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Entrevistas

Aos 105 anos, Felicidade abre as portas de seu mundo, com a alegria de viver de uma criança

18 março 2012 - 19h00 Por Markito

Até mesmo a caneta esferográfica que reproduzia as palavras pelas mãos da jornalista foi inventada quando a entrevistada já era mulher. Com a simpatia de quem não possui preocupações, e com a calma de quem não está à espera de nada, nenhum nome poderia ser melhor e mais bonito para se chamar uma senhora que experimenta a vida há mais de 100 anos, se não, Felicidade.

“Sempre fui alegre”, dizia em vários momentos revelando o seu segredo da longevidade. A equipe de reportagem chegou por volta das 9h na casa de Felicidade. Ela estava deitada, mas já arrumada para a entrevista. Sua filha mais velha, Herondina Silveira Barros, que cuida da mãe, disse que ela é uma mulher vaidosa.

Felicidade levantou-se da cama, apoiando-se em um andador, e comentou que “às vezes as pernas falham”. Esta foi a única frase que talvez pudesse ser vista como reclamação que Felicidade disse ao longo da entrevista.

Visita

Acompanhada da filha Herondina, de sua outra filha Iolanda Silveira Barros e do bisneto Gabriel Barros Ribeiro, Felicidade sentou-se no sofá da sala e se mostrou contente em ser entrevistada. “Eu gosto de receber visitas. Tenho muitas amigas”, disse ela. Entre uma história e outra, as filhas tentavam ajudar a mãe a lembrar de detalhes, enquanto o bisneto as segurava, com receio de que atrapalhassem a entrevista. Felicidade fez questão, em diversos momentos, de ressaltar este carinho da família, em cuidá-la, protegê-la e estar sempre ao seu lado.

Em vários momentos da conversa, Felicidade falava que um “amigo” vinha visitá-la. Segundo as filhas dela, ele é um bisneto, mas ela insistia em dizer “amigo”. “O Júnior é meu amigo. Ele é muito meu amigo. Ele vem aqui e fala: Vamos passear Dadade?”, disse ela. Em diversas ocasiões, Felicidade imitava a maneira como as pessoas falavam, sempre as frases vinham seguidas por um sorriso, olhando nos olhos de quem a entrevistava.

Ela também falou de outro filho, dizendo que “o Saul está viajando, mas ele também vem visitar”. “Tem hora que tu vê que está cheia a casa. Júnior tem os filhinhos dele que vem me ver. Meus bisnetos são umas coisas bonitinhas, todos educadinhos que também vem aqui me ver, me abraçam e conversam comigo”, comentou.

Felicidade nasceu no dia 22 de fevereiro de 1907, no Rio Grande do Sul, na cidade de Borja. “Era pequenininha quando saí do Rio Grande do Sul. Viemos pelo Rio Paraguai com meu pai. Nós moramos em Assunção, e mais tarde viemos de carreta para Bela Vista”, contou tentando forçar a memória.

História

Quando tinha cerca de sete anos, Felicidade veio com sua família para Mato Grosso (na época), morar em Bela Vista, entre seis irmãos e cinco irmãs. A família saiu do Rio Grande do Sul, foi até Assunção de embarcação, e seguiram para Bela Vista de carreta. Aos 18 anos, casou-se com o viúvo, também gaúcho, Vicente de Barros Leite, que deu nome à cidade onde ela nasceu “São Borja”. Com ele, Felicidade teve sete filhos, sendo duas mulheres, e destes, a maioria mora em Campo Grande.

A senhora contou, com a ajuda das filhas, que morou muito tempo na fazenda Pirapucú, em Bela Vista. Na época, há cerca de 70 anos, moradores da região eram perseguidos pelo lendário bandido Silvino Jacques, afilhado do presidente Getúlio Vargas, que veio a ser assassinado pelo delegado de captura Orcírio, que é pai do ex-governador de Mato Grosso do Sul, Zeca do PT.

Felicidade relembrou que quando Silvino Jacques, que agia a mando de latifundiários, invadia a fazenda, seu marido fugia primeiro, e ela fugia em seguida com seus filhos. “Ele queria dinheiro”, disse a senhora falando de um passado tão diferente hoje de sua realidade.

A centenária viveu tempos difíceis, na revolução de 1930, quando enfrentou bandidos junto do marido, e migrou para o Paraguai.

Na fazenda, Felicidade falou da rotina que tinha. “Eu cozinhava muito, cuidava das galinhas, tinha criação de gado. E lá perto tinha uma menina que ficava doente. Quando isso acontecia, eu pegava o cavalo e ia a galope para buscar e levar ao médico. Depois voltava a galope para a fazenda. Eu sempre fazia isso”, comentou expressiva, fazendo gestos com as mãos, como se revivesse todas as histórias ao contar à reportagem.

Felicidade também frisou que quem cuida dela é a filha mais velha, no entanto, logo avisou: “Mas eu não dou trabalho, tenho saúde. Às vezes fico com uma dorzinha de barriga, mas é só tomar um remédio que passa. A minha filha diz pra mim que vai fazer um chá, eu tomo, e passa. Minha filha cozinha e faz tudo, até sopa”.

A senhora, com animação de uma criança, falava mais dos outros do que de si. “Muitas amigas vem me visitar. Duas, três amigas, sempre. No meu aniversário não sei quantas mil pessoas vieram. Lá por fora da casa, tinha muita gente”, dizia ela, demonstrando o tempo todo que gosta de estar cercada de pessoas queridas. “Adoro gente, porque vem e conversa comigo. O Adir tem a casa dele, mas ele sempre vem aqui. Eu gosto”, disse citando um de seus filhos.

Alegria

Sem reclamar de nada, ela conta que era alegre e dançava muito, mas que seu marido não sabia dançar. Ele era mais velho e viúvo quando se casou com ela, e na fazenda, sua vida não tinha tantas festas. “As pessoas riam de mim, de tão alegre que eu ficava”.

Bem humorada, Felicidade encontra graça e prazer nas coisas simples. Quando falou mais uma vez do caçula, Adir, disse que “todos o chamam de ‘Neguito’, mas ele é branco”, e a afirmação foi seguida por uma risada, a mesma com a qual presenteou a equipe em outros momentos.

A mulher, centenária, que gosta de festas e de estar com a família, surpreende com a vitalidade de menina. Ao perguntar se ela gosta de dançar, a resposta é dada com as mãos para o alto, e com um grito: “Alavantu, anarriê” (expressão francesa “abrasileirada” falada em danças, que significa para frente e para trás).

Felicidade disse ainda, que tem vontade de fazer uma grande festa em sua casa, reunindo pessoas para que ela as ensine a dançar. “Eu sei dançar muito bem. Se eu puder eu danço. Já pedi um baile aqui em casa, assim ensino as pessoas a dançar”, disse ela ainda relembrando: “No meu casamento, o salão ficou cheio e eu dancei chupim (dançado ao som de ritmo da polca paraguaia, com três pares), e a gente estralava os dedos”.

“Vó Dadade”, como é chamada, disse que gostava também de viajar. “Já passeei muito, de avião nem se fala. Quando meu pai estava doente, eu ia sozinha. Meu pai cuidava de cancha, criação de cavalos de corrida”.

Presente

Felicidade comparou o passado com sua realidade atual. “Eu tomava chimarrão com meu marido, mas hoje tomo café e chá”, disse ela analisando detalhes de sua rotina simples.

Ela também falou da vaidade, que tinha e que não acabou com o tempo, mas que se transformou em alguns aspectos. “Um tempo atrás eu não queria cabelo branco. Então eu pintava. Mas hoje que estou velha, deixa o cabelo branco ficar branco. Não pinto mais”, revelou.

As filhas de Felicidade contaram que, há pouco tempo, Herondina saiu para ir à Igreja e quando voltou, a mãe havia pegado a tintura para cabelos e tentado pintar suas próprias madeixas. “Fez a maior sujeira e ficou com o cabelo todo manchado”. Quando a filha se descuida, a mãe costuma procurar cremes no guarda-roupa e experimentar todos eles. “Eu gosto de passar cremes, óleo, porque às vezes minha pele coça, e eu passo e fica bom”, comentou Felicidade.

Ela falou também que em casa costuma mesmo apenas receber visitas. “Eu não faço nada, porque minhas filhas não deixam”.

Longevidade

Quando questionada sobre o segredo da longevidade, Felicidade diz: “Alimentação, viver bem com a família. Nunca briguei com ninguém. Até hoje sou alegre, contente. Meu marido dizia pra não maltratar os amigos com palavras”, afirmou.

Com olhar positivo sobre o mundo, a centenária gosta de mostrar tranquilidade. “Minha vida é boa, bem mais calma que antigamente. Vivo com meus filhos. Vivo como Deus quer. Sou católica”, e mudando de assunto da água para o vinho, disse em seguida: “Você tinha que ter assistido a festa do meu aniversário”.

Felicidade não tem plano de saúde, não costuma tomar remédios, e segundo ela mesma, gosta de tomar chás naturais, e conforme as filhas, come muita banana e abóbora, além de alimentos naturais em geral. A alimentação pode ser o segredo de seus longos e bem vividos anos, no entanto, o que mais marca a personalidade dela em uma longa conversa é o amor que nutre pelos familiares, e o carinho que a cerca, que também colabora para que continue apaixonada pela vida.

No final da entrevista, sobre algo que ainda gostaria de realizar nesta vida de mais de cem anos, “Dadade” falou: “Que a vida leve o que Deus quer. Eu estou bem assim. A hora que eu quero dormir, eu vou dormir”.

Ana Maria Assis

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