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Entrevistas

Acidente, superação e esporte marcam a vida de paracanoista da Capital

22 junho 2012 - 14h23 Por Markito

Rodrigo Figueiredo, 30 anos, sofreu uma acidente gravíssimo de carro em 2009, passou dias no hospital e ficou com uma grande sequela, ele perdeu os movimentos das pernas e hoje é uma exemplo de vida e superação, mesmo estando em uma cadeira de rodas. Após todo seu tratamento e recuperação, começou a praticar canoagem e se tornou o primeiro representante de Mato Grosso Do Sul na modalidade, o que trouxe a eles vários prêmios. Nesta entrevista ele conta toda sua história, os incentivos, a mudança que teve em sua vida e como conseguiu suportar essa reviravolta.

MS Repórter - Primeiramente Rodrigo conta um pouco da sua história. Como foi o acidente?

Rodrigo - O acidente foi em julho de 2009, na BR que liga Jardim a Bela Vista. Estávamos voltando para Jardim e o amigo que estava dirigindo o carro, perdeu o controle do veiculo e capotou, sozinho, não teve colisão com outro veículo. Eu estava no banco de trás, inclusive no momento eu estava dormindo, era de manhã, em torno de 7h e acabei não vendo nada do acidente, quando acordei, já estava fora do carro, fui arremessado, foi um acidente gravíssimo, tive politraumatismo, também fraturei a coluna, antibraço, tornozelo e costela. Não estava de cinto, estava no banco de traz e sempre banco de traz a gente tem essa mania errada, de não usar o cinto e esse amigo meu que estava dirigindo faleceu, o outro que estava no banco de trás comigo, nós estávamos em três no banco de trás, ele também faleceu, o que estava do meu lado. Foi muito grave, a velocidade no momento acho que estava um pouco alta.

MS Repórter - Vocês tinham ingerido bebida alcoólica?

Rodrigo - Estávamos em uma festa, mas ele mesmo que estava dirigindo, o Gabriel, estava com uma namorada, então ele estava mais tranquilo. Lembro que mais ou menos 5h30 da manhã, fomos comer um lanche, tomamos refrigerante e demos uma descansada e pegamos a estrada de volta quando aconteceu tudo isso. Logo em seguida do acidente, fui para Jardim, tive o primeiro atendimento, depois vim para Campo Grande e na Santa Casa tive o atendimento emergencial. Dois dias depois, o acidente foi em um domingo, na terça-feira já fiz as cirurgias que tinha que fazer das fraturas que eu tinha e ali já foi constatado que eu tive uma lesão medular por conta da fratura na coluna, na 12ª vértebra e no meio daquela loucura toda você não sabe nem o que esta acontecendo. No geral ali mais ou menos eu fiquei uns 18 dias. Em seguida vim para casa, a partir do momento que fez as cirurgias tranquilas, recuperei bem, vim para casa fazer a recuperação.

MS Repórter - Qual o momento que ficou sabendo da sequela? No hospital mesmo você foi avisado que tinha perdido os movimentos das pernas?

Rodrigo - Já, no próprio momento do acidente eu já percebi que alguma coisa grave tinha acontecido, por que tentei movimentar, mandei o comando, as pernas não responderam. A gente fica naquela dúvida, parece que sabe, mas não quer acreditar, é uma coisa muito complexa, até o momento que o médico fala, que explica o que é uma lesão medular, quais são as causas dessa lesão, mesmo assim a gente não tem muita noção da abrangência no negócio. Após cinco meses eu fui para o Hospital Sarah Kubitschek em Brasília, um hospital especializado em reabilitação, fazer o tratamento. Nessa parte de lesão medular, eles mesmos também não têm muito conhecimento, a medicina em si não tem. Lá no Sarah disseram que a lesão medular é complexa e que como você não sabia que ia acontecer, a gente não sabe como o organismo pode reagir e ter uma resposta, uma melhora ou manter do jeito que esta. Eles não batem o martelo. Você sabia que ia ter essa lesão? Não sabia! O seu organismo pode reagir de uma forma que a gente não consegue prever, então vai de organismo, vai de pessoa, vai do tempo. A partir do momento em que, eles que são mais conhecedores da causa, do problema, da lesão medular em si, não são categóricos, deixam vago, sempre há uma esperança. O que eles proporcionam através da reabilitação lá é você viver a vida da melhor forma possível, se hoje o quadro é esse, estar em uma cadeira de rodas. Então, vamos seguir, vamos viver!!!

MS Repórter - Como foi a sua reação ao saber da sequela, que teria que passar a andar de cadeira de rodas?

Rodrigo - Eu não tive depressão, tristeza lógico, normal diante do quadro. Sempre procurei me recuperar e melhorar. O que eu queria logo em seguida era a liberação dos médicos de Campo Grande para mandar meu laudo para Brasília e nesse período foram quase 120 dias, quando eu fiquei dentro de casa, não podia fazer nada, a partir dali eu mandei os papéis para Brasília, consegui a vaga, fui para o Sarah e ao chegar ao hospital, foi constatado que eu estava com uma outra fratura na coluna cervical, como se eu estivesse com o pescoço quebrado literalmente, ai lá eles falaram: "Olha isso é gravíssimo, você tem que fazer uma cirurgia urgentemente". Fiz uma segunda cirurgia, depois de quase seis meses do acidente e aí como era a segunda vértebra da coluna cervical, um fratura alta, fizeram um enxerto ósseo e tiveram que me mobilizar, o corpo inteiro, então fiquei igual um robô mesmo e para poder ter a recuperação da cirurgia. Foram sete meses com um capacete, um colete, então foi esse tempo que eu tive que ficar dentro de casa, não tinha escolha, era treinar a paciência para poder recuperar.

MS Repórter – Qual o momento mais difícil em todo esse período para você?

Rodrigo - Então, naquele segundo momento, dessa segunda cirurgia, foi bem difícil, se bobear até mais do que a época do acidente, por que eu fui para Brasília para tentar melhorar e veio esse freio de novo, essa barreira, um baque tão grande quanto o acidente, que você pensa em melhorar e vem mais uma dessa, parece que você regrediu tudo de novo. Foi um período bem difícil, mas tenho minha família que nunca deixou de me apoiar, o tempo inteiro, eu não tinha muitas opções, era dentro do quarto, porque eu todo mobilizado, todas as atividades que eu ia fazer era difícil e era isso, exercitar a paciência. A partir do momento que eu consegui tirar isso ai, fui para Brasília de novo, fiquei um mês lá, depois que eu tirei esse colete, fiquei um mês e me mandaram ira para casa descansar um pouco, fiquei aqui em Campo Grande dois meses e quando voltei para lá aí que fui fazer a reabilitação.

MS Repórter - Quando teve contato com o esporte? Com a canoagem?

Rodrigo - Nesse período de três meses de tratamento em Brasília, eles me mostraram que usam o esporte como forma de reabilitação. Ao invés de fazer um exercício repetitivo para ganhar força de novo, para ganhar resistência, eles usam os esportes, coloca você para fazer natação, tem basquete na cadeira de rodas e um dos esportes é a canoagem. Foi o meu primeiro contato na vida com canoagem, eles usam como lazer, não colocam para competir, vamos jogar basquete, vamos remar, como parte do tratamento. Eles usam de uma forma muito boa para você, só que não está tendo aquela obrigação, aquela coisa “chata”, você está se reabilitando e praticando um esporte, fazendo uma coisa divertida ao mesmo tempo e a canoagem é um dos esportes. Nesta mesma época desses três meses eu conheci o Fernando Fernandes, o ex-BBB, que hoje é tri campeão mundial de paracanoagem. Depois desse período, você volta a cada ano para exames de rotina, consulta para manutenção, revisão de todo se quadro. Era o retorno dele e a minha primeira ida, então ele já tinha vivenciado tudo, o 1º campeonato mundial, que ele ganhou, falando do esporte com aquela empolgação toda e eu pensei se é bom pra ele pode ser bom pra mim também e aí fiquei com aquilo na cabeça. Ele foi embora, continuei mais uns dois meses lá no Sarah e quando voltei para Campo Grande, em fevereiro de 2011, após ter ficado final de novembro, dezembro, janeiro e começo de fevereiro de 2011, tudo internado, voltei, procurei a Federação de Canogem daqui de MS e eles falaram vamos tentar. O presidente, Vladimir falou que não tinha muita prática com a paracanoagem, mas se eu quisesse ele me apoiava e fomos.

MS Repórter - Como é a paracanoagem em MS? Surgiu com você?

Rodrigo - Aqui em MS tem a canoagem, mas não tinha a paracanoagem e nem um paratleta ainda e a gente começou e tentou. No início eu queria como lazer, eu pensei: "fez tão bem pra mim no tratamento, então vou continuar fazendo". Mas, por não ter muitos conhecimentos não deu certo. Em agosto, voltei para Brasília, fiquei agosto e setembro de 2011 e nesse período procurei uma escola de canoagem, pedi autorização ao Sarah para fazer as aulas fora, que não é coisa normal, pois a partir do momento que você interna passa a ser de responsabilidade deles, mas consegui essa autorização, fiz quase dois meses de aula, duas vezes por semana e foi o que me deu a bagagem para aprender técnica e equilíbrio, quando voltei para Campo Grande em outubro, continuei colocando em prática tudo que aprendi nas técnicas, nos macetes, por que a canoagem e a paracanoagem não tem distinção de caiaque, o que o olímpio usa o paraolímpico usa é o mesmo, com alguma diferença de dimensão somente, na largura do cockpit (onde o atleta senta), mas olhando de fora para dentro é normal, como eu não tenho o movimento das pernas e tenho que controlar o caiaque com meu quadril, acaba sendo bem mais difícil para mim do que para um atleta que tem o movimento das pernas, a parte de equilíbrio é muito difícil. Peguei essas técnicas, esses macetes em Brasília e voltei para Campo Grande, treinei dois meses e pensei em ir para vou para o Campeonato Brasileiro nem que seja para passear. Competi e graças a Deus deu tudo certo, consegui uma medalha de ouro nos 500 metros e uma de prata nos 200 metros, ficando atrás só do Fernando, que é bi campeão mundial, então para mim era ouro e com esses bons resultados que tive no brasileiro, fui convocado para a seleção de paracanoagem que participou agora do panamericano no Rio e consegui prata também, de novo atrás do Fernando, perdi para um cara que hoje é referência mundial no esporte. Além de meu amigo hoje é um grande exemplo como atleta e como pessoa, como superação. A lesão na minha coluna e a dele é a mesma, então somos da mesma categoria. No panamericano fizemos dobradinha brasileira. Foi ele quem me incentivou a praticar a canoagem, apesar de tudo, quando a gente foi vizinho de cama ali na enfermaria, passando pelo mesmo problema, pelas mesmas dificuldades e ele falando do esporte, todo o bem que causou para ele, ficando de igual para igual dentro d'agua, traz de volta uma sensação que tinha perdido por conta da cadeira de rodas. Você de igual para igual com um atleta olímpico, uma seleção brasileira, você remando no mesmo patamar que ele é uma sensação muito boa.

MS Repórter - Como é sua rotina hoje? O seu dia a dia?

Rodrigo - Hoje eu treino no Parque das Nações Indígenas de segunda a sábado de manhã e vou para a academia de segunda a sexta. Na academia treino força e no parque treino resistência, então hoje sempre é minha família, um amigo que me ajuda ou na academia ou na hora de ir treinar na água.

MS Repórter – Tem alguma coisa que você almeja alcançar de imediato? Além dos títulos desejados?

Rodrigo - Se eu conseguisse ter apoio financeiro, patrocínio para me tornar independente dentro do esporte e melhorar a qualidade do material, do caiaque, remo, ter um acompanhamento de um profissional, um personal trainer na academia. Tudo isso ia engrandecer para eu conseguir melhorar os resultados. Minha intenção hoje, se eu conseguir conciliar a parte de patrocínio com o esporte, era o que eu queria para mim hoje, seria pra mim o auge dentro do esporte. Fazer o esporte que eu gosto, que está me dando bons resultados, não só para mim mas para o nosso estado, conciliar com a parte de patrocínio, por que demanda gastos, preciso de alguém que me auxilie, a entrar no caiaque, que me ajude a entrar dentro d'agua, fazer musculação...

MS Repórter - Quais títulos já conquistou, nesse curto período de tempo?

Rodrigo - 1º paracanoista do estado com o campeonato brasileiro e no campeonato brasileiro do ano passado fui o único representante do MS e hoje o pessoal já identifica, é o Rodrigo de MS. Quando fui era uma novidade, o estado nunca tinha participado do campeonato brasileiro de canoagem velocidade, que é a categoria que eu participo. Então levar o nome do estado que eu nasci é uma alegria, um orgulho.

MS Repórter - Como analisa essa falta de patrocínio?

Rodrigo - Todo esporte, exceto o futebol, no Brasil, tem uma certa dificuldade na questão de apoio, mas eu to confiante de que agora com algumas indicações de uns empresários, eu possa ter esse retorno. Esse reconhecimento da mídia é muito importante também e vai ser mais fácil. Hoje ainda não tenho nenhum patrocínio, mas estou buscando.

MS Repórter - Você recebeu algumas homenagens aqui no estado? Quais são e como foram esses momentos?

Rodrigo - Eu recebi duas moções da Câmara de Vereadores e uma moção da Assembleia Legislativa. É uma honra, um feito ser reconhecido pela nossa casa de leis, dos representantes ali da Assembleia, foi bem especial para mim.

MS Repórter - Se fosse fazer um pedido, o que mais precisaria hoje?

Rodrigo - O que mais precisaria hoje, se fosse fazer um pedido para algum empresário, para alguma empresa que fosse me apoiar era isso, o apoio para o dia a dia, pra ter condições de ter um técnico, uma pessoa que me ajudasse ali no translado de casa para o treino, casa para academia, um personal trainner, uma nutricionista, fisioterapeuta, é mais complexo, mas não é nada absurdo. Isso seria para fechar essa luta que eu tive desde o momento do acidente, até esse último campeonato que foi o panamericano, ai fecharia com chave de ouro mesmo.

MS Repórter - Seu intuito hoje é sobreviver do esporte da paracanoagem?

Rodrigo - Sou formado em Direito, mas pelos prêmios que já conquuistei, tenho muito a evoluir no esporte. Os resultados vou manter agora quero conseguir crescer e ter melhores resultados, ir para o campeonato mundial. Sou vice panamericano, que já é uma grande coisa, por ser uma cidade que não tinha ninguém ainda, mas quero alcançar objetivos maiores, campeonato mundial ano que vem e as olimpíadas em 2016 e conciliar a parte financeira com o esporte, que todo atleta busca, esse é o meu objetivo, o foco. Com quatro meses conquistei o campeonato brasileiro. Hoje é um estilo de vida, pois sem a canoagem parece que esta faltando alguma coisa.

MS Repórter - Surgiram mais atletas no estado, que se inspiraram em você?

Rodrigo - Bastante pessoas começaram a praticar a paracanoagem, por telefone, facebook, lá mesmo no parque no treinamento, sempre aparece gente pra olhar, perguntar como funciona para iniciar a pratica. Eu tenho uma ideia de montar uma escolinha de paracanoagem, para além da parte social, a pessoa que tem alguma deficiência, praticar a paracanoagem. Dar essa sensação legal de estar de igual para igual, de liberdade e com esse projeto aparecer novos atletas e vão estar representando o estado tão bem quanto eu.

MS Repórter - Com relação a família, como que foi desde o inicio, o apoio com relação a recuperação do acidente e o esporte?

Rodrigo - Minha família, sem duvida é tudo pra mim, sem eles não tinha dado essa volta por cima do acidente e nem no esporte, por que eeles acreditaram em mim o tempo inteiro, na recuperação, na parte física, emocional, que a gente fica bastante abalado e eles também. Minha mãe, meu pai, foram quem me deram a base. Com o esporte eles sempre me apoiaram e acreditaram em mim. É bem difícil, conciliar técnica, equilíbrio e força e eles sempre me incentivando.

MS Repórter - O que diria para quem está deprimido em função e algum problema, alguma sequela de um acidente?

Rodrigo - Acima de tudo, acreditar em você. Se colocar na cabeça que é possível, ninguém vai tirar, acreditando, tendo um apoio da família, a base, a fé, que é fundamental. O limite está mais na cabeça do que na situação, na realidade em si, então acredite em você e que a bola pra frente e corra atrás do que quer. Do sonho, dos objetivos, que nada é impossível para quem quer, para quem busca. Só não deixar os momentos de tristeza ultrapassar os demais.

MS Repórter - Tem alguma música que inspira você, que marcou toda essa etapa de sua vida, essa superação?

Rodrigo - Tem sim, a musica “Tá escrito”, do Grupo Revelação, é minha música, é meu lema. Tanto que fiz uma tatuagem no braço, em inglês, que diz, tá escrito. Essa música eu ouvi muito no período que fiquei em Brasília, me recuperando e me ajudou a superar todas as dificuldades.

Confira a letra da música abaixo:

Tá Escrito - Grupo Revelação

Quem cultiva a semente do amor

Segue em frente não se apavora

Se na vida encontrar dissabor

Vai saber esperar sua hora

As vezes a felicidade demora a chegar

Aí é que a gente não pode deixar de sonhar

Guerreiro não foge da luta, não pode correr

Ninguém vai poder atrasar quem nasceu pra vencer

É dia de sol mas o tempo pode fechar

A chuva só vem quando tem que molhar

Na vida é preciso aprender, se colhe tem que plantar

É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar

Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé

Manda essa tristeza embora

Basta acreditar que um novo dia vai raiar

Sua hora vai chegar

 

Confira video da música "Tá Escrito - Grupo Revelação" clicando aqui

 

Por: Mariana Anjos

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