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Entrevistas

Jovem de 14 anos que se prostituiu por R$ 0,50 hoje conta por tudo que passou

30 maio 2012 - 19h00 Por Markito

Um cantinho todo especial com decorações na parede, um ar totalmente familiar e agradável, assim é a Casa Lar Meninas dos Olhos de Deus, um abrigo para meninas que foram vítimas de abuso sexual que fica em Campo Grande.

Hoje a casa abriga onze crianças entre cinco e dezessete anos e é coordenado por Zuleica de Abreu. Dividimos a entrevista da semana do MSREPÓRTER em duas partes, vocês vão acompanhar hoje o depoimento de uma adolescente de 14 anos, que aqui chamaremos de Dora*, e se prostituia por R$ 0,50 e era mal tratada pelo pai.

Na próxima semana, a coordenadora da Casa Lar das Meninas dos Olhos de Deus conta como é feito o trabalho dentro da casa com essas meninas. Espero que se emocionem tanto quando eu que fiz as entrevistas.

MSREPÓRTER - Como você veio parar aqui no abrigo?

DORA - Eu me prostituia com homens mais velhos que eu, por R$ 0,50, por R$ 1,00. A minha família não cuidava direito de mim, eu vivia fugindo de casa, apanhando, e meu pai vivia bebendo, meus tios usavam drogas, outros estavam presos, e quando eu vim pra cá eu menti que meu pai tinha me abusado. Mas assim que cheguei, Deus tocou meu coração e contei a verdade, afinal, mentira só leva a destruição, e foi aí que contei a verdade e estou aqui mudando a historia da minha vida e da minha mãe.

MSREPÓRTER - E porque você resolveu mentir?

DORA - Eu menti porque eu tinha raiva do meu pai, meu pai que eu chamo é meu avô. Minha tia contou que ele abuso da minha mãe, e existe a possibilidade de eu ser filha do meu avô, que foi quem me criou.

Minha mãe me deixou quando eu era bebê. Mas cada um fala uma coisa e não consigo entendo direito essa história.

MSREPÓRTER - Você ainda quer saber dessas coisas que aconteceram na sua vida?

DORA - Eu quero saber de tudo quero saber quem é meu pai.

MSREPÓRTER - Você se prostituia por quê?

DORA - Eu pedia dinheiro pro meu pai e ele nunca tinha, eu queria dinheiro pra compra bolacha e não tinha, então eu ia me prostituir. Ficava com homens por uma caixinha de som, por algumas coisas bem baratas, ou os meninos pediam, já fiquei com meu primo com sete anos.

MSREPÓRTER - Como surgiu essa idéia? Veio da sua cabeça?

DORA - Minhas amigas falavam em namorar, eu ia pela cabeça delas. Nessa época eu já ficava, transava.

Já transei com um cara na frente da minha casa por R$ 0,50 e lá na escola eu conheço um menina que é neta desse cara que eu fiquei, sabe, eu fico com muita vergonha. Dá vontade de fala mais eu não falo porque tenho muito medo, até hoje eu tenho nojo disso.

MSREPÓRTER -Como você apareceu no abrigo?

DORA - Eu fugi de casa e fui morar com minha tia. Um dia tomei uns remédios porque estava com muita dor de cabeça. Tomei oito comprimidos de paracetamol. Minha tia falou que eu queria prejudicar a vida dela.

No outro dia passei mal na escola, e me levaram ao posto de saúde, o conselho tutelar foi lá me pegou, e eu fui para o SOS Criança. Meu pai sempre dizia que o abrigo tinha colchão de cimento, mas nunca passou pela minha cabeça que eu poderia parar num abrigo e estou aqui agora.

Aqui as pessoas me amam me dão amor, me dão muito carinho e sempre me dão conselhos bons.

MSREPÓRTER - E como é a relação com sua mãe?

DORA - Antes eu não tinha muito contato com minha mãe e nem com meus irmãos, mas agora eu vou lá vê-los, meus irmãos me estranham, ficam um pouco afastados de mim, tento abraçá-los mas eles não querem. Meu padrasto parece que ele gosta de mim e nem do meu irmão porque ele nem fala com a gente.

Eu me sinto triste e culpada por toda essa situação, minha mãe vive numa situação muito difícil, não tem o que vestir, não tem o que comer, meus irmãos ficam descalços passando frio e eu fico muito preocupada. A casa tem 3 peças, quarto, cozinha e banheiro.

MSREPÓRTER - O que você espera do futuro?

DORA - Quero trabalhar, estudar, ter uma casa, arrumar um marido e ajudar minha mãe. Meu sonho é tira ela daquela casa, dar uma casa pra ela, uma vida melhor pra ela e meus irmãos.

MSREPÓRTER - Qual seu sentimento em relação ao padrasto?

DORA - O meu pai (avô) falava que quando morávamos com meu padrasto ele batia muito na gente, batia com vara de espinho que chegava a machucar. Não entendo porque ele é assim, ele fala comigo. Mais eu quero ter contato com ele, para nos unirmos, para cada um ajudar um.

MSREPÓRTER - Como se sentia quando morava com seu pai?

DORA - Eu tinha nojo, porque eu tinha muito medo de ficar grávida, mais não ligava para a vida, pedia para minha tia nos levar no bar e íamos, bebia um pouco (normalmente tomava menta, cerveja). Antes disso eu já tinha um namorado, minha prima foi com ele para o motel, eu fiquei sabendo e isso me entristeceu demais.

Lembro que meu pai falava um monte de coisa, que eu ia em bar, e eu falava que era mentira e com isso fui ficando com raiva dele.

Quando via meu pai, tinha muita raiva dele. Ele ficava direto no bar, falava de mim para os velhos que bebiam com ele, e quando eu passava na rua da esquina do bar, os velhos mexiam comigo. Minha tia me contou que ele chegou a me trocar por um copo de pinga no bar certa vez.

MSREPÓRTER - Você se lembra da sua primeira vez?

DORA - Eu não lembro direito se foi com dez anos ou mais nova, e foi com o Mateus que era um menino que eu gostava.

MSREPÓRTER - Como você se sente hoje que mora aqui em um abrigo?

DORA - Eu me sinto muito bem, protegida. Lá fora o mundo está acabado com prostituição, bebidas e drogas . Meus tios fumavam dentro de casa e tínhamos que dormia juntos, era horrível, muitas brigas e discussões. Eles pegavam coisas de dentro de casa para comprar droga. Aqui é tudo diferente e eu me sinto cuidada, amada de verdade.

MSREPÓRTER - Desde quando chegou aqui, mudaram seus pensamentos?

DORA - Mudei muito. Quando eu morava em casa, só queria saber de coisas do mundo, aqui estou tentando mudar. Me sinto bem, vou para escola, estudo. Lá em casa eu nem pensava em estudo, aqui foi a primeira vez que eu fui no cinema, nunca tinha saído com a minha família. Aqui eles cuidam de nós, são nossa família, mãe e pai que nunca tive até chegar aqui.

MSREPÓRTER - Como você agradece tudo isso que o abrigo te proporciona?

DORA - Obedecendo, ajudando eles e respeitando.

Fernanda Mara

* Nome fictício

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