A audiência do julgamento do presidente egípcio deposto Mohammed Mursi, que teve inicio nesta segunda-feira (4), foi suspensa após a abertura porque o réu se negou a vestir o uniforme de acusado como lhe pedia o juiz. Musri também se declarou o presidente legítimo.
Após a atitude do réu, a Justiça egípcia decidiu adiar o julgamento para o dia 8 de janeiro de 2014. Com isso, a defesa de Mursi terá mais tempo para revisar documentos.
Outros 14 dirigentes da Irmandade Muçulmana (organização islâmica da qual faz parte o ex-presidente) estão sendo processados com Mursi por seu suposto envolvimento na morte de manifestantes e nos incidentes suscitados nos arredores do palácio presidencial de Itihadiya no último 5 de dezembro de 2011.
A confraria explicou em seu site que Mursi ficou sorridente durante a audiência, se negou a mudar sua vestimenta e insistiu que é o presidente legítimo do Egito.
Segundo relatos, quando o juiz pediu que o réu se identificasse, ele disse: "eu sou o doutro Mohamed Mursi, o presidente da república. Sou o legítimo presidente do Egito e me recuso a ser julgado por esta corte".
Caso seja considerado culpado, Mursi pode ser condenado à pena de morte ou prisão perpétua.
Durante os julgamentos, os acusados usam um traje branco, enquanto os que já foram condenados vão de azul.
Um dos processados, o membro da Executiva da Irmandade, Mohammed Beltagui, gritou na sala: "abaixo o regime militar".
A esse grito se somaram o do restante dos acusados, que também fizeram com a mão erguida o símbolo dos protestos islamitas, segundo a "Al Jazeera".
O tribunal encarregado do caso é a Corte Penal do Cairo, presidida pelo juiz Ahmed Sabri, e o processo se desenrola na Academia da Polícia, nos arredores do Cairo, por motivos de segurança.
O primeiro chefe de Estado eleito democraticamente no Egito, que ficou apenas um ano no poder, foi mantido em detenção pelo exército em um local secreto desde sua destituição, em 3 de julho.
Mursi foi levado de helicóptero até o local do julgamento, a Academia de Polícia, ao lado da penitenciária de Tora, nos arredores do Cairo, onde estão detidos os principais líderes da Irmandade Muçulmana, o movimento islamita que foi duramente reprimido pelas novas autoridades militares após o golpe de Estado de 3 de julho.
Protestos
A polícia egípcia jogou gás lacrimogêneo contra centenas de partidários de Mursi reunidos em frente à sede do tribunal que o julga.
Fontes de segurança no local informaram à agência de notícias Efe que as forças de segurança usaram o gás para dispersar os manifestantes que impediam a passagem na entrada da Academia da Polícia.
Um total de 20 mil soldados da polícia e das Forças Armadas foram deslocados para os arredores do tribunal, diante do temor de que os protestos convocados pelos partidários de Mursi derivem em distúrbios.
No domingo (3), em visita ao Egito, o secretário de Estado americano, John Kerry, pediu eleições livres e justas no país.
Kerry se reuniu com o presidente interino, Adly Mansur, e com novo líder do país, o chefe do Exército, general Abdel Fattah al-Sissi, para analisar os planos de transição dos militares, que preveem um referendo sobre uma nova Constituição - que está sendo redigida - e eleições legislativas e presidenciais antes de meados de 2014.
O secretário de Estado pediu às autoridades egípcias eleições livres, justas e que incluam todas as partes", enquanto prossegue uma repressão sangrenta à Irmandade Muçulmana, confraria à qual Mursi pertence.
"Ele insistiu ainda sobre o fato de que o estado de emergência, que expira em 14 de novembro, não deve ser prorrogado", declarou à imprensa um funcionário do departamento de Estado que viaja com Kerry.
O secretário de Estado destacou que "a repressão em curso é inapropriada" e que as autoridades egípcias devem "estender a mão à Irmandade Muçulmana e a outros" grupos que apoiam Mursi.
Kerry apelou ainda às autoridades para que protejam os direitos humanos e as liberdades.
O secretário de Estado chegou ao Cairo na véspera do julgamento de Mursi, com o objetivo de fortalecer os laços entre Washington e Egito, aliados de longa data, mas em crise desde o golpe contra o primeiro presidente democraticamente eleito e a repressão a seus partidários.
"Nos comprometemos a trabalhar em conjunto e continuar nossa cooperação com o governo interino", declarou Kerry aos jornalistas. "Os Estados Unidos são amigos dos egípcios e do Egito, e somos parceiros".
Desde o golpe militar, Washington congelou parcialmente a sua ajuda, exacerbando a "fase crítica" em suas relações bilaterais, segundo a diplomacia egípcia.
Os Estados Unidos apoiaram durante três décadas a presidência do predecessor de Mursi - Hosni Mubarak, derrubado por uma revolta popular no início de 2011 - fazendo do país árabe mais populoso seu grande aliado para tentar manter a estabilidade na região. (Com AFP, AP e Efe)
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