Na madrugada de ontem (8), por volta das 4h, um grupo de indígenas da etnia Guarani-Kaiowá ocupou parte da Fazenda Margarida, em Iguatemi, que fica a 466 km de Campo Grande. Os indígenas reivindicam o Tekohá (terra tradicional, espaço do pertencimento da cultura guarani) Pyelito kue. Eles estão acampados na margem de um córrego, em meio á mata ciliar, em frente à reserva Sassoró, demarcada na década de 1920 pelo extinto Serviço de Proteção ao Índio.
A área ocupada foi estudada pelos antropólogos da Fundação Nacional do Índio (Funai), após a assinatura do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal. O TAC fixou prazos para o cumprimento das fases processuais da regularização fundiária de 39 Terras Indígenas, dentre as quais, figuram Mbaraka’y e Puelito Kue, região ocupada esta semana.
Não é a primeira vez que os indígenas tentam ocupar o espaço, e as outras tentativas acabaram provocando os proprietários que reagiram com intensa violência, conforme depoimentos prestados ao MPF, onde há um procedimento administrativo para apurar o caso. Um dos indígenas, Arcelino Oliveira Teixeira, que participava do movimento em dezembro de 2009, desapareceu no momento da expulsão da terra e até hoje não foi encontrado.
Conforme depoimentos, os “jagunços”, como os indígenas chamam os empregados dos proprietários de fazenda, nesta expulsão de 2009, machucaram as mulheres, chegando a quebrar os braços de uma delas, repetindo: “Nem morrendo cinco ou seis de vocês, nem isso , vai pagar a terra”. Na época, a senhora, cujos braços foram quebrados, reclamou que nem podia comer sozinha, e que seu marido tinha que ajudá-la a tomar banho. “Queimaram toda nossa roupa. Não tenho mais nada. Eu não estou me sentindo mais bem”.
Uma indígena de 68 anos também contou sobre a ação dos “jagunços”. Ela disse que além de mulheres, tinham muitas crianças no local, e que mesmo assim, eles atiravam o tempo todo. E assim seguem os depoimentos, idosos, mulheres e homens desesperados, falando do medo dos latifundiários mesclado com a vontade de recuperar a Tekoha, que segundo eles, faz parte do sentido da vida da tribo, motivo que muitos acabam por atribuir ao alcoolismo e o alto índice de suicídio nas aldeias (evidente principalmente na região de Dourados).
A briga pela terra é antiga. Em setembro de 2003 um grupo também tentou retornar à área, mas dois dias depois homens armados invadiram o acampamento dos indígenas e expulsaram com violência.
9 de Agosto
Hoje, 9 de Agosto, é o Dia Internacional dos Povos Indígenas, proclamado em Dezembro de 1994, pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Por coincidência ou não, o MSREPÓRTER apurou que mais uma ocupação de terra demarcada está prevista para ocorrer ainda esta semana, mas por outra etnia.
Em alusão à data, Ban Ki-moon, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), reafirmou o reconhecimento das dificuldades e da luta dos indígenas para não perder a identidade. “Os povos indígenas enfrentam muitos problemas para manter sua identidade, suas tradições e seus costumes, e suas contribuições culturais são em ocasiões exploradas e comercializadas com escasso ou nenhum reconhecimento. Devemos fazer um esforço maior para reconhecer e reforçar seu direito a controlar sua propriedade intelectual e ajudá-los a proteger, desenvolver e obter compensação justa por seu patrimônio cultural e seus conhecimentos tradicionais que, em última instância, beneficiam a todos nós”.
*O MSREPÓRTER tentou entrar em contato com a Funai, no entanto os telefonemas não foram atendidos. Há informações de que uma equipe de Campo Grande segue para Iguatemi.
Ana Maria Assis
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Foto: Ana Maria Assis