Aos 38 anos, Andréa Flores, assim como a maioria concilia as mil e uma funções da mulher moderna. Ela nasceu em Carazinho, no Rio Grande do Sul, mas cresceu em Mato Grosso do Sul. Veio para a cidade morena em 1981 e não saiu mais. É formada em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), e em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), mestre e doutora em Direito Penal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Há 13 anos é casada com Lamartine Ribeiro, superintendente da Procuradoria de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon/MS). Em mais um dia corrido, ela gentilmente nos atendeu no intervalo da aula na Universidade Católica Dom Bosco, onde é professora de Direito Penal há 15 anos.
Professora, advogada, mulher e mãe. Andréa Flores falou ao MSREPÓRTER sobre a atuação em Direito Penal, a docência e a rotina da mulher do século XXI.
MSREPÓRTER: Como surgiu o interesse pela área de Direito?
Na adolescência, sempre tive vontade de ir para área de jornalismo e comunicação ou direito. Na época, fiz vestibular para as duas coisas. Só que as duas faculdades eram à noite e acabei optando por Direito. E sempre tive na minha cabeça que a área que me despertava interesse no Direito era Penal, por isso fiz o mestrado e o doutorado em Direito Penal em São Paulo.
MSREPÓRTER: Como é a sua atuação no Direito Penal?
No escritório, sou eu e uma sócia que também é doutora em Direito Penal e é professora da Federal (Universidade) em Processo Penal. A nossa advocacia é muito tranquila, porque a gente pode escolher quem a gente quer e a gente acaba também sendo escolhida e indicada por alunos, por professores, por outros advogados que não militam no Penal.
A gente trabalha com uma advocacia de crime ambiental, de crime de trânsito, de crime tributário. Não temos uma advocacia de massa. Não é aquela advocacia com um bando de processo e as coisas muito parecidas.
Nós fazemos tudo, atendemos o cliente, vamos às audiências, peticionamos, fazemos as peças, os recursos. É uma advocacia diferenciada. Não tem aquela advocacia de réu preso, de ir frequentemente no Presídio.
Às vezes, estoura um escândalo, tem aquelas prisões em massa da Polícia Federal, e a gente acaba atuando também. Nesse caso, toma mais tempo, tem que correr na delegacia, revogar uma prisão preventiva, entrar com um HC (Habeas Corpus). Fora isso é tranquilo.
MSREPÓRTER: Então, no seu caso, não há problemas em atuar mesmo sendo o Direito Penal, que geralmente é uma área “mais perigosa”?
Essa é uma dúvida de muitos alunos que se apaixonam pelo Direito Penal. Porque é mais fácil se apaixonar por essa área. Você abre o MSREPÓRTER tem lá várias notícias que tratam de crimes, que descrevem crimes da cidade, do interior, Brasil e o mundo afora. Você vê novela e ela está retratando um crime, você assiste a um filme que fala sobre crime. O Direito Penal é latente e é fácil de exemplificar. Quando o aluno vê na prática, vê no dia a dia aquilo que você está ensinando, ele tem uma facilidade em aprender. E a gente gosta daquilo que a gente entende. Então o aluno se apaixona pelo Penal, mais fica naquela crise existencial: mas e agora? Direito penal é perigoso, ser advogado criminalista é perigoso.
Acho que quebrar esse estigma é dizer que não existe só aquele crime violento de sangue, bárbaro, de bandidagem pesada. É que o senso comum vê tráfico, roubo, latrocínio, extorsão mediante sequestro, homicídio. E, na verdade, você tem várias tipificações que hoje podem atingir qualquer pessoa, qualquer um de nós.
Crime de trânsito, qualquer um de nós - que dirige - está sujeito a praticar. Crime tributário, qualquer um pode se envolver nisso com uma declaração que você faz, por exemplo. Crime ambiental, quantas pessoas que dão emprego, que tem indústria, que tem frigorífico, que tem fazendas podem acabar incorrendo em alguma tipificação de crime ambiental. Então, na verdade, o Direito Penal não é só a bandidagem pesada, hoje a gente tem muitas pessoas bem colocadas na sociedade que acabam se envolvendo com Direito Criminal.
Em muitos casos, são crimes que não chamam tanto a atenção da mídia. Mas tenho atuação com clientes envolvidos em casos de repercussão, por exemplo, Operação Xeque Mate, que trata de caça níquel. Também tenho clientes na Uragano, que chama a atenção em razão de envolver o alto escalão do município de Dourados.
No caso de crime de trânsito, tem crime de trânsito que ganha uma repercussão e se for ver não é de uma gravidade grande, é pelo contexto. Hoje a gente está saturada de crimes de trânsito, a gente tem uma preocupação de solucionar isso através de uma punição mais rigorosa, a sociedade pede uma administração mais rigorosa no afã de evitar que novos acidentes aconteçam. Não é o crime em si que é grave, é o resultado que é grave, ou gera lesão ou gera morte. Então é algo que choca.
MSREPÓRTER: Hoje mudou o perfil da mulher. Você por exemplo é mãe, mulher, esposa... Como lidar com tantas funções no dia-a-dia?
Essa é grande característica da gente, é você ter que se virar nos 30. Todo dia a gente se vira nos 30. A grande questão é você conseguir o equilíbrio. Não considero que uma mulher extremamente bem sucedida profissionalmente, mas que fracasse como mãe, como esposa, seja um exemplo de mulher.
Também aquela que é uma super mãe, uma esposa super eficiente, mas que não se realiza no lado profissional, provavelmente não é feliz. A grande questão é você conseguir o equilíbrio de tudo.
Eu acho que hoje a gente consegue em razão da maturidade, não só a maturidade da mulher, mas a maturidade do feminismo. A gente hoje não tem a preocupação de “bater” em homem, de querer ser igual a eles.
A gente está tentando buscar o nosso equilíbrio, ou seja, não quero ser igual ao homem, quero ter determinados direitos, sendo diferente. Quero continuar usando saia, usando batom. Quero me maquiar, quero estar bonita, cheirosa como também quero ser bem sucedida, ter lazer, ter direitos como eles.
Acho que a gente está em um momento legal do feminismo. A gente não quer mais aquela coisa de se masculinizar, de ter que usar coletinho, calça e o cabelo curtinho, a gente pode ser feminina, fazer progressiva e ser bem sucedida, a gente pode harmonizar isso.
Têm mulheres empresárias aqui em Campo Grande que dão show de bola, têm advogadas, médicas, profissionais de todas as áreas que se destacam. E esse destaque eu não estou falando nem questão financeira é de realização, da pessoa falar eu faço o que eu gosto, mas eu consigo encontrar equilíbrio.
MSREPÓRTER: E como você encontra esse equilíbrio no cotidiano?
O meu equilíbrio é esse. Todo dia de manhã eu to aqui (na UCDB), à tarde eu me dedico ao escritório. À noite, eu parei de trabalhar em razão do nascimento da minha filha.
Tenho uma funcionária há muitos anos, que é da família, do meu coração. Então, de manhã, a Manuela fica com ela. À tarde, ela vai à escola. A minha tarde é limitada pela Manuela, eu saio de casa antes da uma hora para deixar ela na escola, vou para o escritório, saio do escritório busco a Manu, vou para casa. Depois das 17h30, eu sou dela. E geralmente à noite, eu to ali para fazer uma tarefa, para curtir, para ir ao supermercado.
No final de semana, eu procuro ficar com a família. Se tiver algum caso que me chama mais tudo bem, mas normalmente o meu final de semana é de lazer, é para a minha filha, para o meu marido e para os meus amigos.
Porque dia da semana é sempre corrido, é aquela coisa que às vezes não dá tempo de falar com o Lamar (Lamartine) um assunto que era urgente, tem que lembrar e mandar mensagem. Agora final de semana não, final de semana eu fecho para balanço e o meu negócio é curtir família, para equilibrar, porque a questão da vida é o equilíbrio.
MSREPÓRTER: O Lamartine sempre está na mídia, como é isso?
Hoje eu sou muito feliz por ele. O Lamar é muito diversificado. Se você perguntar para ele, ele já fez de tudo. Mas acho que o Procon trouxe uma realização que eu nunca tinha visto, ele tem tesão por aquilo que faz. Considero que ele profissionalmente está no melhor momento de sua vida, porque ele se realizou naquilo.
Às vezes, passo semanas sem ver TV e sem ver ele na TV, mas sei que ele apareceu porque as pessoas comentam comigo. E uma coisa muito legal, quando a gente está no supermercado, está em uma loja, está em um restaurante, em uma festa, vem alguém e fala “oh cara eu sou fulano de tal queria de parabenizar pelo trabalho que você está fazendo”.
E isso não existiria sem a imprensa, ele poderia estar fazendo, mas as pessoas não saberiam que ele está fazendo. O fato dele não ser envergonhado, de ter facilidade de tratar com as pessoas, de dar entrevista, deu visibilidade. E esse é o casamento perfeito, não adiantaria nada ele fazer tudo o que ele fez, se as pessoas não soubessem o que ele fez.
MSREPÓRTER: Como surgiu o interesse pela docência?
É nato. Eu me sinto uma pessoa vocacionada para dar aula. Minha mãe foi professora, casei com o Lamar que é professor, a mãe e a irmã dele foram professoras também. Então, a gente tem essa identidade.
Acho que nasci para dar aula, porque com 15 ou 16 anos dava aula de espanhol. Depois, comecei a dar aula em um curso preparatório para o vestibular de português. E quando tinha 23 anos, comecei a dar aula na faculdade.
Cada vez fui dando mais aula e para mim é uma terapia. Posso estar cansada, com dor, com algum incômodo, mal estar, quando entro em uma sala de aula, simplesmente esqueço. Porque realmente eu gosto muito de dar aula, o dar aula é a forma que você tem de aprender, de repensar, de estudar.
A aula é muito melhor para o professor do que para o aluno, a gente ganha mais do que dá. Estou a 15 anos dando aula na UCDB e é aquela coisa assim eu vou morrer dando aula aqui, não tem erro.
Adriana Oliveira
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