro do lixão, por cinco 10 reais, se prostituindo, aos 11 ou 12 anos. É uma realidade chocante, que não é visível, pois o cidadão sul-mato-grossense não vê isso. O que se fala de vez em quando é uma criança que morre dentro do lixão, e inclusive a minha esposa perdeu o irmão dela lá.
Minha esposa, mãe da menina que me adotou como pai, foi com esta minha filha na barriga ao Lixão. Então, são situações absurdas pra gente, que tem uma base de acesso cultural. Não tem acesso à cultura lá, porque se você está com fome, vai ao teatro para quê? Então tudo o que é cultural fica muito para trás, então através dessa relação eu decidi ser o pai da Graziele, e tive um filho com a mãe dela depois, meu filho está com oito anos, então, estamos juntos até hoje e temos dois filhos.
MSREPÓRTER: E como foi a decisão de deixar de morar no Dom Antônio?
A saída do Dom Antônio foi processo natural, porque eu queria que minhas crianças tivessem um pouco menos perto da violência. Lá estavam confrontados com tráfico de droga todo dia. Em 2009 tivemos 24 mortos com idade a baixo de 25 anos no Dom Antônio, resultado de briga, de vingança.
Uma coisa muito pesada e eu queria que minhas crianças conhecessem outro lado. Uma vida também com lado lúdico. Minha filha está em um projeto de outra organização hoje, de teatro e dança. Foi um desejo meu, pra mostrar pra eles, depois de um tempo, o outro lado, mostrar que vale a pena ir pra escola e aprender novas coisas, se interessar por coisas diferentes, por música.
Eles enxergam isso. Eles nunca perderam o laço com a vovó, com a família. É claro que esse vínculo familiar é muito forte, e não quero quebrar isso de jeito nenhum. Mas queria que eles tivessem num ambiente menos violento.
MSREPÓRTER: E como está sua vida atualmente?
Hoje moramos aqui no bairro Vila Carvalho em uma casa simples e eles acompanham meu trabalho aqui. A Graziele que tem 13 (anos) perguntou quando vai poder trabalhar aqui. A minha esposa que não tinha estudos quando a gente se conheceu, eu pedi pra ela voltar para as aulas, terminar a escola, ela fez com muita garra, conseguiu vestibular, e vai se formar esse ano em pedagogia. Ela trabalhou nessa mudança, é um exemplo muito bom, mostra que é possível sair da pobreza, dessa dependência de coisas desagradáveis e chegar em um ponto que você gera sua vida e não as condições.
Ela já trabalhou em Ribas com os projetos, fez um estágio com crianças pequenas, para se formar na prática da pedagogia. Foi uma coisa bem natural pra ela começar a participar. Até a escolha do curso tem a ver com a Gira Solidário, porque ela sempre me acompanhou e começou a enxergar que isso era uma coisa que ela queria fazer, ajudar os outros a conseguir sair da miséria, como ela conseguiu.
MSREPÓRTER: Como foi a mudança de vida, quando deixou a Suíça?
A saída da Suíça foi um choque. Eu estava acostumado com uma vida muito sossegada, muito confortável, fora que eu trabalhei muito, mas o conforto, o dinheiro, eu tinha. Não precisava pensar em como ia pagar minhas contas, isso era normal, minhas contas se pagavam. Tudo o que o pobre sonha eu tinha, casa grande, televisão grande, carro, moto, essas coisas na minha vida antiga tinham uma função de conforto, e aqui, quando cheguei ao Brasil, investi meu dinheiro na Gira, mas tive que vender minha casa, pois em uma decisão dessa você não pode ficar um braço na Suíça e outro no Brasil.
Vendi todas as minhas coisas, só os móveis que eu trouxe porque criei eles na Suíça, então, são alguns laços meus, e a arte que estou pintando. Mas o vínculo com bens eu tinha que cortar, sabendo que é uma decisão. Trabalhar no ramo, esse papel, você não consegue fazer meio morno, ou você faz ou você não faz, por isso muitas pessoas não fazem, porque é um surto no começo.
Você tem que se entregar, não dá pra não mover pra trabalhar com pobres. E isso foi um choque. Também a burocracia no Brasil é um choque. Se você quer fazer o bem, você sofre com uma burocracia danada, é muito difícil qualquer coisa que você queira. Nós sentimos ressentimentos ou preconceitos por sermos ONGs. Acham que ONG só serve para pegar dinheiro do povo.
MSREPÓRTER: Como a Gira lida com este preconceito contra ONGs?
É muito difícil mostrar que tem ONGs e outras ONGs. Essa necessidade de provar o tempo todo, demonstrar e também mostrar os resultados é uma loucura. Por causa de poucos que foram desonestos, que roubaram, que usaram a forma da ONG pra roubar, tem milhares de organizações muito boas que sofrem com essa imagem. Então, nem falo mais que somos. A palavra eu não uso, claro que somos, mas muitas pessoas nem sabe o que significa ONG, então a gente tem que mostrar sempre que a gente trabalha com honestidade. Eu escrevo “burrocracia” de propósito, com dois erres. As pessoas dizem que estou errado, eu digo que está certo.
MSREPÓRTER: Como foi a sua adaptação ao português brasileiro?
Eu não falava português, na Bahia a coordenadora falava excelente inglês. Comecei a aprender português aqui em Campo Grande, ouvindo e falando. No começo, eu peguei algumas palavras erradas, das comunidades, como “vrido, prástico, bicicreta”. Mas algumas pessoas disseram que eu estava falando igual às pessoas que não estudaram bem o português, e que eu tinha que mudar isso. Eu peguei deles, porque nunca fiz um curso, então peguei escrevendo, li muito e isso me ajudou. Eu leio mesmo literatura brasileira, também pra aprender a história.
MSREPÓRTER: E como surgiu o nome da escola?
Hoje eu acho que nós europeus temos uma dívida com o Brasil, não só o português, mas o europeu em geral. Ele chegou ao Brasil há 500 anos, pegando o que é bom, enriquecendo com isso, e não deixou nada. O índio não ganhou nada do europeu. O brasileiro de hoje não ganhou nada com o europeu, e isso foi uma das decisões de um dos nossos amigos, mestre em música e arte, que sugeriu o nome da escola de Pau Brasil, porque esse é o símbolo da exploração do europeu.
Eu, o Fred e nossa equipe buscamos devolver um pouco dessa dívida. Agora estamos ensinando os jovens, com a tecnologia de lá, e a consciência ambiental. Trabalhamos com manejo controlado com certificado e resíduos de reflorestamento, a mesa de teca, por exemplo, é produto reflorestado, e tem acabamento com resíduos. É um trabalho bem sustentável, em todos os sentidos, ambientalmente e socialmente.
MSREPÓRTER: Em comparação com outros países, o que vê aqui no Brasil?
Já conheci muitos países, muitos lugares. Já fiquei um tempo na Malásia, um ano na Arábia Saldita, só não conheço a Austrália. Como fotógrafo, eu já viajei muito. A mesa do brasileiro é muito farta pra quem tem condições. Ele faz três ou quatro pratos diferentes, e frutas, verduras, tem tudo. É incrível o que o brasileiro tem no prato todo dia. E mais uma vez a desigualdade mostra o que sobra para os menos privilegiados, os mais miseráveis. O que sobra é arroz e feijão. Porque também temos arroz e feijão no menu, mas temos também uma mistura, como eles falam, um peixe, uma carne. Se eles (pobres) querem peixe eles têm que pescar, porque peixe para comprar não dá. A família tem três ou quatro, cinco, seis crianças. A questão de não saber limite, não saber a conta. Isso que eu disse. É preciso ensinar as pessoas a fazer a conta, inclusive de quantas crianças podem ter. É uma questão de responsabilidade você criar mais um que não tem comida e não tem cultura.
MSREPÓRTER: Como você vê esta riqueza, e esta desigualdade no nosso país?
Essa questão de ter um país farto com tudo o que você imagina, nunca vi um país no mundo que tem tantas frutas, natureza, água, é muito rico esse país. Mas a distribuição de bens é muito mal feita. Dá tristeza ver milhares de pessoas só aqui na nossa cidade que não tem todo dia comida garantida, uma refeição. Tem que ir, ficar na fila para uma doação. Eu já passei um tempo na África, onde tem um corrupto que tem tudo, e o contraste é ainda maior, mas o país já não tem riqueza, as coisas não crescem tão fácil, natureza, não tem.
Agora o Brasil não. O Brasil tem tudo. Porque o pobre não começa a plantar uma coisa no quintal, uma mandioca, uma melancia. Isso é cultural, o suíço faz isso, e não é pouco, porque passou pela segunda guerra, onde não teve comida. O suíço passou a culturalmente ter suas batatas, cebolas, suas frutas no quintal. Essa cultura existe até hoje, muitas vezes com o apoio do governo para quem não tem espaço em casa.
MSREPÓRTER: A diferença cultural entre os países que conhece e o Brasil te surpreende?
Acho interessante, engraçado, eu tenho uma amiga aqui, de nome Linda Benites, que faz eventos, e nós trabalhamos juntos. Ela me visitou na Suíça uma vez, bem no começo, eu estava voltando e ela me visitou. A gente passou em um desses espaços onde a prefeitura oferece o lugar pra você alugar e plantar seus alimentos, são cerca de 800 ou 900 casinhas, para você guardar algumas coisas, e o espaço para plantar. A Linda olhou e falou: “Nossa, até a favela é bem organizada aqui”.
O diferente é isto, você enxerga com sua visão de mundo. Mas o que me chama atenção também, é que o Brasil não é farto só na comida e natureza, é muito rico também em relação às raças, culturas, do negro, do índio, eu acho muito bacana. Isso é uma riqueza, você tem talentos diferentes de pessoas que tem outra trajetória, outra origem. A música, por exemplo, geralmente cada país tem três estilos diferentes, mas agora olha o Brasil, vai no Rio Grande do Sul, tem músicas antigas da Europa, na Bahia tem influências africanas, isso é muito interessante, para um gringo, é um prato cheio para aprender. O brasileiro acha que ele aprende muito com o gringo, eu acho que nós aprendemos mais com o brasileiro.
MSREPÓRTER: Qual seria um dos contrastes da cultura suíça e brasileira que consegue ver?
A força do europeu é a disciplina, a ordem e o respeito com o outro. Tem que ter um conflito forte para ter violência, sempre tem épocas de violência, estudantes insatisfeitos, tivemos também, problemas com drogas, temos também. Mas o suíço, por exemplo, cada um tem um fuzil do exército em casa, todo suíço tem uma arma em casa. De 4 em 4 anos tem um acidente, mas não tem o uso dessa arma , desse poder. Conversando com um amigo do Rio de Janeiro, ele disse, imagine se tivesse isso aqui, ou na Bahia, seria um estado de mortos. Mas claro que não é todo mundo assim. A pobreza, a desigualdade é responsável pela violência. Porque o rico quer defender o que ele tem, o pobre quer o que o outro tem. É um conflito permanente. Se um quer o que o outro tem, ou se eu sei que o outro quer o que eu tenho, haverá um conflito. A desigualdade estraga muito.
MSREPÓRTER: Hoje a Gira Solidário beneficia quantas pessoas?
Diretamente em projetos temos 300 mais ou menos, 350. Irmãos são beneficiados, mas conto aqui apenas os participantes, que estão conosco nos sábados por exemplo. Eles passam pelas provas de matemática, português, cidadania, geometria, técnicas ambientais, são provas que eles têm de seis em seis meses. Temos meninas também no projeto, muito caprichosas. Tem gente que tem preconceito: Marceneiras? Marceneira não existe, nunca ouvi falar. Mas mostramos coisas que as meninas fazem e ficam de queixo caído. A marcenaria hoje não é mais tão bruta como era há 50 anos. O maquinário é mais sofisticado, com muita segurança.
Brasileiro quando compra uma serra, desmonta tudo que é para sua segurança. E depois começa. E o próprio empresário faz isso, depois paga indenização. A gente aqui protege a cabeça, os olhos e as mãos.
Essa entrada na realidade não fica longe do escritório da Gira, os voluntários vão fazer e viver junto, dentro da realidade. Isso tudo foi uma escola para mim pessoalmente. Quando vou montar um projeto, eu tenho uma equipe muito legal aqui, fora a competência, tem muita vontade que a Gira faça projetos profissionais, bem pensados com resultados realmente visíveis, e o Dom Antônio foi a nossa escola.
MSREPÓRTER: Foi algo relacionado à marcenaria o que aconteceu com seu dedo anelar?
Isso foi gelo, o gelo cortou meu dedo como uma faca corta uma fruta. Têm muitos aqui que acham que foi na marcenaria. Mas foi gelo, eu sou escalador. Eu estava em uma parede de gelo, subindo, e o tempo mudou. Eu estava a seis horas subindo, 300 ou 400 metros de altura, o tempo mudou e de repente o gelo começou a derreter e cair. A reação natural é se proteger, coloquei as mãos na cabeça, mesmo com capacete, e um pedacinho caiu na minha mão, e foi igual fruta no prato.
Mas isso faz muitos anos. Engraçado, na Arábia Saldita, um meio dedo significa que você roubou. Porque até hoje eles amputam dedo na praça se a polícia pegar você roubando, na sexta-feira eles fazem isso. Lá eles achavam isso, que eu era ladrão.
MSREPÓRTER: Diante das dificuldades para manter a ONG, o que te faz ter força para continuar?
Não existe ser humano sem talento. Não existe uma pessoa que não tem nada. Todo mundo tem um interesse, uma afinidade, uma preferência.
E eu não sou uma pessoa que consegue ignorar coisas erradas. É questão de você ver o outro sofrer e se incomodar ou não. Eu não me permito ser juiz, quem não consegue sentir isso, eu não julgo. Tem pessoas que não gostam, não se sentem bem em estar próximo dessa realidade, como a do Lixão que tem ratos, não tem higiene. Então tem gente que não é feita para isso.
Nós temos muitos casos diferentes que precisam de um profissional, e cada um pode ajudar de um jeito. Às vezes a pessoa liga e pergunta o que pode fazer para nos ajudar. Eu pergunto o que a pessoa sente que pode fazer.
MSREPÓRTER: E o que você vê que recebe em troca dessa entrega na sua vida?
A gratificação é quando você vê uma criança feliz. Um moleque que entrou com 14 ou 15 anos, hoje sabe planejar, fazer orçamento, trabalhar. E um deles, eu ouvi dizer uma vez: “Eu não queria ser urubu a minha vida inteira, eu queria ser onça que caça. Não queria ser urubu que espera a morte pra ter uma carniça pra comer. Eu quero caçar com minha inteligência”. Isso é muito gratificante.
Mais informações sobre a ONG Gira Solidário estão disponíveis no site: www.girasolidario.org.br
Ana Maria Assis
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