Em janeiro deste o ano o presidente do Sistema OCB – Organização das Cooperativas Brasileiras, Márcio Lopes de Freitas, esteve em Mato Grosso do Sul para discutir os desafios do cooperativismo e planejar as próximas ações do setor tomando como base as contribuições de cada região brasileira. A iniciativa integra o novo modelo de gestão adotado pelo sistema, que tem como uma das metas promover o fortalecimento do setor por meio da integração regional.
O cooperativismo brasileiro ganhou evidência na edição nº 100 da revista Dinheiro Rural. Márcio de Freitas foi escolhido como uma das cem personalidades mais influentes do agronegócio brasileiro. A publicação mensal especializada no agronegócio brasileiro dedicou no mês de fevereiro uma homenagem às personalidades que, no seu dia a dia, criam a riqueza do campo brasileiro e transformam o país em protagonista mundial da oferta de grãos, carnes, fibras e combustíveis.
Em fevereiro também foi lançado a agenda legislativa do cooperativismo homenageando Niemeyer, que pode ser acessada aqui. Sobre esse e outros assuntos como a participação na Rio+20 e o Ano Internacional das Cooperativas, o presidente fala em entrevista ao MS Repórter.
MS Repórter – A ONU declarou 2012 como o Ano Internacional das Cooperativas. Isso impacta de que maneira na Imagem do movimento cooperativista?
Márcio Lopes de Freitas – A declaração da ONU confirma a contribuição efetiva do movimento cooperativista mundial para a redução da pobreza, a partir da geração de trabalho e renda. É um reconhecimento internacional do importante papel que tem o setor para a promoção do desenvolvimento sustentável. O cooperativismo realmente desperta nas pessoas o espírito empreendedor e as inclui social e economicamente. Tanto é assim que hoje ele mobiliza 1 bilhão de cidadãos em todo o mundo. No Brasil, especificamente, esse número chega a 30 milhões. A iniciativa das Nações Unidas nos abre também oportunidades, especialmente porque os olhares estarão voltados para as nossas cooperativas. Será uma oportunidades ímpar de consolidar o cooperativismo como alternativa socioeconômica sustentável, como o caminho para o crescimento de várias nações.
MS Repórter - Frente a outros países, como o cooperativismo brasileiro se posiciona?
MLF – O cooperativismo brasileiro é considerado jovem porque tem uma história recente, com pouco mais de 100 anos. Nos últimos 40 anos, o setor conquistou maior relevância, tanto econômica quanto socialmente. Mesmo assim, apresenta características muito fortes. Dos países da América Latina, por exemplo, é o que tem atuação mais diversificada, além de participar mais ativamente da economia nacional e da própria sociedade. Não significa ser melhor ou pior que o cooperativismo de outros lugares, mas um movimento com a cara do Brasil. Então, podemos dizer que as nossas cooperativas estão aproveitando os momentos que a economia nacional oferece, figurando, com certeza, entre as grandes experiências realizadas no mundo. Tanto é assim que o único presidente não europeu da Aliança Cooperativa Internacional (ACI) foi um brasileiro, Roberto Rodrigues.
MS Repórter – Como o senhor avalia a evolução do cooperativismo em Mato Grosso do Sul?
MFL - O movimento cooperativo tem evolução alinhada e interessante, mas não tem crescido, na verdade diminuiu. Percebo que as empresas estão aglutinando, mas o número de cooperados em Mato Grosso do Sul está acima da média, entre 16% e 17%, a essência está bem. Outro Índice é o crescimento do número de funcionários em 14%, eles estão investindo mais e ampliando as cooperativas. Tem trabalho e coordenação sendo feita, liderada pelo Celso Ramos Régis e a superintendente da OCB/MS Dalva Garcia Caramalac unidos no Estado.
MS Repórter – O senhor participou da Rio+ 20. Em que se pode dizer que a sustentabilidade está presente na OCB?
MFL - É o DNA das cooperativas. As cooperativas são empresas de pessoas, do social. O objetivo maior é a sustentabilidade econômica. Estão preocupados com economia e com as pessoas, mas também com o meio ambiente. Expressam no sentido maior também.
MS Repórter – Qual sua opinião sobre o novo Código Florestal?
MFL - É um marco referencial, deixa a desejar, mas é possível melhorar. Não é benéfico para 100% dos agricultores, nem 100% dos ambientalistas. É uma ousadia que tinha que ser feita, é a referência que nós temos porque não se discute o que está na lei. Portanto eu acho razoável e vou defendê-lo para uma regulamentação pacífica.
MS Repórter - Quais os obstáculos e desafios das cooperativas nos próximos anos?
MFL - Tem dois desafios. O primeiro é institucional político. Ter uma representação política mais ampliada para garantir as leis do público que representamos. Os políticos são reconhecidos para representar a sociedade e refletir a realidade que é o grande desafio. Com isso tem evolução. O segundo é a operacional da qualidade da gestão. Hoje tudo está globalizado, é necessário uma gestão moderna, ágeis e competitivos principalmente com o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop). Lançamos no dia 27 de fevereiro o FNQ (Fundo Nacional da Qualidade) para líderes gerentes.
MS Repórter - Quais vertentes pesquisam trabalhadar para fomentar o seu desenvolvimento?
MFL – O crescimento das cooperativas está extremamente ligado à evolução da sociedade, ou seja, as pessoas precisam desenvolver mais a cultura da organização social. Esse é um processo que vai refletir em melhores empresas e, logicamente, melhores cooperativas. Para acelerar essa trajetória, precisamos trabalhar com mais ênfase a educação cooperativa, visando disseminar os conceitos e os princípios do cooperativismo a mais pessoas. Ao mesmo tempo, temos de investir na boa governança, visando à transparência e à segurança, além de seguir bons modelos de gestão profissional. Nesse contexto, é preciso ter sempre em mente que a cooperativa é, acima de tudo, um negócio e, portanto, deve ser gerida com profissionalismo e competência. Assim, com certeza, contribuiremos para esse processo evolutivo. Estamos apostando nisso por meio de ações desenvolvidas pelo Sescoop. Criado há pouco mais de dez anos, ele desenvolve ações de promoção social, no sentido de criar um ambiente mais propicio para a expansão do cooperativismo. Estou certo de que este é o caminho para potencializarmos o movimento cooperativista, tornando-o mais competitivo, ágil e moderno.
MS Repórter -De que forma a OCB tem autuado?
MFL - A função do órgão que representa as cooperativas é aplainar os caminhos, ou seja, criar um ambiente favorável ao seu desenvolvimento. A interlocução com os poderes constituídos da República – Executivo, Legislativo e Judiciário -, sem dúvida, está entre as ações prioritárias. Atuamos estrategicamente com o intuito de esclarecer e, ao mesmo tempo, reforçar as particularidades do cooperativismo, visando normas que atendam a essas características e contribuam para o crescimento do setor. Não menos relevante é a definição de marcos legais regulatórios que influenciarão diretamente no processo evolutivo das cooperativas. Precisamos de normas sintonizadas à realidade. No tocante à lei cooperativista, por exemplo, podemos dizer que o Brasil tem um aparato legal consistente, mesmo que o originário de 1971. Mas muita coisa mudou, evoluiu, e temos de acompanhar essas alterações. Além disso, questões tributárias e regulamentações específicas para os ramos nos quais atua o segmento também estão entre as prioridades.
MS Repórter – Como é ser escolhido uma das personalidades mais influentes do agronegócio brasileiro, como o senhor recebe essa homenagem feita pela Revista Dinheiro Rural na Edição 100º, em fevereiro de 2013?
MFL - Me sinto honrado pelo cargo. Ser reconhecido é porque tem reflexo nas ações e uma pesquisa por trás. A instituição merece esse espaço. Isso tem impacto nas políticas públicas. Agora eu vou fazer jus ao cargo e reconhecimento.
Por Ana Paula Duarte
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