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Entrevistas

Formado em geografia, “Paulo do Radinho” conta o que o levou a dançar e cantar nas ruas da Capital

25 março 2012 - 19h00 Por Markito

Ao som de Elvis Presley e Raul Seixas, Paulo Cesar da Silva Batista, mais conhecido como “Paulo do Radinho” conta um pouco de sua história. Aos 52 anos, mora sozinho em um apartamento na região central de Campo Grande. As paredes são cheias de papéis, reportagens e fotos dele, sempre com o famoso radinho nas mãos.

Nasceu em Uruguaiana no Rio Grande do Sul, a mãe é carioca e o pai, já falecido, português. Chegou ao Estado com 10 anos de idade, na época ainda Mato Grosso. Junto com os pais, morou em Bela Vista.

Em 1975, quando os pais e os irmãos foram para a cidade de Jardim, Paulo veio para Campo Grande para trabalhar e estudar. Entrou para a Fundação de Cultura do Estado, formou-se em Geografia e já foi comentarista de cinema e vídeo em jornais impressos.

Paulo é carismático com os vizinhos, sai cumprimentado a todos. Durante a entrevista, fez questão de dançar e cantar músicas do Raul Seixas para a equipe do MSREPÓRTER. Ele conta como surgiu a ideia de ir para rua cantar e dançar, como é a relação com sua família e se já sofreu preconceito nesses anos em que esteve na Avenida Afonso Pena.

MSREPÓRTER: Por que fez geografia?

Porque em Bela Vista, onde eu morava, eu já dava aula de geografia para as crianças. Eu gostava dessa coisa de sair da fronteira com a Argentina, com o Paraguai. Gostava de consultar mapas e estudar os povos, o que era Paraguai, o que era Argentina, o que era cada país, sempre me fascinou essa coisa.

MSREPÓRTER: Como você se mantém, de onde tira seu sustento?

Trabalho na Fundação de Cultura desde 1980, sou gestor de atividades culturais. Na verdade, naquela época, eu tinha interesse em cinema, eu gostava muito de cinema e já gostava de dançar. Mas não dançava na rua, dançava em clube, dançava com os amigos, na praça, mas brincando de dançar. Esses dias eu vi uma foto minha em 1985 e eu tava com um rádio dançando. Na fundação, não sou bibliotecário, mas atendo o público, faço indicações de livros, faço catalogação de livros, porque eu leio muito. Minha fonte de renda é a fundação, trabalho das 12 às 17h30.

MSREPÓRTER: Hoje você mora sozinho, mas você já foi casado?

Casei em 1984 em Campo Grande. Em 1996, eu me separei. Tenho três filhos, uma arquiteta, um faz medicina na Federal e a outra faz direito na UCDB . Eu os amo, sou louco por eles, sou apaixonado por eles. São três filhos que não me dão trabalho, são excelentes.

MSREPÓRTER: E como é a relação entre você e seus filhos?

Acho que eles aprenderam muito comigo sobre a sinceridade e qual é o papel do homem no mundo. Por exemplo, eles não gostam do meu trabalho, não gostam de me ver dançando na rua, eles têm esse problema comigo, comigo e com meu trabalho.

E eu os respeito profundamente, não acho que eles têm que aplaudir o trabalho do pai, e acho também que a sociedade campo-grandense é muito conservadora, moralista e “hipócrita”.

E cobram isso deles. Quando comecei a dançar eles tinham apenas sete anos de idade. Então, imagino o que essa sociedade hipócrita fez com meus filhos. Acho que eles são muito sadios, para chegar aonde eles chegaram, por isso que eu os respeito profundamente.

MSREPÓRTER: Você se refere ao preconceito?

As pessoas tem preconceito e ia tudo para cima deles. “Alá o louco, Alá o louco da Afonso Pena, Alá o pai de fulano”. Imagina uma criança, ouvindo chamar o pai dela de louco, foi difícil para eles. Então, eu entendo esse lado deles.

Hoje, as pessoas me ligam. Nesses dias, meu telefone não parou de tocar porque foi um cara no Jô Soares, um artista que eu não sei quem é, que foi fazer em São Paulo, o que faço aqui em há 15 anos e o Jô babou pelo cara. Eu faço isso aqui há 15 anos, e nem por isso eu me vanglorio disso, isso é natural para mim, é o meu trabalho.

MSREPÓRTER: E você ainda tem contato com os seus filhos?

Não. Eu não os vejo faz oito anos, mas tenho notícias deles, sei que eles estão bem. Acompanho a distância.

MSREPÓRTER: E como surgiu essa ideia de andar nas ruas cantando e dançando?

Era noite de Natal, 25 de dezembro de 1996. Eu estava esperando a família para comemorar o Natal, quando chegou minha esposa e falou pra mim “Olha, cara, não dá mais. Eu não quero inaugurar essa casa. Não quero mais ser casada com você. Eu adoro você, eu amo você, mas você é um cara que só pensa em arte, só pensa em cultura, só pensa em jogo, só pensa em andar de ônibus. E olha eu tô precisando trocar o meu carro 96 para um 97 e você andando de ônibus e achando um máximo”.

Eu falei para ela: “Mas eu nunca te enganei, minha vida é essa, eu gosto da minha vida, eu gosto de andar a pé”. A gente se amava, mas tinha ideias diferentes, ou ela se enganou, ou eu a enganei. Mas eu acho que eu não a enganei porque eu sempre fui essa figura, nunca usei tênis de marca, roupa de marca.

Depois disso, eu peguei o radinho e falei para ela “Tudo bem então, fazer o quê”. Peguei o radinho e desci a Rua 14 de julho até a Avenida Afonso Pena. Eu tinha um amigo que trabalhava na antiga Rádio Ativa e ele me ofereceu uma música achando que eu estava inaugurando a casa. Ele ofereceu a música “Pra dizer Adeus”.

Eu comecei a dançar essa música e comecei a chorar. Mas, como eu estava de óculos escuros, o pessoal que estava ali não viu que eu estava chorando. Começaram a aplaudir e aí eu olhei para cima e agradeci. Eu estava de luto, meu pai havia morrido fazia seis meses, em Jardim. Eu agradeci meu pai, agradeci a Deus e falei: “É isso que eu vou fazer. Até eu me curar, eu vou dançar para ver o sorriso no rosto das outras pessoas”. E comecei a dançar.

Depois eu viajei, fui para Portugal, ver a família do meu pai. Fui conhecer os meus tios, meu pai já tinha falecido, fui conhecer a casa onde ele nasceu. Lá, eu dancei mais um pouco, em Portugal, na Espanha.

Voltando da Europa, minha vida já tinha mudado. Mas eu já tinha criado uma expectativa na cabeça das pessoas aqui. Eu vi que eu criei uma expectativa na cabeça daquelas pessoas que andam ali pela Rua 14 de julho, e então resolvi continuar dançando.

MSREPÓRTER: E o radinho? Sempre foi o mesmo?

Esse aqui eu ganhei de um fã de rua. Eu estava perto da Rádio Ativa, estava com o radinho, que era da minha filha, que foi o primeiro. Quando estava saindo da Rádio Ativa, passou um ônibus e eu assustei. Bati no poste, estragou o radinho e abri a boca a chorar. Até o ônibus parou, o motorista achou que tinha me atropelado.

Aí o filho do artista plástico Cleir Ávila, foi lá e me viu chorando. Ele falou eu vou te dar o meu radinho e deu. Hoje ele já é um homem. Ele pediu para botar o nome dele no rádio e eu coloquei. “Gabriel” é o nome do menino. O primeiro chamava Júlia, por causa da minha filha, e agora vai chamar Gabriel. E é ele que está comigo até hoje.

MSREPÓRTER: E ele já estragou alguma vez e que tipo de música você ouve sempre?

Ele vive consertando, direto vai para o conserto. Eu ouço Elvis Presley, Raul Seixas, Renato Russo, Legião Urbana. Gravo tudo na fita. Ouço porque são músicas da minha época.

Eu sou uma pessoa que não bebo, não fumo, quer dizer, eu fumava, parei de fumar há 90 dias. Não uso drogas e preciso de alguma coisa para me distrair. A música, o cinema, a dança, é isso para mim, é distração. Porque as pessoas não vivem só de trabalho.

MSREPÓRTER: E sobre esse lenço que fica amarrado no rádio?

Esse lenço tem uma história legal. Eu peguei um lençol que a minha ex-sogra deu de presente de casamento e recortei. Como eles tinham vergonha do meu rádio, só por causa disso, peguei o lençol que ela me deu e fiz lenço. Falei: “Vai secar meu suor e vai andar grudado no meu rádio”. Era um lençol indiano caríssimo e ficou charmoso no rádio. E valeu bem para limpar os óculos.

Agora, eu tenho um monte de lenço. Eu compro e ganho muitos também, esse aqui eu ganhei de uma vizinha. Nas ruas eu também ganho muita coisa, coca-cola, diamante negro, ganho pilha para o rádio, ganho até frango assado.

MSREPÓRTER: Como é a reação das pessoas quando passam na rua e olham você dançando?

Tem de tudo, mas a maioria gosta, aplaude, pede para eu estar lá. Tem gente que vai lá dançar comigo sábado e domingo. Em todo lugar que vou o pessoal pede para eu dançar. Eu fico lá das 6 da tarde até 3 horas da manhã, até sair o último ônibus.

Já vi de tudo, mas procuro lembrar só de coisas boas. Todo dia alguém para, pede para tirar foto. Tenho vários amigos nas redes sociais. As pessoas me dão dinheiro, já ganhei até dólar. Uma vez, a menina desceu do ônibus e me deu cinco dólares, achei um barato.

MSREPÓRTER: Já te chamaram de louco?

Sim, mas hoje, as pessoas aceitam mais. Só que, às vezes, penso que eu sou louco mesmo. Olhando para Campo Grande, fico pensando como é que eu tive coragem de fazer isso. Agora até que hoje está mais fácil, no começo teve mais preconceito, mas ainda tem. Tem gente que me chama de “veado”, “maconheiro”.

MSREPÓRTER: Em alguns momentos da entrevista você demonstrou certo desapego aos bens materiais, até mesmo quando separou da sua esposa, é isso mesmo? Você não se importa com o “ter”?

Eu gosto de boas coisas, mas não vou ficar me matando de trabalhar. As pessoas se matam para ter um bom cargo, para ter um bom carro, eu não vou ficar. Porque não vale a pena, a vida é muito curta.

Tem o céu, tem o sol maravilhoso que me faz sorrir, uma arara linda. Os animais aqui nessa cidade que são lindos de você olhar. Essas coisas me dão mais prazer do que um belo carro para andar na Afonso Pena.

Imagina! Eu tenho boas pernas para andar, não preciso comprar um carro. Ando de ônibus, a pé ou de carona, e olho bem quem está dirigindo porque se o cara beber eu já nem entro no carro.

MSREPÓRTER: Você gostaria de deixar algum recado final?

Eu tenho uma frase minha que eu sempre digo “Eu estou bem e quero vocês todos de bem com a vida, como eu estou”. O importante é ser feliz e mais nada.

Adriana Oliveira

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