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Entrevistas

Queda na taxa Selic e efeitos no mercado brasileiro e sul-mato-grossense

10 setembro 2012 - 05h57 Por Markito

Para explicar melhor o que está acontecendo no momento no mercado econômico brasileiro e os reflexos no Estado de Mato Grosso do Sul, entrevistamos o economista atuante na Capital, Ricardo José Senna.

MS Repórter – O que é a taxa Selic?

Ricardo – A taxa Selic é considerada a taxa básica da economia, é a taxa de referência para todas as taxas de juros de mercado. Ela é formada no que a gente chama de Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic). Por meio desse sistema, o governo faz compras e vendas de títulos para financiar os seus gastos e a taxa de juros que ele consegue nesse mercado tem uma credibilidade que garante a ela ser a taxa básica de juros da economia. Então, uma vez que o governo faz a definição e opera no mercado para manter essa taxa no patamar que ele definiu todas as demais taxas de juros acabam sinalizando esse valor.

MS Repórter – O mercado realmente segue essa taxa?

Ricardo – Ela é uma referência apenas. Se avaliarmos, por exemplo: a taxa de juros está em 8% ao ano, é claro que o banco não pratica esse valor ao ano, mas vai praticar taxas diferenciadas dependendo da operação que realizará para você. O cheque especial, por exemplo, deve ter taxa de 5 a 8% ao mês, capital de giro a mesma coisa, sendo mais alto por ser ao mês. Enquanto a Selic é ao ano, as taxas de juros, por exemplo, do cheque especial são taxas de juros ao mês. As administradoras e bancos que têm cartão de crédito cobram uma taxa que varia entre 10 a 15% ao mês. Então, as taxas mais baratas são as taxas de juros para investimento de longo prazo, como o Programa Nacional da Agricultura Familiar, para pequenos produtores, que é de 2,5% ao ano, as taxas do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO) ou do próprio Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), que operam em aproximadamente 6,5% ao ano. Então as taxas de juros para financiamento de longo prazo, essas são mais baratas. A taxa do consumidor, a taxa para o varejo, ela é mais alta. Por que dá essa diferença? Essa diferença se dá, por exemplo, quando essas instituições financeiras calculam os graus de risco de cada operação.  Houve no Brasil, nos últimos anos, um acordo de proliferação de financeiras. Diferentemente dos bancos, tomar crédito nas financeiras é menos burocrático, no entanto as taxas são mais altas porque o risco é maior. Algumas se propõem inclusive a liquidar suas dívidas, como se fosse uma compra de dívidas. Isso está regulamentado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Banco Central fiscaliza. Então isso é possível acontecer, é um pouco do conceito da Portabilidade também da dívida. Não é a toa, que provavelmente o consumidor já deve estar recebendo a ligação de vários bancos dizendo “olha, eu compro sua dívida... abra a sua conta no nosso banco, a gente te dá `n´ vantagens” e tudo mais. Como cada pessoa tem um grau de risco diferente, o banco acaba praticando uma taxa mais ou menos média, considerando o público com quem ele trabalha. E essa taxa, certamente é maior do que a Selic.

MS Repórter – Para o Comércio, Indústria e Agropecuária têm cada uma um valor de taxa diferente?

Ricardo – As taxas são as praticadas pelo sistema bancário. Então, o que vai diferenciar é mínimo entre um banco e outro. Talvez um banco te ofereça uma ou outra vantagem, dependendo da situação de risco que você tem. E ele vai avaliar isso quando faz o seu cadastro, onde ele pede contra-cheque, comprovante de renda para avaliar a sua capacidade de pagamento. É observado, por exemplo, se você tem alguma restrição cadastral e tudo isso é levado em consideração na hora de definir qual é o grau de endividamento que você pode assumir e consequentemente a taxa de juros que ele pode te oferecer.

MS Repórter – Qual o reflexo no mercado, na situação em que a Selic está alta, e quando está em baixa?

Ricardo – Em geral, a gente costuma dizer que a taxa de juros, teoricamente, se relaciona inversamente com duas variáveis essenciais para a economia: investimento e consumo. Se a taxa baixa, em tese, os investimentos e o consumo deveriam aumentar na seguinte lógica: você abaixa a taxa de juros, então o custo de empréstimos e financiamentos é menor. Então o crédito fica mais farto. Se você tem crédito mais farto, poderá, por exemplo, se sua máquina fotográfica precisa ser melhorada ou trocada, e você não tem o dinheiro a vista, não terá problemas, porque você pode ir à uma loja que poderá te oferecer o que precisa em parcelas. Ela oferece em parcelas porque tem alguém que está bancando isso, que poupou isso em algum momento no mercado financeiro e tem esse dinheiro disponível e o crédito está alto. Então, você faz a operação, ao fazer isso, e contando com mais pessoas realizando a mesma ação, o fabricante recebeu uma mensagem do mercado de que as vendas estão se aquecendo aí ele começa a produzir mais. Produzindo mais, ele está empregando mais pessoas, gerando mais capital e a economia começa a aquecer. Em tese, a baixa taxa pode favorecer o crescimento da economia. E o raciocínio inverso é verdadeiro, se a taxa de juros aumenta, ela se relaciona inversamente com o consumo e o investimento, ou seja, ela diminui esses dois últimos. Porque o custo de você consumir e antecipar o consumo fica mais caro. Então isso retrai as vendas, a indústria observa que está vendendo menos, já produzem menos, desemprega e tudo mais. Mas isso é em tese.

MS Repórter – E o momento atual, como está na prática?

Ricardo – Por isso afirmei que isso tudo é em tese. Agora a taxa de juros está baixando, o governo nas três últimas reuniões do Copom têm baixado a taxa de juros, no entanto, os indicadores, por exemplo de produção industrial, têm diminuído, mostrando certo desaquecimento da economia, tanto é que o governo novamente colocou medidas de estímulo ao consumo, reduzindo IPI para carros e para eletrodomésticos da linha branca, e a reação está lenta. Um dos principais fatores para isso ocorrer é o fato de termos uma crise internacional que afeta um pouco o desempenho da economia brasileira. A própria China, que é um importante parceiro comercial do Brasil de 2004 para cá, reduziu seu crescimento, com previsão de crescer 8% ao ano, o que é bom, no entanto é um número abaixo do que ela crescia antes, que era de 10%. Com 2% a menos de crescimento, imagina o quanto ela deixa de comprar do restante do mundo, principalmente no Brasil e Mato Grosso do Sul faz uma diferença grande. No Estado, temos uma balança comercial que oferece um volume de exportação muito grande para os chineses. E o outro fator que provoca o desaquecimento da economia é essa desconfiança do modelo que temos, que é o de estimular o crescimento por meio do consumo. Tem uns quatro anos que estamos com esse modelo e a dúvida do mercado é saber se nós teremos recursos, o que chamamos de poupança nacional, para continuar bancando esse modelo. E recentemente, os números divulgados mostram um aumento da inadimplência e isso começa a criar um pouco de desconfiança no mercado. Com a inadimplência e a economia desaquecendo, o que significa que temos menos oportunidades de renda (Porque ter dívidas não é o problema, mas sim não pagar. Inclusive, a gente, na verdade, expande nossa base patrimonial por meio de dívidas. São poucas as pessoas que têm o dinheiro todo para comprar à vista um bem. Por exemplo, os economistas estão falando que tem que poupar para negociar à vista, mas quanto tempo eu vou levar para acumular o dinheiro para levar geladeira, fogão e armários da minha cozinha? Um ano? E eu fico fazendo o que com o apartamento novo que eu comprei ou na casa nova que eu estou alugando? Então é uma prática se endividar).

MS Repórter – Qual a perspectiva para Mato Grosso do Sul?

Ricardo – Eu vou usar uma expressão que o prêmio Nobel de economia, Paul Krugman, citou em seu livro “O Internacionalismo Pop”: A gente sofre muitas vezes da economia do elevador que é essa economia do sobe e desce. E geralmente, quando vemos nos noticiários alguma mudança na Bolsa de Valores, as pessoas somatizam e tendem a agir de acordo com essa mudança. Eu acho o seguinte, a taxa de juros é uma referência para o mercado importante para que as pessoas e as empresas possam fazer o seu planejamento financeiro. Mas é essa a palavrinha mágica que a maioria das pessoas esquecem: Planejamento. Se você sabe que corre o risco da taxa aumentar, abaixar, você tem que planejar para saber como você vai se comportar. Eu acho que essa taxa é conjuntural e nós temos que começar a mudar a forma da gente pensar. Temos que comear, tanto do ponto de vista da gestão pública, privada, das empresas e pessoal, a pensar mais a médio longo prazo. Porque essa taxa de juros daqui a pouco vai subir, ela está caindo, mas daqui a pouco vai subir. O câmbio deixa todo mundo preocupado, tudo bem que se descontrola o câmbio vai ter impacto o preço do pão francês e em produtos do dia a dia, mas a gente sabe o que são movimentos conjunturais e o que são movimentos naturais de toda e qualquer economia. O que acredito que temos que fazer é criar uma forma de planejamento onde possamos fazer a gestão do risco associado a essas variações da economia. E a gente tem que começar a olhar lá na frente, investindo que é o que vai nos dar riqueza lá na frente. Esse é o foco. A fórmula da riqueza data de 1776, quando Adam Smith escreveu o livro “Investigação das Causas da Riqueza das Nações”. Logo no primeiro capítulo, ele revela: As nações são ricas porque elas produzem e quanto mais elas produzem mais ricas elas são. O segredo é aumentar a produtividade em todos os setores. Hoje, a produtividade está muito ligada à tecnologia. E é preciso que seja assim, ter a busca pela inovação e a adoção de um novo modelo de economia que é a economia criativa, que eu defendo, que é baseada no conhecimento, na informação e na cultura.

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