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Cultura

Vida e poesia: Manoel de Barros completa 95 anos de idade

19 dezembro 2011 - 07h23 Por Markito

19 de dezembro, um dia especial para Mato Grosso do Sul. Hoje são completados os 95 anos de palavras, de reflexões, de serenidade, de sabedoria, e de vida do escritor respeitado no mundo inteiro pelo talento com as letras, mas que escolheu morar praticamente a vida toda neste Estado. Manoel de Barros.

“Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?

Que hei de fazer?

— Dormir, talvez chorar”.

E a manhã voltou mais um ano para o poeta, que é também fazendeiro e advogado. De Cuiabá, Mato Grosso, Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu no Beco da Marinha, na beira do Rio Cuiabá.

Filho de João Venceslau Barros, capataz com influência naquela região, mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. Atualmente mora em Campo Grande.

Sua infância e sua sensibilidade para enxergar as grandezas das menores coisas, marcam a sua obra e a diferencia das demais. Nequinho, como era chamado pelos familiares, cresceu brincando no terreiro em frente de casa. Sentindo a terra, era um observador de formigas, de lagartixas, e consegue escrever com intimidade sobre qualquer dessas coisas “desimportantes”.

Um “grandessíssimo” “inventador” de palavras. Que fala sobre um “carengueijo se achante” de forma a ser possível imaginar, como um desenho dentro da própria cabeça do leitor um bicho assim, mais que exibido.

Conforme textos da biografia do escritor, ele não gostava de estudar até descobrir os livros do padre Antônio Vieira."A frase para ele era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança", consta em um de seus depoimentos.

“Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,

que puxa válvulas, que olha o relógio”

E realmente, não costuma abrir sempre as suas portas. Intimista, Manoel de Barros não gosta de dar entrevistas. Um amigo do poeta comentou, nos bastidores da classe artística, que ele não gosta de receber mais do que cinco ou seis pessoas em sua casa. E quando lhe perguntaram a razão, ele teria dito que é por causa do número de visitantes que cabe em seu sofá, que prefere receber apenas a quantidade que ficará confortável. Já outro, comentou que ele não gosta de jornalistas, e que se um desses fosse fazer a visita, não poderia levar máquina fotográfica ou gravador.

Neste ano, a Prefeitura de Campo Grande fez uma homenagem ao poeta, inaugurando uma estátua de barro dele ao lado do Paço Municipal. No evento, havia um neto representando o escritor, e sua esposa, que tímida, não desceu do carro. O jovem disse à imprensa que o avô não estava se sentindo muito bem, e que pela idade avançada, não podia passar por fortes emoções.

Exterior

Manoel de Barros conheceu outros mundos. Passou tempos na Bolívia e no Peru e morou um ano em Nova York. Fez curso sobre cinema e sobre pintura no Museu de Arte Moderna. Conheceu tudo o que ampliou ainda mais seu sentido de liberdade.

Na volta ao Brasil, Manoel conheceu Stella. Em três meses de namoro, casou-se com a mineira, com tem três filhos: Pedro, João e Marta. Eles estão até hoje, morando juntos em Campo Grande.

O primeiro livro de Manoel de Barros foi publicado no Rio de Janeiro, há mais de sessenta anos, e se chamou "Poemas concebidos sem pecado". Foi feito artesanalmente por 20 amigos, em uma tiragem de 20 exemplares e mais um, que ficou com ele.

Millôr Fernandes, nos anos 80, mostrou em suas colunas das revistas Veja e Isto é e no Jornal do Brasil, a poesia de Manoel de Barros. Fausto Wolff, Antônio Houaiss e outros também fizeram o mesmo. Os poemas foram publicados pela Editora Civilização Brasileira sob o título de "Gramática expositiva do chão".

O escritor Rubem Alves, que veio a Campo Grande neste ano de 2011 para palestrar em um evento da Fundação Municipal de Cultura (Fundac), comentou com todos que encontrou por aqui sobre sua admiração pelo poeta que mora em Campo Grande. Ele pediu para conhecer pessoalmente Manoel de Barros, e passou uma tarde conversando com ele em sua casa.

“As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.”

E as flores dos caminhos do poeta são perfumadas por premiações e reconhecimento. Ele ganhou o “Prêmio Orlando Dantas” em 1960, conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro “Compêndio para uso dos pássaros”. Em 1969 recebeu o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pela obra “Gramática expositiva do chão” e, em 1997, o "Livro sobre nada” recebeu o Prêmio Nestlé, de âmbito nacional. Em 1998, recebeu o Prêmio Cecília Meireles (literatura/poesia), concedido pelo Ministério da Cultura.

O poeta não usa computador para escrever e diz que o anonimato é por culpa dele mesmo. Em uma entrevista, soltou uma lembrança que ilustra seu orgulho. “Uma vez pedi emprego a Carlos Drummond de Andrade no Ministério da Educação e ele anotou o meu nome. Estou esperando até hoje”.

Morando em Campo Grande, o poeta de vez em quando passa férias no Rio de Janeiro, para rever amigos.

“Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.”

E assim são os 95 anos de vida e poesia, caçando jeito de liberdade. Com suas peculiaridades de alma, como Cecília Meirelles também tinha, e outros tantos escritores, ele segue dentro de seu mundo, mas transbordando este mundo em suas palavras, em seus textos.

Talvez, seja possível dizer que o mundo conheça mais este escritor que as próprias ruas da cidade onde ele mora.

Segue a lista de livros publicados dele, como uma dica de leitura para os campo-grandenses:

1937 — Poemas concebidos sem pecado

1942 — Face imóvel

1956 — Poesias

1960 — Compêndio para uso dos pássaros

1966 — Gramática expositiva do chão

1974 — Matéria de poesia

1982 — Arranjos para assobio

1985 — Livro de pré-coisas (Ilustração da capa: Martha Barros)

1989 — O guardador  das águas

1990 — Poesia quase toda

1991 — Concerto a céu aberto para solos de aves

1993 — O livro das ignorãças

1996 — Livro sobre nada (Ilustrações de Wega Nery)

1998 — Retrato do artista quando coisa (Ilustrações de Millôr Fernandes)

1999 — Exercícios de ser criança

2000 — Ensaios fotográficos

2001 — O fazedor de amanhecer (infantil)

2001 — Poeminhas pescados numa fala de João

2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo (Ilustrações de Martha Barros)

2003 — Memórias inventadas  (A infância) (Ilustrações de Martha Barros)

2003 — Cantigas para um passarinho à toa

2004 — Poemas rupestres (Ilustrações de Martha Barros)

2005 — Memórias inventadas II (A segunda infância) (Ilustrações de Martha Barros)

2007 — Memórias inventadas III (A terceira infância) (Ilustrações de Martha Barros)

2011 - Escritos em Verbal de Árvore

Ana Maria Assis

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