Para os apaixonados por cultura, o MS Repórter entrevistou o cineasta Miguel Horta, que descobriu seus dons nas artes plásticas ainda criança, e resolveu ir para São Paulo buscar novos conhecimentos na área da arte. Trabalhou na TV Tupi de São Paulo, e voltou para Campo Grande com muito gás e muitas idéias para ajudar a cultura do estado.
Como você iniciou no cinema?
Desde pequeno eu sou um apaixonado por cinema. Meu irmão que é meio índio, filho do meu pai com uma índia, e ele foi um dos maiores escultores aqui do Estado, se não o maior. Aquele monumento que tem no museu José Antônio Pereira, daquele senhor e aquela senhora sentados em pedra de granito, foi ele quem fez. Então uma vez ele me deu de presente um projetor de slides com 150 imagens do Egito, e eu já pintava, fazia esculturas, quadros, sempre fui artista plástico desde que nasci, e vendo aquele projetor de imagens, fiquei apaixonado pelas imagens que projetava. Foi quando comecei a pesquisar e ficar interessado em cinema, mas como cinema era muito distante da minha realidade, eu comecei a escrever texto de teatro, desde 12 anos eu já escrevia alguma coisa.
Onde você foi buscar conhecimento?
Quando eu tinha 17 anos fui para São Paulo com um amigo com a intenção de entrar em algum lugar onde tivesse cinema, TV ou arte e eu consegui entrar na TV Tupi de São Paulo e fui ser assistente de cenografia, aprendi muita coisa, trabalhei em abertura de novela, acompanhei produção de novela e muitos outros.
Com meus primeiros salários eu comprei uma filmadora, Super oito que é uma filmadora de cinema e comecei a fazer meus primeiros filmes. Meu primeiro filme foi um curta metragem, e como não tinha muito conhecimento, fiz imagens e juntei as idéias, e deu resultado, neste primeiro filme eu fazia uma crítica a um refrigerante que vendia muito na época. Depois fiz outro na Avenida Paulista, nos casarões antigos que estavam sendo demolidos, tive a ideia de registrar cada um deles, antes da demolição, era um filme que se chamaria “Adeus São Paulo”.
Decidiu voltar a Campo Grande por quê?
Voltei para Campo Grande porque minha família é daqui, e me empolguei em trazer meu conhecimento para a capital, pois aqui ainda estava caminhando. Trabalhei na TV Morena, criei a cenografia na TV que não havia, fiz teatro durante um tempo, pois, na época era ruim fazer cinema em Campo Grande, pois era muito complicado devido à falta de estrutura. Foi então que me dediquei por sete anos ao teatro, e montei três peças que teve um retorno da mídia fantástico.
E como foi retornar com o cinema?
Voltei para o cinema anos depois e fiquei durante um ano fazendo roteiro sobre a retomada de Corumbá na Guerra do Paraguai. E tive a idéia de produzir festivais de cinema, trouxe muita gente importante como Jaime Bom Jardim, Benedito Rui Barbosa, todos para estes festivais que produzimos. Gravei vários curtas metragens como o chamado A Máfia, que foi gravado na antiga ferrovia, e depois fiz um outro que era uma homenagem a Charles Chaplin, feito em película. Na mesma época comecei a ministra cursos, trouxe muitas pessoas de fora para fomentar o áudio visual aqui no estado, como cursos de direção de arte, marketing, projetista, etc. Tive parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul para realizar a Primeira Mostra de Cinema.
E sobre o filme "Los Niños de La Guerra", como está?
No caso do meu filme, estou nesse projeto há sete anos, a idéia do filme veio quando estava lendo um livro de um general, pensei em fazer um filme mostrando o sofrimento das crianças na Guerra do Paraguai, gravei na cidade de Porto Murtinho e hoje tenho 52 minutos editado e pronto, falta ainda resgates históricos que não pode ficar de fora. O filme está muito bonito, são 300 crianças em cena, o Davi Cardoso participa fazendo o papel de um general velho.
O filme ainda não foi finalizado, pois faltou verba e preciso gravar dez cenas, nos meus cálculos 90% do filme está pronto. O jurídico das Fundações de Cultura e Manoel de Barros exigiram o direito de imagem das crianças que foram gravadas no filme, mas essas crianças já estão com 18 anos, e é impossível conseguir isto hoje em dia. Agora quero fazer um movimento e justificar para a sociedade que sou muito cobrado nesta parte jurídica. Estou com a idéia de fazer que nem um diretor italiano fez, ele não finalizou o filme que estava produzindo e jogou no festival, em construção, e as cenas que irão faltar vou pegar os atores que eu já convidei, e colocar eles sentados, falando o texto. Expondo que é um trabalho que está em processo para que as pessoas se associem a mim.
Porque parou com os festivais?
Os festivais duraram três anos, realizados por mim, e no quarto ano tive que optar entre fazer o festival ou fazer cinema, pois eu não podia escrever os dois projetos nas leis de incentivo a cultura na Fundação de Cultura, então resolvi ficar com o filme. Foi então que meu parceiro de trabalho deu a ideia de doar o projeto do Festival para governo, e eles pegaram meu projeto engavetaram e fizeram outro festival, eu sinceramente achei isso uma falta de ética enorme, pois não me chamaram, não conversaram comigo, e eu podia entrar na justiça contra eles, porque, eles usavam três palavras do meu projeto no festival deles. No mínimo, deveria acontecer era uma parceria.
Qual a finalidade do curso que iniciou?
O ator de teatro tem certa aversão ao ator televisivo, então isso que eu quero mostrar no meu curso. Estou querendo especializar o ator de TV e cinema, diferenciado do ator de teatro, criando uma técnica, que não existe ainda que é a minimação do movimento, como o ator trabalha com a câmera, ele vai ter que falar minusculamente com o movimento do rosto e do corpo. O teatro é amplo, é preciso projetar a voz, e então é isso que estou trabalhando, a intimidade com a câmera, que não existiu nenhum projeto prático para o ator se ambientar com quem esta filmando. No teatro você tem um envolvimento com o público, pois o teatro é algo mágico, e o cinema e a TV são filmados fora da ordem. Estou ensinando no meu curso isso, a linguagem do cinema. O curso é voltado para ator, mas também dou muita dica de construção de roteiro, estou passando tudo o que eu aprendi. A diferença de cinema, TV e teatro.
Essas técnicas que você esta criando esta embasada em que?
Estão embasadas pra mim numa técnica de Stanislasvisk e na psicologia, eu estou pegando essas duas matérias para poder juntar e criar uma nova técnica.
Qual a diferença do ator de teatro para o ator de cinema?
O ator de teatro é muito diferente do ator de TV e cinema, e estou querendo comprar um briga, colocando que um bom ator de televisão e cinema pode ser melhor que um ator de teatro. Porque o teatro é tudo grande, o ator se expande e na TV é a câmera está muito próximo do rosto, na cara do ator que significa que ele tem que ser muito verdadeiro mais verdadeiro que no teatro. Na televisão praticamente tudo é gravado no estúdio, as externas são em cidades cenográficas, o diretor você nem vê e o contato é todo com a produção.
No teatro o seu papel não tem nada que auxilia para incrementar o personagem, já no cinema é diferente, pois tenho objetos e elementos, posição de câmera, que dão ganho nas imagens. Quando filma bem próximo do ator, dá para sentir a respiração, a aba do nariz se movendo, o olho se contraindo, a testa, então estou criando marcaras, para esse ator brincar com a dilatação e expressão corporal. O cinema trabalha com a linguagem naturalista, eu acho muito mais belo você passear no rosto do ator, você vê a expressão do rosto nitidamente.
Como é trabalhar com cinema no Estado?
Editais para incentivo ao cinema têm, e hoje existe muita gente fazendo curtas metragens, o Governo do Estado tem dado verba para os inscritos, mas eu estou preso, por problemas burocráticos, perdi autorização de imagem dos atores, e o não posso receber verba. Acho que as leis de incentivo a cultura devem ser mais democráticas, e menos burocráticas.
Quais as melhorias que devem acontecer no áudio visual do Estado?
Você já percebeu algum filme local lotar 100%? Fica em cartaz durante meses? Então falta divulgação, falta uma coisa chamada política de popularização da arte de modo geral, investir pesado em mídia. Você nota a diferença quando o evento de arte é divulgado ou não, e tem que ter mais oficinas e estudos, para orientar a galera, investir em cursos.
Objetivos para 2012?
Finalizar meu filme e fazer um estudo para voltar com o festival de cinema para 2013.
Fernanda Mara
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