Ficar famoso, ganhar muito dinheiro, trabalhar apenas cinco horas por dia ou viver muitas aventuras. Sonhos da maioria dos estudantes que escolhem a carreira de jornalismo. Mas a realidade é bem diferente do que se imagina. Uma profissão de extrema importância para sociedade, mas que ainda é pouco valorizada. Mas quem é jornalista de formação e de coração sabe que a carreira é apaixonante, seja no jornal impresso, no rádio, na TV ou no online, que tem se expandido muito nos últimos anos.
Nascida em Campo Grande, ela chegou a tentar seguir carreira no ramo da química, mas acabou se rendendo a comunicação. Na semana em que se comemora o Dia do Jornalista (7 de abril), o MSREPÓRTER entrevistou Vanessa Amin, que é jornalista e presidente do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso do Sul (Sindjor-MS).
Vanessa contou porque optou pelo ramo da comunicação, como foi sua caminhada até chegar aonde chegou. Também descreveu os principais desafios da área, principalmente após a queda da obrigatoriedade do diploma em 2009 e sua opinião em relação ao reflexo na procura por vagas nos cursos de comunicação. Além dos problemas com baixos pisos salariais, falta de valorização dos profissionais e até onde o Sindicato pode agir, diferenciando de um “Conselho” de comunicação, que ainda não existe no Brasil.
Orgulhosa por ter escolhido o jornalismo e preferencialmente a assessoria, Vanessa comentou sobre o leque de opções da área, dando ênfase que qualquer que seja a escolha, o trabalho tem que ser feito com ética e responsabilidade.
MSREPÓRTER: Você é nascida e criada em Campo Grande?
Sou campo-grandense. Nasci na Cidade Morena, em 1974, e sou descendente de libaneses. Passei os primeiros anos da minha infância em Campinas e Três Lagoas. Em 1980, regressamos para a Capital, eu, meu pai, minha mãe e minhas duas irmãs. Cursei parte dos anos do Ensino Fundamental no colégio Nossa Senhora Auxiliadora e no Centro de Educação Integrada (CEI). Os dois primeiros anos do Ensino Médio foram no colégio Dom Bosco. Já o terceiro ano fiz no colégio Anglo de Campinas.
MSREPÓRTER: Como surgiu o interesse pelo jornalismo?
Confesso que aos 16 anos, quando precisava optar por um curso superior, o Jornalismo não foi minha primeira opção. Antes de iniciar o curso na UFMS, fiz quase um ano do curso de bacharelado em Química, na Unicamp. Quando percebi que a paixão pelo mundo das reações químicas não era tanta, decidi reavaliar a minha decisão e retornei para Campo Grande. Sempre gostei muito de ler, de escrever, então fiquei indecisa entre o curso de Letras e de Jornalismo. Fui buscar mais informações sobre as duas áreas e optei então pelo Jornalismo. Acredito que o fascínio pela profissão começou nos primeiros meses de aula, quando consegui avaliar a importância da atividade do jornalista para a sociedade.
MSREPÓRTER: Hoje você é Mestre, quando se formou, já sabia em qual área gostaria de exercer?
Formei-me em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em 1997, e, desde o início da carreira, optei pela atuação em assessoria de imprensa. Outra paixão sempre foi pela sala de aula, então decidi fazer especialização em Metodologia e Didática. Assim, paralelamente às atividades como assessora de imprensa, integrei o corpo docente do curso de Jornalismo da Universidade Anhanguera-Uniderp por quase nove anos. Entendo que qualificação é algo que todos devam buscar de forma constante, por isso, cursei o programa de Mestrado em Letras, oferecido pela UFMS no câmpus de Três Lagoas, entre os anos de 2006 e 2007, quando desenvolvi pesquisa aliando as duas áreas de conhecimento: Linguística e Comunicação.
MSREPÓRTER: E como foi sua jornada no Sindicato até se tornar presidente?
Em 2005, veio o convite para fazer parte da diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais. Na primeira gestão da qual participei, fui diretora de Imprensa, na segunda, vice-presidente e há pouco mais de um ano e meio estou na presidência do SindJor-MS. O que considero um desafio gratificante. Atualmente, sou jornalista na Coordenadoria de Comunicação Social da UFMS.
MSREPÓRTER: Fazendo um balanço sobre a decisão do STF em relação à queda diploma, você considera que muitas pessoas desistiram de estudar jornalismo?
Tudo que poderia falar a esse respeito seria mera suposição, pois não tive acesso a uma pesquisa a esse respeito. Acredito que quando alguém escolhe uma determinada profissão, o que a move neste sentido está muito além do diploma. Ainda há muitas profissões no país que não são regulamentadas e nem por isso são pouco procuradas. Até mesmo porque, hoje, não há mais tempo de aprender o jornalismo nas redações. O tempo é pouco, as exigências são muitas. Não há espaço para quem não é qualificado para o exercício da profissão. O curso superior ajuda sim, mas acredito que o talento e competência são definitivos. Em qualquer área, quem quiser se destacar no mercado de trabalho precisa se qualificar, seja por meio de cursos de extensão, de graduação e cursos de pós-graduação.
MSREPÓRTER: Como está a situação desse impasse sobre a obrigação do diploma?
A luta pelo reestabelecimento da obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional está concentrada em colocar em pauta e aprovar as propostas de emenda constitucional que tramitam na Câmara e no Senado. No Senado, conseguimos uma vitória no ano passado, na primeira votação. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), os sindicatos, profissionais e estudantes, agora voltam seus esforços para que o tema retorne à pauta no Congresso. Neste sentido, é essencial que todos pressionem os representantes – deputados federais e senadores – a se posicionarem em favor das PECs.
MSREPÓRTER: Em sua visão o que pode atrair os estudantes de volta para o curso de jornalismo?
Quem realmente escolhe o jornalismo como profissão, quem tem vocação e talento para a área não se intimidou com a decisão do Supremo Tribunal Federal. Penso que os cursos de Jornalismo devam oferecer em sua estrutura curricular disciplinas e infraestrutura que favoreçam a formação não apenas técnica dos acadêmicos, mas o que considero essencial: uma sólida formação humanística, social e ética. Não adianta dominar as mais recentes tecnologias se o estudante não consegue fazer uma avaliação mais completa de determinados temas ou problemas da sociedade. É preciso enxergar além, para isso é necessário muito conhecimento.
MSREPÓRTER: A internet hoje tem aberto várias oportunidades para os profissionais. Como você avalia o crescimento do jornalismo on-line?
A Internet veio para ficar. O jornalismo ganhou mais um espaço para disseminar as informações. Acredito que, como em qualquer outro veículo, os conceitos básicos devam ser observados: boa apuração, redação objetiva e precisa, preocupação com a veracidade, isenção, equilíbrio. São coisas que não podem ser preteridas em função da pressa, do tempo, da necessidade do furo ou da atualização minuto a minuto.
MSREPÓRTER: Na internet, um sério problema é o Ctrl C e Ctrl V e não é possível ainda ter o controle sobre o que é original e o que é copiado. Como a você vê esta questão?
Trata-se de algo muito sério e que já foi e continua sendo tema de pesquisas e debates. Algumas pessoas simplesmente desconhecem que existe uma legislação que rege o direito autoral. Que textos, fotos, vídeos não podem ser reproduzidos sem permissão dos autores e que há punições para quem desrespeitar isso. Lembro que um editor de um site entrou em contato dizendo que recebeu um e-mail do autor de uma fotografia cobrando pelos direitos de uso da imagem. Ele me questionou se a cobrança era legal, mesmo ele tendo mencionado o crédito da foto. Eu disse que sim, pois a reprodução só pode ser feita mediante negociação e autorização expressa do autor. Fiquei impressionada com a falta de conhecimento a esse respeito. Outro problema é a reprodução fiel do conteúdo produzido pelas assessorias de imprensa. Muitas vezes isso não fica claro para o leitor, ou seja, o veículo assina aquele texto como se fosse uma reportagem de sua responsabilidade. Os releases podem ser aproveitados? Sim, se a informação fornecida tiver boa qualidade, mas é preciso levar em conta que o texto originado por uma assessoria de imprensa, por mais que seja bem redigido, oferece apenas um ângulo, um lado do assunto.
MSREPÓRTER: Nossa profissão é pouco valorizada em relação ao salário. Muitas redações não pagam o piso. Como é feita essa negociação aqui em Mato Grosso do Sul?
Em Mato Grosso do Sul as negociações com relação a salários e condições de trabalho são extremamente difíceis pelo fato de não existir um sindicato patronal. Se não há uma convenção coletiva, não há como estabelecer um piso mínimo oficial que precisaria ser seguido por todas as empresas de comunicação. Porém isso não tira do trabalhador o direito de ter um acordo coletivo em sua empresa. Esse acordo que lhe garantirá reajustes anuais, estabelecerá regras e poderá lhe conceder benefícios. Porém, para que o Sindicato possa fazer a intermediação dessa negociação junto à empresa, é necessário que os profissionais que lá atuam formalizem o pedido junto ao Sindicato, pois não podemos simplesmente bater à porta de um veículo ou empresa de assessoria de comunicação e obrigá-la a firmar o acordo coletivo. A partir dessa formalização, começamos então o processo de negociação e esse processo não é fácil, pois é feito empresa por empresa todos os anos. Acredito que já houve um progresso, a cada ano, estamos sendo procurados por novas empresas para estabelecer o acordo coletivo. O Sindicato tem feito a sua parte para tentar valorizar um pouco mais a profissão, mas isso só é possível à medida que os próprios profissionais despertam para a necessidade de lutar por melhores salários, melhores condições de trabalho. Muitas vezes até queremos um índice de reajuste maior ou inserir um ou outro benefício, mas a partir da primeira negativa da empresa, os trabalhadores recuam e aceitam as condições, não levando as negociações à diante, por exemplo, partindo para um dissídio, por temer represálias ou perder o emprego. O jornalista sempre luta pelos direitos de todos, denuncia as mazelas da sociedade, o trabalho escravo, mas, muitas vezes, se cala diante dos problemas de sua rotina.
MSREPÓRTER: O jornalismo é um leque de oportunidades, internet, impresso, assessoria, TV... Qual a área está em alta no mercado atualmente, de acordo com sua opinião?
O jornalismo hoje traz realmente um leque de oportunidades. Alguns falam que o mercado de assessoria é o mais promissor, com os melhores salários. Porém acredito que para escolher uma dessas áreas a pessoa deve se identificar, ter o perfil e as características específicas que cada uma delas exige. Caso contrário, não se sairá bem. Quem gosta muito da rotina da reportagem de um veículo diário, por exemplo, pode não se adaptar ao trabalho em uma assessoria de comunicação. Penso que há espaço em todas as frentes. Mas, com certeza, o profissional tem que ser qualificado para o exercício daquela função.
MSREPÓRTER: Quais são as principais ações do Sindicato e quais os benefícios que os filiados podem ter?
É interessante que ainda há uma confusão sobre o papel do sindicato e o papel que teria um conselho profissional. Qual é o papel do Sindicato? Trata-se de uma instituição que deve atuar na defesa do interesse dos trabalhadores, ou seja, melhores salários, condições de trabalho, estabelecimento de convenções ou acordos coletivos, informando sobre ofertas de empregos, estabelecendo convênios e parcerias para beneficiar os seus filiados, representando-os. Ninguém é obrigado a ser filiado a um sindicato. As denúncias que precisam chegar ao Sindicato são aquelas que dizem respeito a não observação da legislação trabalhista. Já um conselho profissional tem como funções principais orientar, normatizar e fiscalizar o exercício da profissão, inclusive defendendo a sociedade dos maus profissionais. Na nossa área, por não haver um Conselho, não há uma instância que exerça essas funções, como acontece com outras profissões. São pouquíssimas as denúncias formalizadas junto ao Sindicato com relação a problemas trabalhistas. Quando recebemos, procuramos a direção das empresas ou encaminhamos diretamente para a Superintendência Regional do Trabalho ou Ministério Público para que sejam tomadas as devidas providências.
Além disso, hoje, todos os filiados do SindJor-MS contam com uma série de parcerias que beneficiam com descontos em cursos de qualificação (de línguas, extensão, graduação e pós-graduação), em serviços das áreas de saúde e beleza, assistência jurídica a valores diferenciados, descontos em eventos culturais, entre outros. Agradeço, inclusive, a todos os parceiros que têm aberto as portas ao SindJor-MS e a nossos associados. Estamos à disposição de todos para sugestões de novas parcerias.
MSREPÓRTER: O que é necessário para se filiar?
Para ser filiado ao SindJor-MS é preciso ter registro de jornalista profissional, repórter fotográfico, repórter cinematográfico ou diagramador, todos expedidos pelo Ministério do Trabalho, além de uma relação de documentos e duas fotos 3x4. Quem é filiado também pode ter sua carteira de identidade nacional expedida pela Fenaj a um valor diferenciado, além da carteira internacional de jornalista, expedida pela FIJ. Também é necessário pagamento da mensalidade para ter acesso a todos os benefícios. Precisamos esclarecer outro ponto: o SindJor-MS é filiado à Fenaj e, portanto deve observar as orientações da Federação que, por meio de uma votação dos conselheiros, impede a filiação daqueles que conseguiram o registro por decisão do STF. Até que haja outra reunião e o tema seja novamente discutido, temos que obedecer. Com relação aos procedimentos para filiação e expedição das carteiras, estamos à disposição para esclarecer as dúvidas pelo telefone (67) 3325-5811.
MSREPÓRTER: Dia 7 de abril é considerado o Dia do Jornalista oficialmente. O que representa pra você ser jornalista?
Tenho orgulho da minha profissão. Não me arrependo da escolha que fiz há quase 20 anos e tenho buscado exercê-la dentro dos preceitos éticos, observando os conhecimentos adquiridos na graduação, durante a vivência no dia a dia e nos cursos que fiz desde então. Decidi que queria ir um pouco mais além e deixar a minha contribuição também para a classe, por isso optei em dedicar um pouco do meu tempo às lutas do Sindicato. Todos dizem que somos uma classe desunida. Não sei se essa seria bem a palavra. Penso que muitas vezes temos pouco tempo para cuidarmos dos nossos interesses, pois nos envolvemos até a alma com os problemas da sociedade pela qual e para qual trabalhamos. Espero que neste 7 de abril, Dia do Jornalista, cada um dos que optaram por essa digníssima profissão separe alguns minutos, algumas horas, para refletir sobre de que forma tem contribuído para que ela seja exercida com mais dignidade e reconhecimento.
Helton Verão
Leia Também
Detran de Mato Grosso do Sul passa a oferecer opção de CNH exclusivamente digital
Equipamentos e 522 viaturas:
Projeto de IA do Detran-MS
Foto: Karla Lyara